Minha história: Fernando Campos Leza

Eu não vou lhes contar a história de Hans Castorp, mas uma coisa eu tenho em comum com esse personagem: nunca imaginei que minha viagem (na tradução) demoraria tanto tempo. Minha experiência como tradutor teve início em 1998, quando residia em Berlim. Lá conclui minha graduação em Filosofia, iniciada na Espanha e que, graças ao Erasmus (o programa europeu de intercâmbio universitário, não o filósofo), cursei um ano na Escócia e o último em Berlim.

Não sabia bem o que fazer após cursar Filosofia. Por isso, devido ao meu bom conhecimento de idiomas e por ter gostado da minha experiência na tradução, decidi investir nesta carreira. Mudei-me para Paris, fui aprovado nos exames de admissão da Escola Superior de Intérpretes e de Tradutores (ESIT), onde em 2004 conclui estudos de graduação e pós-graduação. Desde então, dedico-me exclusivamente à tradução profissional, atividade que combino com a revisão de textos em espanhol e com a interpretação de conferências.

Dez anos se passaram, e muitas coisas. Agora moro em Brasília e possuo uma pequena empresa de tradução. Gosto da aventura de ser um pequeno empresário e de continuar evoluindo na carreira. Muitos anos depois de ter começado a traduzir, por pura casualidade, estou bem estabelecido profissionalmente. Tenho bons e exigentes clientes — principalmente organismos internacionais, tanto aqui em Brasília quanto em Genebra e Washington — que valorizam a qualidade de nosso trabalho. E tenho a sorte de gostar do que eu faço.

Olhando para trás nesses anos de carreira e pensando nos colegas iniciantes, gostaria de identificar alguns aspectos que me ajudaram na profissão:

A formação em tradução é importante, pois permite aprender a traduzir antes de ser pago para isso. Na universidade, desenvolvemos o “reflexo do tradutor“, uma mosca da desconfiança atrás da orelha e um instinto para encontrar soluções aos problemas de tradução.

Há muitas coisas, porém, que não se aprende na faculdade e para isso é essencial participar de listas e fóruns de tradutores, para aprender sobre programas, recursos, tarifas, ideias para o negócio, etc.

É preciso investir: gasto, sem hesitar, em dicionários, livros sobre a língua espanhola e outras matérias, softwares, congressos, cursos e recursos.

É bom conhecer os seus limites. Desde o início impus-me a condição de traduzir somente para o espanhol, minha língua materna, devido à forte convicção de que nunca me expressarei em outra língua tão bem quanto na minha língua materna. Acredito que isso contribui para a qualidade dos meus textos.

Aprendi também (e demorei a aprender) que nós, tradutores independentes, somos empresários, e que para ter algum sucesso é preciso atuar como empresário. Aprendi isso no Empretec, um seminário organizado pelo Sebrae.

É necessário continuar aprendendo sempre e é bom compartilhar os nossos conhecimentos — nos sites, em fóruns online, em cafés com colegas, em congressos, etc.

Tenho certeza de que outros tradutores experientes dariam conselhos semelhantes.

Fernando Campos Leza é tradutor e intérprete, reside em Brasília e trabalha nos seguintes idiomas: espanhol, português, inglês, francês e alemão.
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Minha história: Fernanda Silveira Boito

Vou contar uma breve história que talvez possa animar muita gente que está começando agora. Não que eu seja uma tradutora com uma carreira de muitos anos, mas acho que as poucas histórias que tenho para contar podem servir de inspiração.

Quando criança, eu era extremamente curiosa e inconformada. Nunca estava satisfeita em perguntar, eu pesquisava para achar as respostas e, muitas vezes, acabava inventando uma história sobre o que eu tinha aprendido. Fazia listas que viravam resumos que viravam livros. Quando precisei escolher o curso que faria na faculdade, transitei por vários caminhos. Fui das Artes Cênicas à Filosofia, do Jornalismo às Relações Internacionais. E acabei fazendo Letras. Com bacharel em Tradução.

