Minha história: Sofia Pulici

Quando chegou aquele momento no colegial de decidir qual faculdade fazer, eu estava perdida. Eu sentia que havia uma certa torcida para que eu fizesse administração de empresas para ajudar no negócio do meu pai. Não era algo que me atraia. Na época, após anos de estudos de língua inglesa, eu fazia aulas de conversação de inglês e, conversando sobre o assunto na aula, o professor sugeriu: Por que você não presta hotelaria? É uma carreira nova e promissora, e, de certa forma, é administração, mas de hotéis, não de empresas. Essa fala influenciou minha decisão e, assim, escolhi hotelaria; eu amava viajar e me hospedar em hotéis e comer em restaurantes, então aquilo parecia certo. No meio do caminho transferi o curso para uma faculdade em Sydney, Austrália, e me formei na terra dos cangurus. Trabalhei com hotelaria por alguns anos, mas faltava algo. Certa vez, em uma entrevista num hotel, tive de responder aquela pergunta clássica: Onde você deseja estar profissionalmente daqui a dez anos? Eu não sabia o que dizer, pois não me via no mercado hoteleiro no futuro.

No entanto, foi a hotelaria que me colocou em contato pela primeira vez com o mundo da tradução. Em 2004, numa empresa hoteleira na qual eu trabalhava no Brasil, precisávamos que o sistema fosse traduzido ao português. Fui escolhida pra começar a tradução. A tarefa foi fluindo e aquilo tudo foi me fascinando. Foi então que descobri que o meu tempo na hotelaria estava acabando. Mas, espera! Eu ainda não estava segura de que seguiria a carreira de tradutora. Aliás, nem sabia muito sobre a profissão. Num momento de transição, fui trabalhar de assistente administrativa bilíngue. O presidente da empresa era inglês e, então, começaram a aparecer e-mails, textos e matérias de jornais e revistas para eu traduzir. Foi aí que me deu o “click”. Eu queria parar qualquer outra atividade do escritório para traduzir. Isso me deixava viva, me instigava, me alimentava. E, no começo de 2006, decidi que realmente queria ser tradutora profissional. Fiz um estágio numa agência de tradução por uns meses, fui pesquisando sobre trabalhar em casa, me esquematizando, e, no meio do mesmo ano, bati o martelo e comecei no esquema “home office”, trabalhando integralmente como tradutora freelancer. Meus primeiros clientes? A empresa hoteleira na qual trabalhei e um hotel cinco estrelas, além de uma empresa que funcionava no mesmo prédio onde atuei como assistente bilíngue. Contatos e bons relacionamentos… tive sorte e foi assim que começou.

Anos mais tarde, em 2009, achei que eu precisava estudar novamente. Sentia que me faltava teoria, até mesmo para justificar algumas das minhas escolhas tradutórias. Como já conhecia o sistema de ensino australiano, decidi voltar a estudar lá. Infelizmente não era possível eu fazer um curso de tradução, pois as faculdades não ofereciam nenhum programa com português, por isso optei por um programa interessante de linguística aplicada. A coordenadora do curso, ao saber que minha primeira opção era tradução, me deixou fazer matérias genéricas (sem língua específica) do mestrado de tradução, como teoria e técnicas de tradução e interpretação. Me formei, me tornei tradutora credenciada pela NAATI, órgão que reconhece tradutores profissionais na Austrália, e lá trabalhei como linguista e tradutora, o que foi ótimo para eu ver e entender como funcionam outros mercados tradutórios, nem sempre tão dinâmicos como o brasileiro.

Ainda há muito o que percorrer nessa trajetória, mas quando olho para o caminho que já trilhei, penso: Lindo! Consegui, no final das contas, colocar tudo num pote só: estudar um pouco da teoria que queria, envolver hotelaria no meu trabalho, sendo essa uma das minhas áreas de especialização, e ainda ter o conhecimento e o título de linguista. Se hoje me perguntarem onde desejo estar profissionalmente daqui a alguns anos, a resposta é clara: traduzindo, sempre traduzindo!

 

Sofia Pulici é linguista e tradutora nos pares inglês <> português e espanhol > português, especializada em turismo e hotelaria, mas atua também em outras áreas (médica e pigmentos). Reside atualmente em Rio Claro, interior de São Paulo, mas esse status está sempre mudando.
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Minha história: Valter Mendes Jr.

