Minha história: Mitsue Siqueira

A primeira chance

“— Fale sobre sua experiência com o inglês.

— Concluí o curso aos 13 anos de idade e, desde então, não pratico muito o inglês…

— Ok. Você frequenta alguma igreja, tem o hábito de ler a Bíblia?

— Não (sorriso amarelo). Estudei em escola católica, mas não frequento igrejas e confesso que não leio muito a Bíblia.

— Bom, somos uma editora cristã que trabalha com traduções do inglês, e então…

— Sim, entendo, mas devo ser sincera: meu inglês enferrujou mesmo durante esses anos, e realmente não tenho muito conhecimento da literatura cristã, mas estou disposta a aprender. Sei que para vocês é complicado contratar uma pessoa como eu, mas eu gostaria de ter essa experiência e preciso que alguém me dê a primeira chance.

— Certo, entraremos em contato quando tivermos o resultado e…”

Pronto, a entrevista estava arruinada. Além de mal saber falar inglês, eu havia me candidatado a uma vaga de tradutora em uma editora (cristã!) sem nem ao menos ler a Bíblia ou ter o hábito de assistir a missas/cultos, etc. De onde saiu aquela ideia de “dar a primeira chance”? Não, eles precisavam de pessoas com algum conhecimento, e eu tive certeza de que não seria aprovada para a vaga. Fiquei muito chateada.

Felizmente, todo meu pessimismo se esvaiu quando recebi a notícia da aprovação nos testes. Nem preciso dizer o quanto foi maravilhoso dar os primeiros passos em tradução e revisão trabalhando com livros, depois de tantos meses apenas dando aulas de inglês e português.

Assim como eu, a editora era um departamento novo na empresa. Ou seja, ela e eu crescemos juntas. Equipe nova, pessoas novas e nenhum processo oficial de tradução e revisão. Aos poucos, criamos um esboço do guia de estilo e timidamente estipulamos algumas formas de feedback aos integrantes da equipe.

Depois de um ano e meio, volto à estaca zero tentando uma vaga na Ccaps, e a história se repete: “Você conhece alguma CAT Tool? Já trabalhou com localização? Sabe o que é um projeto?” “Não. Mas estou muito disposta a aprender”. E mais uma vez, expus a necessidade de todo profissional iniciante: a tão sonhada primeira chance. Mesmo assim, o desânimo me acertou em cheio. A entrevista foi de manhã. Desmotivada, acesso meu e-mail à tarde e recebo a notícia da aprovação. Uau! Agora sou a nova Language Specialist da Ccaps, mas ainda há muito o que fazer.

Depois de um treinamento intensivo e de vários feedbacks bons e nem tão bons assim do meu próprio trabalho, posso dizer que, graças a profissionais competentíssimos (que hoje posso chamar de amigos), estou muito mais preparada. Agora eu sei que CAT Tools nada têm a ver com gatos, e que PM não é só Polícia Militar. Ok, também aprendi outras coisinhas além disso.

Certamente não devo o que sou hoje apenas à Ccaps, mas também a todos que me apoiaram pelas mídias sociais e nos eventos dos quais participei (e até palestrei, quem diria?). Dei passos muito significativos esses últimos anos, mas sei que o caminho ainda é longo, e posso dizer com segurança que tenho muita gente boa andando ao meu lado. Por fim, fica o meu desejo de boa sorte a todos nós, jovens ou não, tradutores ou não, mas sempre eternos iniciantes em busca da primeira chance.

Mitsue Siqueira é tradutora e revisora da Ccaps Translation & Localization, no par inglês<>português, e reside no Rio de Janeiro.
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