Eu nunca sonhei em ser tradutora. O meu sonho sempre foi trabalhar escrevendo, pesquisando, refletindo, fazendo escolhas. Durante a faculdade, pensei em parar várias vezes. Mas ao mesmo tempo, sempre busquei entender como funcionava essa tal de tradução, pesquisando e buscando trabalhos. Nunca esqueço o meu primeiro trabalho remunerado: a versão de um artigo científico falando sobre a folha do pepino. Me matei e ganhei quase nada. Depois, descobri as agências. Comecei ganhando poucos centavos por trabalhos que fazia à noite quando chegava da escola de inglês onde eu dava aula. Ouvi vários “nãos”.

Mas a criança inconformada queria mais e foi fazer mestrado.

Resolvi pesquisar sobre legendagem e me apaixonei. Continuei com as agências que já eram outras e pagavam melhor e com as aulas de inglês que já não davam mais tanto prazer. O mestrado foi tomando forma e seguindo seu caminho junto com outras especializações, congressos e encontros de tradutores onde encontrei pessoas inspiradoras. Mesmo gostando de tudo o que encontrava no mundo da tradução, a grama dos vizinhos sempre era mais verde e eu ainda pensei em desistir. Tinha parado de dar aulas de inglês, não conseguia clientes e não tinha um fluxo de trabalho regular. Fazia dezenas de testes, mandava centenas de e-mails e nada.

Até que as coisas começaram a acontecer.

Comecei a trabalhar em uma editora como tradutora e revisora. E aquele trabalho era exatamente o que eu queria. Eu não sabia que queria ser tradutora, mas de repente me vi sentada em frente a um computador fazendo exatamente aquilo que sempre quis fazer: trabalhar escrevendo, pesquisando, refletindo, fazendo escolhas. As respostas dos testes começaram a aparecer. Alguns com bons resultados, outros nem tanto. Os primeiros filmes vieram, as traduções técnicas e o feedback positivo também. As indicações de clientes trouxeram outros clientes e o trabalho foi aumentando.

Hoje, cada dia mais eu vejo os resultados da minha curiosidade e teimosia, das escolhas que fiz e das atitudes que tomei. A criança curiosa e inconformada encontrou o seu espaço. E um dos melhores sentimentos que tenho é poder dizer que estou cheia de trabalho. Cheia de tradução.

Fernanda Silveira Boito é tradutora de inglês e português, residente em Maringá. É licenciada em Letras-Inglês e Bacharel em Tradução e mestre em Letras (Tradução) pela Universidade Estadual de Maringá (UEM). Trabalha com tradução técnica e legendagem.
E-mail: fernandab@dentalpress.com.br | Skype: ferboito

Minha história: Danilo Nogueira

Foi uma das maiores humilhações que já sofri. Depois de dois anos e meio de esforços e sofrimentos, tive de passar para frente minha franquia Fisk em Porto Alegre e voltar para São Paulo. Não nasci para aquilo. Voltei com uma mão na frente e outra atrás e fui morar de favor na casa do sogro que, aliás, me recebeu muito bem. Isso foi em 1970.

Aqui, continuei na Fisk, de novo como professor, mas sabia que aquilo não era bom, porque, entre primeiro de dezembro e carnaval, não havia serviço e, portanto, não se ganhava nada.

Um dia, na secretaria da escola, me perguntaram se eu queria fazer umas traduções. Topei na hora. Já tinha feito traduções mais de uma vez na vida e não me dado de todo mal. Mesmo que tivesse, do jeito que a coisa andava, era capaz de aceitar serviço até de trapezista. Mas era um negócio da China: quatro horas por dia, de manhã, cinco dias por semana, com 50% de adicional de “aula externa”. Qualquer um que tenha ensinado em curso livre de línguas sabe que isso não se recusa.

A empresa era a Arthur Andersen, naquela época a mais orgulhosa entre as firmas de auditora. Foi lá que aprendi essas coisas de contabilidade e finanças, impostos e direito societário. Virei especialista e escravo de minha especialidade. Até hoje, é o que mais faço.