Sempre digo que entrei no mundo da tradução por amor. Não por amor à tradução, exatamente. Afinal, quando criança, nunca sonhei em ser tradutor e, crescido, formei-me em História. No entanto, sempre gostei de idiomas e, autodidata que sou, aprendi a falar inglês sozinho, graças aos jogos de videogame que sempre me acompanharam. Só que minha motivação era puramente intelectual, não prática.

Eis que entra o amor: namorava uma menina que recebeu uma proposta irrecusável para trabalhar em São Paulo. Eu, por amor, aceitei embarcar junto nessa aventura na metrópole. Chegando lá, precisava arrumar um emprego. Comecei a comprar jornais para procurar, entre os diversos anúncios dos classificados, algum em que me encaixasse minimamente. Vi um anúncio para revisor de textos, mandei um currículo e recebi uma resposta pedindo que fosse até lá fazer uma entrevista.

Imaginava que seria uma agência de publicidade querendo um revisor de português e que eu passaria por uma daquelas dinâmicas de grupo típicas de entrevistas de emprego – até tinha na ponta da língua a resposta “abelha” ou “formiga” para a pergunta sobre qual animal gostaria de ser, já que elas trabalham em equipe. Cheguei lá e nada era o que eu pensava: tratava-se de uma agência de tradução querendo um revisor de traduções e não havia dinâmica alguma, mas vários testes que envolviam traduções, versões e perguntas de múltipla escolha sobre gramática.

Passei no teste e comecei a trabalhar dentro da agência, revisando textos. Foi o melhor início que poderia ter com tradução, pois aprendi tudo que precisava para começar a traduzir, com muito contato com terminologias especializadas e com a ajuda dos meus colegas. Logo comecei a traduzir e cheguei a ser gerente de projetos. Estava tudo ótimo profissionalmente, mas eu e minha namorada terminamos nosso namoro. Voltei a Porto Alegre e passei a trabalhar em casa para a agência, com carteira assinada e tudo. Esse período foi ótimo para que eu criasse uma rotina de trabalho – afinal, precisava acompanhar o horário da agência.

Veio a crise econômica e fui demitido para cortar gastos; queriam continuar trabalhando comigo, então abri uma empresa. Com ela, veio a liberdade de procurar outros clientes, maiores, melhores e mais distantes, e novas experiências dentro do mundo da tradução. E eu lá, aceitando os desafios e cada vez mais apaixonado pela profissão em que havia entrado, meio sem querer, mas de onde não queria sair de jeito nenhum. Sete anos depois, tenho a vida que quero graças à tradução e também sou professor – uma forma bacana de repassar a outras pessoas o que aprendi nesses anos todos.

Tem uma música da Legião Urbana que diz: “Só nos sobrou do amor a falta que ficou”. Para mim, o que sobrou de um amor (aquele, que me fez ir a São Paulo) foi outro amor, pela tradução, e que me faz ir aonde quero.

Valter Mendes Jr. é tradutor de inglês, português e espanhol, residente em Porto Alegre, RS.
E-mail: valtermjunior@yahoo.com.br | Skype: valter-alltasks | Linkedin

Minha história: Michelle Aio

“Não pude estudar Psicologia. Então escolhi Tradução.”

É quase sempre assim que começo a contar minha trajetória no mundo tradutório. Meu pai não quis que eu estudasse Psicologia. Daí resolvi pesquisar num guia de cursos da Editora Abril o que é que poderia me interessar.

Foi a primeira vez que li sobre a profissão do tradutor, e fiquei curiosa. Entrei no curso em 2005 e me apaixonei. Ali eu tive a oportunidade de trabalhar num projeto de estágio como coordenadora de um grupo de tradução na árdua tarefa de traduzir um livro na área de medicina. Já um pouco familiarizada com a terminologia, resolvi oferecer meu trabalho como tradutora voluntária de textos médicos para a Associação Brasileira de Atrofia Espinhal Muscular (ABRAME) e, de 2007 pra cá, venho trabalhando como tradutora na área médica.

