Minha história: Jéssica Alonso

Ao escolher o curso de Letras na USP eu acreditava que ele me traria as bases necessárias para que fosse possível seguir a tão sonhada carreira de tradutora. Doce ilusão. Embora o curso tenha sido ótimo e nele eu tenha começado a aprender alemão (idioma com o qual trabalho com bastante frequência e que me abriu muitas portas) e aprofundado meus conhecimentos de literatura (de que gosto muito), as poucas aulas de tradução de alemão serviram apenas como um tira-gosto sobre o fazer tradutório (um tira-gosto excelente graças às aulas do querido João Azenha).

Como já era formada em ballet clássico, cursava maitre de dança e dava aulas de ballet e jazz havia dois anos, segui por bastante tempo esse caminho: estudava Letras e ensinava as pequenas bailarinas em diversas escolas de ensino regular. E, durante todo o período acadêmico, mantive-me afastada da tradução lecionando dança em escolas, sendo recepcionista trilíngue da Câmara de Comércio Brasil-Alemanha e professora auxiliar no currículo de imersão em língua alemã da Educação Infantil de uma grande escola de São Paulo.

Ao me formar, porém, decidi que era uma boa hora para aprofundar meus conhecimentos de alemão, fator que eu sabia ser importante para obter maior sucesso na tradução do idioma. Assim, morei um ano como au pair em Düsseldorf, na Alemanha, na casa de uma família alemã, cuidando das crianças e estudando o idioma.

Ao retornar para o Brasil em agosto de 2011, estava decidida a entrar de cabeça nas traduções. Ainda sem conhecer muito sobre esse fascinante mundo, passei em um teste para ser revisora interna de uma agência de tradução em São Paulo, oportunidade ideal para começar a conhecer e entender como as coisas funcionam no mercado. Após um ano, o trabalho de revisão no escritório deu lugar às traduções feitas em casa e foi então que entrei no grupo Tradutores e Intérpretes do Facebook; e ele me abriu os olhos. Com tanta gente experiente e disposta a ajudar, pude de fato compreender o mercado, os valores, os processos. Descobri a infinidade de blogs que abordam as diferentes facetas da tradução e com eles aprendi muito. Passei a integrar o quadro de tradutores de agências do Brasil e do exterior.

Olhando para meu percurso hoje, em abril de 2014, fico contente com o que já conquistei: larguei as aulas de alemão (as de dança não, são minha outra paixão!), conheci pessoas incríveis graças à participação em eventos da área e ao envolvimento com a moderação do grupo do Facebook, acabei de concluir a pós-graduação e obter o título de especialista em Tradução de Inglês e faço legendagem – uma vontade antiga que pôde se concretizar ano passado. Porém, olhando para frente, ainda tenho muito para alcançar: a tão sonhada tradução literária, o domínio completo de algumas ferramentas essenciais ao tradutor, o aperfeiçoamento sempre contínuo que é necessário. Por isso, a vontade de aprender e continuar conhecendo gente competente e disposta é enorme. Quem sabe a gente não se encontra em algum evento tradutório para trocar figurinhas sobre tradução, alemão… e dança?

Jéssica Alonso é tradutora de inglês e alemão e atua principalmente nas áreas farmacêutica, automobilística e jornalística. Reside em São Paulo – SP.
E-mail: jessicatradutora@gmail.com | ProZ

Minha história: Fernando Campos Leza

Eu não vou lhes contar a história de Hans Castorp, mas uma coisa eu tenho em comum com esse personagem: nunca imaginei que minha viagem (na tradução) demoraria tanto tempo. Minha experiência como tradutor teve início em 1998, quando residia em Berlim. Lá conclui minha graduação em Filosofia, iniciada na Espanha e que, graças ao Erasmus (o programa europeu de intercâmbio universitário, não o filósofo), cursei um ano na Escócia e o último em Berlim.

Não sabia bem o que fazer após cursar Filosofia. Por isso, devido ao meu bom conhecimento de idiomas e por ter gostado da minha experiência na tradução, decidi investir nesta carreira. Mudei-me para Paris, fui aprovado nos exames de admissão da Escola Superior de Intérpretes e de Tradutores (ESIT), onde em 2004 conclui estudos de graduação e pós-graduação. Desde então, dedico-me exclusivamente à tradução profissional, atividade que combino com a revisão de textos em espanhol e com a interpretação de conferências.

Dez anos se passaram, e muitas coisas. Agora moro em Brasília e possuo uma pequena empresa de tradução. Gosto da aventura de ser um pequeno empresário e de continuar evoluindo na carreira. Muitos anos depois de ter começado a traduzir, por pura casualidade, estou bem estabelecido profissionalmente. Tenho bons e exigentes clientes — principalmente organismos internacionais, tanto aqui em Brasília quanto em Genebra e Washington — que valorizam a qualidade de nosso trabalho. E tenho a sorte de gostar do que eu faço.

Olhando para trás nesses anos de carreira e pensando nos colegas iniciantes, gostaria de identificar alguns aspectos que me ajudaram na profissão:

A formação em tradução é importante, pois permite aprender a traduzir antes de ser pago para isso. Na universidade, desenvolvemos o “reflexo do tradutor“, uma mosca da desconfiança atrás da orelha e um instinto para encontrar soluções aos problemas de tradução.