Quinze dias depois, liguei para a Editora Atlas, oferecendo meus serviços. Disse que traduzia para a Arthur Andersen e, com isso e um teste pequeno, me contrataram.

Claro que eu não tinha ideia do que estava fazendo, mas a falta de dinheiro é uma excelente mestra e fui aprendendo, aos trancos e barrancos. Não era como agora. O curso da Anhanguera se chamava “Faculdade Ibero-Americana” e ainda estava começando. Tradução era geralmente considerada passatempo de intelectuais. Era tudo na base da máquina de escrever.

Conhecia poucos tradutores e a gente não trocava informações, por medo da concorrência. A Internet mudou tudo isso. Comecei a participar ativamente de troca de informações logo que foi liberada para uso de particulares, lá para 1995. Participava da trad-prt quando ainda era no IF da USP e mais caia do que funcionava. Logo depois do ano 2000 já estava dando cursos a distância. Nunca parei.

A Arthur Andersen desapareceu em 2002, vítima de seus próprios erros. A Editora Atlas continua firme, mas não publica mais traduções. Eu estou aqui, no Multitude, compartilhando um pouco da minha experiência.

Danilo Nogueira, tradutor IN-PT, residente em São Bernardo do Campo, SP. Especializado em tradução na área de negócios.
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Minha história: Claudia Araujo

Nunca tive dúvidas sobre qual seria minha profissão, desde garota queria ser médica. Em 1987, já no penúltimo ano da faculdade, fui convidada a fazer um teste de tradução em uma editora especializada em livros da área de saúde. Pensei que seria uma forma provisória de ganhar algum dinheiro até concluir o curso e resolvi aceitar. Embora nunca tivesse passado pela minha cabeça ser tradutora, havia feito um curso de tradução antes de iniciar a faculdade, apenas para não me afastar do estudo de inglês. Ainda na adolescência, gostava de traduzir trechos de alguns livros e comparar com a edição em português, mas era só uma diversão. Assim, fiz o teste numa sala na própria editora, com a ajuda de alguns dicionários e, aprovada, comecei a traduzir.

Depois de concluir o curso de medicina, mantive as duas profissões paralelamente durante algum tempo, mas não estava satisfeita. Eu gostava muito mais de traduzir que de exercer a profissão de médica. Apesar disso, não foi uma decisão fácil. Relutei bastante — é difícil deixar uma profissão depois de investir e se preparar por tanto tempo —, mas acabei me convencendo de que a melhor opção seria me dedicar à tradução e me profissionalizar.

Agora sei que não poderia ter feito escolha melhor. Eu me mantive bem próxima da área médica e ainda estou sempre me atualizando pela leitura dos próprios textos a traduzir e pelas pesquisas que preciso fazer muitas vezes. De certo modo, juntei as duas paixões, já que me especializei na tradução de textos médicos e farmacêuticos e, é claro, minha formação acadêmica em medicina foi muito útil para o ingresso na profissão.

Claudia Araujo, tradutora IN > PT, residente no Rio de Janeiro, RJ. Especializada em tradução nas áreas médica e farmacêutica.
Twitter: @claraujo | Linkedin

Minha história: Chrystal Caratta

Fiz minha primeira tradução aos 16 anos. Conheci a um sueco que namorava uma brasileira e não falava português. A namorada desapareceu no mundo e ele queria enviar uma carta (!) aos pais dela. Escreveu em inglês, eu traduzi. A carta era longa, poética, sofrida. Entendi, nesse preciso momento, que mais que passar umas palavras ao português, eu precisava traduzir a angústia que ele sentia de ter sido deixado num altar que nunca existiu. Como todo bom cliente, uma vez entregue a tradução, ele comparou minha versão com a versão do Google Translate (que naquela época funcionava em marcha à ré) e pediu algumas explicações. Clients will be clients.