Eu já estudava inglês desde 2001. Em 2005 comecei a estudar francês, espanhol e italiano. Hoje em dia, trabalho traduzindo do inglês, francês e espanhol para o português. O italiano ficou só na pronúncia bonitinha dos cardápios das cantinas que frequento…

Em 2009 ingressei no Programa de Pós-Graduação em Estudos da Tradução da Universidade Federal de Santa Catarina. Pelas tantas teorias estudadas e utilizadas como ferramentas de análise de tradução na Academia, o Mestrado me proporcionou um olhar mais amplo sobre a prática tradutória – apesar de, até hoje, ficar incomodada com a lacuna existente entre a tradução do mundo acadêmico e do mundo real. Ali que ficou bem clara pra mim a diferença entre tradutores e tradutólogos. E foi em Florianópolis que comecei a prática de organizar Powwows – encontros informais com colegas tradutores. A Sheila Gomes (organizadora desta plataforma) foi ao segundo deles e se tornou uma das figuras mais queridas do nosso círculo de colegas.

Defendi a dissertação em 2011 com a temática de tradução jornalística. Fiquei até o início de 2014 trabalhando exclusivamente como tradutora freelance, até que em fevereiro deste ano fui selecionada para atuar como Docente no curso de Letras Inglês na Universidade Católica de Brasília. Lecionar é uma ótima experiência por todo o aprendizado que me proporciona no contato com aspectos específicos da estrutura da língua inglesa e nas relações interpessoais com colegas e alunos. Senti muita falta disso quando trabalhava em casa como freelance.

Agora, além de ministrar aulas e trabalhar com tradução médica, também sou doutoranda em Estudos da Tradução na UFSC. E neste semestre estou responsável pelas aulas de tradução na UCB. Com isso, não passo um só dia da semana sem pensar em tradução. As pessoas me chamam de “translationholic”, e eu nem sei por quê.

Michelle Aio é tradutora da área médica, professora na Universidade Católica de Brasília e Mestre em Estudos da Tradução.
Skype: michelle.de.abreu.aio | Tel: 61 99391690 | E-mail: aiomichelle@gmail.com

Minha história: Fernando Campos Leza

Eu não vou lhes contar a história de Hans Castorp, mas uma coisa eu tenho em comum com esse personagem: nunca imaginei que minha viagem (na tradução) demoraria tanto tempo. Minha experiência como tradutor teve início em 1998, quando residia em Berlim. Lá conclui minha graduação em Filosofia, iniciada na Espanha e que, graças ao Erasmus (o programa europeu de intercâmbio universitário, não o filósofo), cursei um ano na Escócia e o último em Berlim.

Não sabia bem o que fazer após cursar Filosofia. Por isso, devido ao meu bom conhecimento de idiomas e por ter gostado da minha experiência na tradução, decidi investir nesta carreira. Mudei-me para Paris, fui aprovado nos exames de admissão da Escola Superior de Intérpretes e de Tradutores (ESIT), onde em 2004 conclui estudos de graduação e pós-graduação. Desde então, dedico-me exclusivamente à tradução profissional, atividade que combino com a revisão de textos em espanhol e com a interpretação de conferências.

Dez anos se passaram, e muitas coisas. Agora moro em Brasília e possuo uma pequena empresa de tradução. Gosto da aventura de ser um pequeno empresário e de continuar evoluindo na carreira. Muitos anos depois de ter começado a traduzir, por pura casualidade, estou bem estabelecido profissionalmente. Tenho bons e exigentes clientes — principalmente organismos internacionais, tanto aqui em Brasília quanto em Genebra e Washington — que valorizam a qualidade de nosso trabalho. E tenho a sorte de gostar do que eu faço.

Olhando para trás nesses anos de carreira e pensando nos colegas iniciantes, gostaria de identificar alguns aspectos que me ajudaram na profissão:

A formação em tradução é importante, pois permite aprender a traduzir antes de ser pago para isso. Na universidade, desenvolvemos o “reflexo do tradutor“, uma mosca da desconfiança atrás da orelha e um instinto para encontrar soluções aos problemas de tradução.

Há muitas coisas, porém, que não se aprende na faculdade e para isso é essencial participar de listas e fóruns de tradutores, para aprender sobre programas, recursos, tarifas, ideias para o negócio, etc.

É preciso investir: gasto, sem hesitar, em dicionários, livros sobre a língua espanhola e outras matérias, softwares, congressos, cursos e recursos.

É bom conhecer os seus limites. Desde o início impus-me a condição de traduzir somente para o espanhol, minha língua materna, devido à forte convicção de que nunca me expressarei em outra língua tão bem quanto na minha língua materna. Acredito que isso contribui para a qualidade dos meus textos.