Há muitas coisas, porém, que não se aprende na faculdade e para isso é essencial participar de listas e fóruns de tradutores, para aprender sobre programas, recursos, tarifas, ideias para o negócio, etc.

É preciso investir: gasto, sem hesitar, em dicionários, livros sobre a língua espanhola e outras matérias, softwares, congressos, cursos e recursos.

É bom conhecer os seus limites. Desde o início impus-me a condição de traduzir somente para o espanhol, minha língua materna, devido à forte convicção de que nunca me expressarei em outra língua tão bem quanto na minha língua materna. Acredito que isso contribui para a qualidade dos meus textos.

Aprendi também (e demorei a aprender) que nós, tradutores independentes, somos empresários, e que para ter algum sucesso é preciso atuar como empresário. Aprendi isso no Empretec, um seminário organizado pelo Sebrae.

É necessário continuar aprendendo sempre e é bom compartilhar os nossos conhecimentos — nos sites, em fóruns online, em cafés com colegas, em congressos, etc.

Tenho certeza de que outros tradutores experientes dariam conselhos semelhantes.

Fernando Campos Leza é tradutor e intérprete, reside em Brasília e trabalha nos seguintes idiomas: espanhol, português, inglês, francês e alemão.
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Minha história: Chrystal Caratta

Fiz minha primeira tradução aos 16 anos. Conheci a um sueco que namorava uma brasileira e não falava português. A namorada desapareceu no mundo e ele queria enviar uma carta (!) aos pais dela. Escreveu em inglês, eu traduzi. A carta era longa, poética, sofrida. Entendi, nesse preciso momento, que mais que passar umas palavras ao português, eu precisava traduzir a angústia que ele sentia de ter sido deixado num altar que nunca existiu. Como todo bom cliente, uma vez entregue a tradução, ele comparou minha versão com a versão do Google Translate (que naquela época funcionava em marcha à ré) e pediu algumas explicações. Clients will be clients.

Muitos anos se passaram até que eu fiz minha primeira tradução profissional e remunerada. Estava terminando a faculdade e procurando uma maneira de ganhar dinheiro para me casar com um namorado alemão. Paguei a mensalidade da Catho e encontrei um anúncio de uma agência que buscava tradutores no par alemão > português. Nesse momento eu nem imaginava que existia um exército invisível de nós. Um teste e um NDA depois, em 2008, eu estava sentada na BemTradUz aprendendo a usar ferramentas CAT, trabalhar com terminologia e fazer controle de qualidade (um beijo pra BemTradUz!).

Minha primeira agência me ensinou tudo o que eu sei hoje. Lá fiz bons amigos que levo pela vida, aprendi a trabalhar com ética, paciência e comprometimento com a qualidade. Você não precisa começar sua carreira em uma agência e é bem possível que você construa uma carreira de sucesso sem nunca ter pisado em uma. Mas esses anos que eu passei com a BemTradUz, dinheiro nenhum do mundo é capaz de recompensar.

Minhoca de agência, depois da BemTradUz trabalhei em algumas outras mais, seduzida pelos salários cada vez mais altos. Alguns traumas depois (estas agências eram de chorar), comecei a traduzir de casa. Trabalhei com agências no Brasil e na Europa, aprendi contabilidade básica – como carga tributária e composição de preços. Aproveitei a flexibilidade do trabalho e me mudei pra Buenos Aires. Estava feliz, tomando vinho, escutando tango e traduzindo meus projetinhos honestos quando o bicho da agência voltou a me morder.

A Latinlingua, onde trabalho hoje, estava contratando tradutores in-house de português. Era um trabalho feito especialmente pra mim, mas eu estava muito traumatizada para voltar a trabalhar em relação de dependência. Sem muitas expectativas, algumas entrevistas depois eu estava contratada, pedindo minha residência permanente na Argentina e viajando no segundo metrô mais antigo do mundo todos os dias.

Na Latinlingua encontrei o espaço para desenvolver tudo que eu aprendi na BemTradUz. Aprendi que o mercado de tradução são vários e que nem todas as agências do mundo esperam que a gente traduza volumes homéricos pagando tarifas de Lilliput. Aprendi que uma boa tradução tem diversas camadas de trabalho e que escrever no idioma-alvo é apenas a primeira e mais fácil delas. Aprendi que nem todo cliente é implicante e que há muitos por aí querendo estabelecer parcerias de qualidade.

Há muitos anos eu vivo da tradução. É ela quem paga integralmente minhas contas. E meu primeiro cliente, o amigo sueco, continua sendo amigo e cliente. Começou a trabalhar em um grande banco canadense e, hoje, paga feliz todas as traduções que faço pra ele. E eu traduzo tudo, profissionalmente e com a mesma dedicação daquela primeira carta.

Chrystal Caratta é tradutora de alemão, inglês e espanhol para o português do Brasil. Reside em Buenos Aires e tem especial predileção por transcriação, terminologia, mídias sociais e controle de qualidade.
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