Muitos anos se passaram até que eu fiz minha primeira tradução profissional e remunerada. Estava terminando a faculdade e procurando uma maneira de ganhar dinheiro para me casar com um namorado alemão. Paguei a mensalidade da Catho e encontrei um anúncio de uma agência que buscava tradutores no par alemão > português. Nesse momento eu nem imaginava que existia um exército invisível de nós. Um teste e um NDA depois, em 2008, eu estava sentada na BemTradUz aprendendo a usar ferramentas CAT, trabalhar com terminologia e fazer controle de qualidade (um beijo pra BemTradUz!).

Minha primeira agência me ensinou tudo o que eu sei hoje. Lá fiz bons amigos que levo pela vida, aprendi a trabalhar com ética, paciência e comprometimento com a qualidade. Você não precisa começar sua carreira em uma agência e é bem possível que você construa uma carreira de sucesso sem nunca ter pisado em uma. Mas esses anos que eu passei com a BemTradUz, dinheiro nenhum do mundo é capaz de recompensar.

Minhoca de agência, depois da BemTradUz trabalhei em algumas outras mais, seduzida pelos salários cada vez mais altos. Alguns traumas depois (estas agências eram de chorar), comecei a traduzir de casa. Trabalhei com agências no Brasil e na Europa, aprendi contabilidade básica – como carga tributária e composição de preços. Aproveitei a flexibilidade do trabalho e me mudei pra Buenos Aires. Estava feliz, tomando vinho, escutando tango e traduzindo meus projetinhos honestos quando o bicho da agência voltou a me morder.

A Latinlingua, onde trabalho hoje, estava contratando tradutores in-house de português. Era um trabalho feito especialmente pra mim, mas eu estava muito traumatizada para voltar a trabalhar em relação de dependência. Sem muitas expectativas, algumas entrevistas depois eu estava contratada, pedindo minha residência permanente na Argentina e viajando no segundo metrô mais antigo do mundo todos os dias.

Na Latinlingua encontrei o espaço para desenvolver tudo que eu aprendi na BemTradUz. Aprendi que o mercado de tradução são vários e que nem todas as agências do mundo esperam que a gente traduza volumes homéricos pagando tarifas de Lilliput. Aprendi que uma boa tradução tem diversas camadas de trabalho e que escrever no idioma-alvo é apenas a primeira e mais fácil delas. Aprendi que nem todo cliente é implicante e que há muitos por aí querendo estabelecer parcerias de qualidade.

Há muitos anos eu vivo da tradução. É ela quem paga integralmente minhas contas. E meu primeiro cliente, o amigo sueco, continua sendo amigo e cliente. Começou a trabalhar em um grande banco canadense e, hoje, paga feliz todas as traduções que faço pra ele. E eu traduzo tudo, profissionalmente e com a mesma dedicação daquela primeira carta.

Chrystal Caratta é tradutora de alemão, inglês e espanhol para o português do Brasil. Reside em Buenos Aires e tem especial predileção por transcriação, terminologia, mídias sociais e controle de qualidade.
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Minha história: Caroline Alberoni

Comecei a estudar inglês em uma escola particular de idiomas aos 12 anos, por incentivo da minha mãe. Aos 15 anos, fui obrigada a usar o que havia aprendido até o momento quando viajei para a Suécia sozinha para passar as festas de fim de ano com uma tia que mora lá. Durante três meses, enquanto ela trabalhava, eu passeava pela bela cidade de Estocolmo e fazia aulas particulares de inglês. Quando voltei ao Brasil, ainda fazendo o curso de inglês, fui convidada a monitorar os alunos no laboratório, ajudando-os a fazer as tarefas, tirando dúvidas etc. Algum tempo depois, comecei a dar aulas nessa mesma escola, atividade que exerci até meu último ano de faculdade.