Aprendi também (e demorei a aprender) que nós, tradutores independentes, somos empresários, e que para ter algum sucesso é preciso atuar como empresário. Aprendi isso no Empretec, um seminário organizado pelo Sebrae.

É necessário continuar aprendendo sempre e é bom compartilhar os nossos conhecimentos — nos sites, em fóruns online, em cafés com colegas, em congressos, etc.

Tenho certeza de que outros tradutores experientes dariam conselhos semelhantes.

Fernando Campos Leza é tradutor e intérprete, reside em Brasília e trabalha nos seguintes idiomas: espanhol, português, inglês, francês e alemão.
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Minha história: Chrystal Caratta

Fiz minha primeira tradução aos 16 anos. Conheci a um sueco que namorava uma brasileira e não falava português. A namorada desapareceu no mundo e ele queria enviar uma carta (!) aos pais dela. Escreveu em inglês, eu traduzi. A carta era longa, poética, sofrida. Entendi, nesse preciso momento, que mais que passar umas palavras ao português, eu precisava traduzir a angústia que ele sentia de ter sido deixado num altar que nunca existiu. Como todo bom cliente, uma vez entregue a tradução, ele comparou minha versão com a versão do Google Translate (que naquela época funcionava em marcha à ré) e pediu algumas explicações. Clients will be clients.

Muitos anos se passaram até que eu fiz minha primeira tradução profissional e remunerada. Estava terminando a faculdade e procurando uma maneira de ganhar dinheiro para me casar com um namorado alemão. Paguei a mensalidade da Catho e encontrei um anúncio de uma agência que buscava tradutores no par alemão > português. Nesse momento eu nem imaginava que existia um exército invisível de nós. Um teste e um NDA depois, em 2008, eu estava sentada na BemTradUz aprendendo a usar ferramentas CAT, trabalhar com terminologia e fazer controle de qualidade (um beijo pra BemTradUz!).

Minha primeira agência me ensinou tudo o que eu sei hoje. Lá fiz bons amigos que levo pela vida, aprendi a trabalhar com ética, paciência e comprometimento com a qualidade. Você não precisa começar sua carreira em uma agência e é bem possível que você construa uma carreira de sucesso sem nunca ter pisado em uma. Mas esses anos que eu passei com a BemTradUz, dinheiro nenhum do mundo é capaz de recompensar.

Minhoca de agência, depois da BemTradUz trabalhei em algumas outras mais, seduzida pelos salários cada vez mais altos. Alguns traumas depois (estas agências eram de chorar), comecei a traduzir de casa. Trabalhei com agências no Brasil e na Europa, aprendi contabilidade básica – como carga tributária e composição de preços. Aproveitei a flexibilidade do trabalho e me mudei pra Buenos Aires. Estava feliz, tomando vinho, escutando tango e traduzindo meus projetinhos honestos quando o bicho da agência voltou a me morder.

A Latinlingua, onde trabalho hoje, estava contratando tradutores in-house de português. Era um trabalho feito especialmente pra mim, mas eu estava muito traumatizada para voltar a trabalhar em relação de dependência. Sem muitas expectativas, algumas entrevistas depois eu estava contratada, pedindo minha residência permanente na Argentina e viajando no segundo metrô mais antigo do mundo todos os dias.

Na Latinlingua encontrei o espaço para desenvolver tudo que eu aprendi na BemTradUz. Aprendi que o mercado de tradução são vários e que nem todas as agências do mundo esperam que a gente traduza volumes homéricos pagando tarifas de Lilliput. Aprendi que uma boa tradução tem diversas camadas de trabalho e que escrever no idioma-alvo é apenas a primeira e mais fácil delas. Aprendi que nem todo cliente é implicante e que há muitos por aí querendo estabelecer parcerias de qualidade.

Há muitos anos eu vivo da tradução. É ela quem paga integralmente minhas contas. E meu primeiro cliente, o amigo sueco, continua sendo amigo e cliente. Começou a trabalhar em um grande banco canadense e, hoje, paga feliz todas as traduções que faço pra ele. E eu traduzo tudo, profissionalmente e com a mesma dedicação daquela primeira carta.

Chrystal Caratta é tradutora de alemão, inglês e espanhol para o português do Brasil. Reside em Buenos Aires e tem especial predileção por transcriação, terminologia, mídias sociais e controle de qualidade.
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