Portanto, quando chegou o momento de decidir qual curso prestar no vestibular, a única coisa que me vinha à cabeça era: algo que envolva o inglês. Ao consultar o guia do estudante, meus olhos brilharam ao ver o curso perfeito: tradução. Não havia segunda opção. Era isso ou… nem eu sei o que seria. Naquele mesmo ano, prestei como treineira. No ano seguinte, prestei novamente, mas não passei. Foi na mesma época em que aquela minha tia que morava na Suécia estava se mudando para a Inglaterra e tinha acabado de ter um filho. Ela me convidou para ser au pair do meu primo e eu aceitei. Morei com eles sete meses em Cambridge, trabalhando e fazendo cursos de inglês. Prestei o IELTS e o CAE. Apaixonei-me pela Inglaterra. Voltei ao Brasil, fiz cursinho e, dois anos depois, consegui passar no curso de Bacharelado em Letras com Habilitação de Tradutor na Unesp de São José do Rio Preto, SP.

Depois dos quatro anos, mudei-me para a Inglaterra novamente para fazer mestrado. Dessa vez, em Guildford, por um ano. O curso, Translation Studies with Intercultural Communication. Quando voltei, imediatamente comecei a procurar emprego. Meu sonho era ser freelancer, mas imaginava que seria difícil conseguir clientes de imediato, portanto, procurava também em outras profissões, como secretária bilíngue. Dois meses depois, descobri que uma agência de tradução estava procurando tradutores freelancers. Perfeito! Eles me passavam projetos que me ocupavam em tempo integral. Com o tempo, fui trocando experiências, lendo e aprendendo. Aprendi a gostar da parte empreendedora e de marketing. Criei perfis em várias redes sociais, fiz cartões de visita, um site e um blog. Comecei a divulgar os meus serviços e a procurar outros clientes. Tive uma breve experiência interna em um cliente e comprovei que nasci para ser freelancer mesmo.

Hoje, tenho cerca de sete clientes (entre agências e clientes diretos) que me passam traduções todos os meses. Uns com mais frequência, outros com menos, mas, desde que comecei, sempre tenho trabalho. Já aprendi muito, mas sei que nosso aprendizado é constante e infinito. O segredo é estar sempre aberto a novas experiências, a conselhos e a feedbacks. Além de não ter medo de arriscar.

Caroline Alberoni é tradutora profissional com quatro anos de experiência e formação educacional abrangente na área (graduada e mestre em tradução). Ela traduz do inglês e do italiano, e suas áreas de domínio são TI, marketing e negócios. É a responsável pela Alberoni Translations, empresa que administra com dedicação, comprometimento, profissionalismo e o mais profundo interesse pelas necessidades do cliente. Caroline é membro do ProZ, do Sintra (Sindicato Nacional dos Tradutores), da Abrates (Associação Brasileira de Tradutores e Intérpretes) e da IAPTI (International Association of Professional Translators and Interpreters). O blog Carol’s Adventures in Translation é seu projeto mais recente. Nele, você encontra publicações semanais interessantes e informativas sobre tradução, tanto em inglês quanto em português. Caroline Alberoni está ativamente presente em todas as redes sociais. Adicione-a no Google+, Twitter, Facebook, LinkedIn e Pinterest, e acompanhe notícias e artigos diários.

Minha história: Aline Kachel Araújo

Minha trajetória como tradutora profissional tem exatamente dois anos. Comecei a trabalhar como tradutora em tempo integral agosto/setembro de 2012. Porém, antes de chegar a esse ponto, passei muito tempo sem perceber que era esse o caminho que eu queria trilhar. Quando chegou a hora de escolher um curso superior, optei por Administração. Perto de me formar e ainda sem perspectiva de trabalhar na área, comecei o curso de Engenharia de Computação, o qual cursei durante dois anos.

Eu já fazia traduções como forma de aprendizado e passatempo desde os catorze anos. Principalmente de mangás (quadrinhos japoneses) e, depois de aprender japonês, light novels (livros de fácil leitura focados no público jovem). No entanto, o que realmente me fez perceber que eu poderia me tornar tradutora profissional foi uma publicação do extinto blog Pictolírica. Nele, a autora contou sobre como precisou converter uma memória de tradução do Trados para o Wordfast.

Até esse momento, eu nem sabia que a autora do blog em questão era tradutora. Essa leitura teve dois grandes efeitos em mim. O primeiro foi me apresentar às CAT Tools. Até então, achava que tradução era feita se escrevendo o texto em português e apagando o original em um documento de Word. Um método que me parecia meio enfadonho e altamente sujeito a erros. Saber que, além de segmentar os documentos, as CAT Tools tinham correspondências totais e parciais me fascinou. O segundo efeito foi perceber que ali estava alguém, com a mesma idade que eu, traduzindo profissionalmente. Vivendo disso.

A partir de então, final de 2010, comecei a realmente correr atrás de uma carreira na tradução. Não sabia por onde começar sequer a procurar, mas fiz meu perfil no Translator’s Cafe e enviei o meu currículo a algumas agências. Os primeiros resultados vieram apenas em maio do ano seguinte, com uma tradução voluntária e um projeto pequeno, de nem 100 palavras.

Em setembro de 2011, consegui um emprego no setor administrativo de uma empresa, mas ainda almejando me tornar tradutora.

Sabe quando se fica um bom tempo sem qualquer evento social e, de repente, surgem vários em um mesmo dia? Comigo, algo similar aconteceu em setembro de 2012. Consegui dois contatos que forneciam trabalhos constantes de tradução. Um de artigos simples, em estilo jornalístico, e outro com legendagem. Além disso, no início desse mesmo mês, fui à França, onde morei durante três meses.

Foi um período conturbado. Além da alteração de rotina pelo trabalho autônomo, houve, literalmente, uma mudança em minha vida. Se eu dissesse que foi tranquilo e fácil passar por todas essas mudanças de uma vez, estaria mentindo.

De volta ao Brasil, deixei de trabalhar com uma das empresas e fiquei apenas com a de legendagem. No início, fazia apenas tradução, mas me chamaram para fazer o controle de qualidade de uma série. Alguns meses depois, assumi o trabalho de edição dela. Em julho de 2013, surgiu um projeto que me forçou a aprender a marcar tempo em legenda. Ou seja, aproximadamente um ano após começar na legendagem profissional, eu tinha aprendido todas as atividades relacionadas a ela.

Parece que a primavera austral tem algum grande efeito em mim, pois tudo acontece quando essa estação está prestes a começar. Novamente entre agosto e setembro, agora de 2013, eu finalmente me senti uma tradutora consolidada. Meus recebimentos mensais chegavam constantemente a um patamar bom e, talvez justamente por isso, passei a investir mais na minha formação. Comecei com o curso de Produção Editorial da Unesp e, desde então, participo o máximo possível de cursos e webinars, muitos aqui do Multitude. Também participei dos meus primeiros eventos presenciais e me associei à Abrates, que já me rendeu frutos.

Ao repensar a minha trajetória para escrever este artigo, percebi como esses meus dois curtos anos de carreira se dividiram em etapas. Durante o primeiro ano, eu me estabeleci na profissão e me acostumei a ela. Durante o segundo, estou/estive correndo atrás de cursos de formação e de ações para me profissionalizar mais. Resta-me ver o que o terceiro e os demais anos me aguardam!

Aline Kachel Araújo é tradutora de inglês e japonês para português desde 2012. Graduada em Administração pela Universidade Federal do Paraná (UFPR), ela é associada da Abrates e especializada em legendagem.
E-mail: alinekachel@gmail.com | Skype: aline.kachel

Minha história: Adauto Villela

Coisa rara é ouvir elogios da sua tradução, pelo menos vindo de agências. Clientes diretos costumam ser mais generosos nesse sentido. Mas você sabe que tudo vai bem quando as agências não reclamam e, pelo contrário, solicitam cada vez mais o seu trabalho. Outro dia, porém, tive uma gratíssima surpresa quando uma gerente de projetos espontaneamente me disse: “sua tradução estava espetacular!” Se me pergunto como conquistei esse reconhecimento, vejo que tudo começou com um desafio.

Segundo ano de faculdade, 1992, um amigo me pede para traduzir um texto de uma página. Dou uma olhada e respondo: “Ok, amanhã te entrego”. Duas horas depois de começar, não terminara nem o primeiro parágrafo. Fiquei intrigado: pra ler, parecia tão fácil, mas, pra traduzir… As frases que eu produzia, definitivamente, não me agradavam. No dia seguinte, pedi desculpas e avisei que tinha desistido porque estava muito difícil.

Essa primeira tentativa, embora frustrada, me instigou. Tinha algo de muito atraente para mim na tradução: um desafio que exigia conhecimento, raciocínio, capacidade de análise, de pesquisa, de solução de problemas, e, claro, habilidade redacional. Um ano depois, publiquei minha primeira tradução num fanzine literário da UFJF. Desta vez: desafio vencido.

Depois, formado em Direito, movimento fraco no escritório, aceitei traduzir livros para um cliente particular, isso em 1996. Encarei com alguma segurança a empreitada, pois, entre aquela tradução publicada e este primeiro trabalho pago, eu havia descoberto num sebo, lido e relido avidamente, o Escola de Tradutores, do mestre e mentor Paulo Rónai, que me mostrou como os desafios da tradução podem ser bem maiores e mais específicos, mas que também me indicou o caminho para solucionar boa parte deles. Meu serviço foi bastante elogiado, daí recebi mais dois livros do mesmo cliente para traduzir. Quando finalizava o terceiro, resolvi fazer um mestrado pensando em aprimorar a qualidade do meu trabalho e assumir de vez a nova profissão.

Apesar da expectativa frustrada quanto a aprimorar-me como tradutor num mestrado teórico demais, comecei paralelamente a fazer traduções técnicas para agências de Campinas. Com seus manuais de redação e estilo, a prática diária e o feedback sobre meu trabalho, avancei rápido: em pouco tempo estava atuando também como revisor.

Outros fatores da minha formação, além dos citados, contribuíram igualmente para a qualidade percebida em minhas traduções: a paixão pela leitura desde a adolescência, o domínio de redação e gramática para o vestibular, a capacidade de interpretação desenvolvida na faculdade, o aprofundamento nos estudos de português, inglês e francês também nessa época, a capacidade de pesquisa aprimorada no mestrado…

Depois vieram centenas de laudas, milhares de palavras traduzidas, um curso de especialização em tradução e um doutorado, no qual mergulhei fundo no pensamento e na prática tradutória de Paulo Rónai, sedimentando ainda mais noções fundamentais de qualidade. Mas a semente disso tudo foi plantada em 1992, com um desafio que se repete, de certa forma, a cada nova tradução.

 

Adauto Villela, tradutor IN – PT e FR –PT, residente em Juiz de Fora, MG. 

Minha história: Kelli Semolini

Kelli

 

Como não virei arquiteta (nem professora)

 

Um dia, perguntaram ao Rubem Alves como ele tinha planejado a vida para chegar onde chegou. A resposta: “Eu cheguei onde cheguei porque tudo o que planejei deu errado”. Comigo, até agora, tem sido mais ou menos assim, também.

 

A primeira vez em que pensei em traduzir foi por volta dos 15 anos, mas a ideia logo se dissolveu no meio de muitas outras. Quando chegou a hora de escolher um curso universitário, eu tinha decidido ser arquiteta. No meio do cursinho, comecei a dar aulas de inglês, como um bico, só pra ter um dinheirinho aqui e ali. Eu ganhava quatro reais por hora-aula e sim, você leu certo. Eu sabia que era pouco, mas não sabia que era tão pouco. Aposto que tinha professor dizendo que eu aviltava o mercado.

 

Comecei a pegar gosto pelas crianças, depois pelos adolescentes e, na hora de fazer a inscrição para o vestibular, minha mãe e minha diretora, cada uma pendurada numa orelha, me “sugeriram” prestar Letras, além da Arquitetura. Fui muito bem nos dois vestibulares, fechei a primeira fase da FUVEST com nota quase que de Medicina, e aí veio o medo: e se eu tivesse que escolher? Eu não queria ter que escolher, sou péssima para escolher e escolha implica em responsabilidade, eu não queria ter que decidir o resto da vida ali e ainda ter que enfrentar as consequências!

 

Bem, o destino foi generoso e eu fui muito mal na segunda fase do vestibular para Arquitetura. Adeus, USP, olá, UNESP, vamos ver no que isso dá. Continuei a dar aulas durante a faculdade, e até uns dois anos depois de me formar. Todo início de semestre era uma festa. Ansiedade e animação em níveis extremos. No primeiro semestre em que isso não aconteceu, o segundo semestre de 2008, minha mãe adoeceu e precisou ficar internada. Com meus irmãos morando fora, eu estava praticamente sozinha para cuidar dela, e assim comecei a faltar das aulas.

 

Foi nessa época, coincidentemente, que o Danilo me convidou para trabalhar com ele. Como conheci o Danilo? Ah, muito divertida, a história. Entrei, em 2006, num grupo de tradutores no Orkut, só para ver como era. Gostei, fui ficando, fui fazendo amizades. Em janeiro de 2007 resolvi ir para São Paulo conhecer esse povo no Encontro de Férias da SBS. Foi quando conheci o Danilo pessoalmente, muito de passagem. Comecei a frequentar todos os encontros de tradutores que eu podia, e isso muitas vezes significou enfrentar 4 horas de ônibus na ida e 4 na volta, no mesmo dia, só para participar de um almoço. Numa dessas viagens, ele se ofereceu para me levar conhecer museus. Eu aceitei e voltei a São Paulo, e em vez de conhecer o MASP, recebi uma oferta de parceria. Cheguei a milímetros de dizer não, porque não sabia se ia dar conta. Olha, faltou tão pouco para eu recusar que até hoje não sei como foi que eu disse sim.

 

Foi o Danilo quem me ensinou praticamente tudo o que sei hoje. Não só ele me treinou para as áreas em que ele atua, mas também ensinou a usar CAT tools, lidar com clientes e, principalmente, a valorizar meu próprio trabalho. Foram as traduções dele as primeiras que eu revisei, bem como os artigos. Revisei tanto que me tornei melhor revisora que tradutora, coisa que durante um bom tempo me deixou contrariada. Hoje, acho ótimo revisar e é o que me sustenta. Levando em conta que durante muito tempo eu fui a chata que corrigia os outros, hoje recebo para isso e ainda me agradecem, quando faço um bom trabalho. Sim, pode reler o artigo, é certo que você vai encontrar algum defeito. Casa de ferreiro, essas coisas.

 

Poucas semanas depois de aceitar o convite do Danilo, minha então chefe me encostou na parede e perguntou se eu ia continuar com as aulas ou não. Contra todo o bom senso e os conselhos do Danilo, eu abandonei as aulas. Embora eu não me arrependa, não aconselho essa impulsividade a ninguém, que ela tem um preço alto. A época de professora se encerrou ali. Foi maravilhosa, apesar de eu nunca ter conseguido ganhar dinheiro dando aula, mas sinto como se fosse outra vida, outra Kelli.

 

Em fevereiro do ano seguinte, fui morar sozinha e logo em seguida a crise acabou nos atingindo com meses de seca. Mas vida de tradutor é assim. Uma vaquinha magra aqui, uma mais gordinha ali, leva tempo para encontrarmos o equilíbrio. Ainda luto para encontrar o meu, como sei que também acontece com muito veterano bem mais cascudo que eu.

 

Nesses seis anos foram muitas as coisas que eu nunca imaginei que aconteceriam comigo. Palestras no exterior, na USP, em faculdades particulares, artigos não só publicados e republicados no exterior, mas até traduzidos para línguas como o árabe. Conheci tanta gente interessante que perdi a conta, visitei lugares incríveis e até comi caviar (odiei, mas comi), tudo porque não consegui passar no vestibular para Arquitetura.

 

Kelli Semolini é tradutora e revisora desde 2008, ano em que mudou seu domicílio profissional para a Internet. Cachorreira, apaixonada por dança de salão, gosta de cozinhar e odeia lavar a louça.
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