Minha história: Lígia Ribeiro

Mudar de profissão aos 50 anos. Isso é possível? Sim.  eu mudei. E por que escolhi ser tradutora? Bom, deixe eu contar a vocês um pouquinho da minha história.

Trabalhei durante muitos anos como assistente executiva de diretores e presidentes, em multinacionais do segmento farmacêutico e alimentício. Eu sou filha única e moro com o meu pai de 86 anos. Depois que a minha mãe faleceu e, voltando para São Paulo, após um tempo no interior, percebi o quão ingrato é o mercado para quem já passou dos 50. As chances são muito menores… na realidade, quase zero, mesmo que você tenha expertise nas áreas em que atua ou já atuou. Então, comecei a analisar as minhas habilidades, o que realmente gostava de fazer e como poderia conciliar as duas coisas. Como já realizava traduções corporativas no meu trabalho, achei que a tradução seria uma ótima escolha.

Mas então, a mudança foi fácil? Pelo contrário, foi difícil e exigiu muita dedicação e perseverança. E ainda exige. O primeiro passo que dei foi acessar as páginas de tradutores no LinkedIn e ver a história de alguns profissionais: áreas de atuação, cursos que fizerem, locais onde trabalharam, etc. Uma colega me indicou vários grupos de tradutores no Facebook. Então, me apresentei e fui absorvendo as informações que os colegas postavam, trocando ideias e selecionando o que era mais condizente aos meus interesses. Como não sou formada em tradução, resolvi também realizar uma pós-graduação na área para assimilar mais conhecimentos sobre tudo o que se refere à tradução.

Mas como saber quais as áreas com as quais eu tinha mais afinidade? Fiz trabalhos voluntários, ainda faço, e fui conhecendo um pouquinho de cada uma: editorial, legendagem, tradução para dublagem, etc. Realizei um curso de tradução para dublagem com a conhecidíssima Dilma Machado, hoje minha amiga, e ela me deu oportunidade de trabalho nesta área.

No meio do caminho, associei-me à Abrates, o que me possibilitou participar de um programa de mentoria e ter toda a orientação possível com uma excelente profissional, amiga e colega: Gio Lester. Sempre gostei de escrever e ela me incentivou a não deixar de fazer o que gostava. Então, resolvi criar o meu blog “Arca do Saber”, com artigos relacionados à tradução e à gramática do português brasileiro. Achei que, de alguma forma, seria a oportunidade de retribuir aos colegas o que eles haviam me dado gratuitamente: conhecimento. Além disso, procurei participar de eventos da área (Congressos, reuniões, workshops, Barcamps) para interagir com os colegas e assimilar, cada vez mais, tudo o que se refere a essa belíssima profissão.

Hoje, continuo traduzindo documentos ligados à área médica, que é uma das áreas das quais mais gosto, e estou entrando também na audiodescrição, outra área de grande responsabilidade social. Quero continuar a me aperfeiçoar para me solidificar, cada vez mais no mercado, como tradutora qualificada. E se alguém me disser que após os 50 anos, o ideal é pensar em aposentadoria, eu rebato: ̶ Não para mim. Ainda tenho muitos projetos a realizar.

 

Ligia Ribeiro é tradutora dos idiomas inglês espanhol para o português brasileiro, membro da Abrates, especialista em tradução médica e administrativa. Trabalha também com legendagem e audiodescrição.

Minha história: Márcia Nabrzecki


Tradutora. Minha carreira nessa profissão foi construída como um quebra-cabeça que começou a ser montado lá na infância e foi se delineando à medida que as pequenas peças iam se encaixando.

A primeiríssima delas foi a curiosidade inata. Quando criança lia muito, tudo que caísse nas mãos, tudo mesmo, da coleção infantil de Monteiro Lobato a bulas de remédio, e sempre observava meus pais em suas tarefas. Ficava por perto, pedindo explicações. O que você está fazendo? Que máquina é essa? E aquela ferramenta? E aquele pedacinho de metal? Serve para quê? Como esse equipamento funciona? Ainda bem que eles eram pacientes…

Aos 12 anos, surgiu outra peça que seria definitiva: comecei o curso de inglês na Cultura Inglesa, matriculada por minha mãe com o objetivo de ocupar minhas tardes ociosas de adolescente. Foram oito anos de estudo e acabei contagiada pelo amor aos idiomas.

Um pouco mais tarde, veio o curso técnico de Desenho Industrial no finado CEFET-PR, no qual aprendi muito mais sobre ferramentas, técnicas, processos e materiais. Nessa época, sonhava em ser arquiteta. Mas não passei na prévia de do vestibular e, sem saber muito bem o que fazer, segui a orientação de um teste vocacional e entrei na faculdade de Publicidade e Propaganda. No entanto, já na metade do curso sabia que não queria ser publicitária. Minha nova meta profissional passou a ser trabalhar no departamento de marketing ou gerência de produto de alguma grande empresa. A maioria dos estágios era em agências de publicidade, mas, um dia, surgiu a vaga que eu esperava: uma multinacional procurava uma estagiária que fosse técnica em Desenho Industrial ou estivesse fazendo o curso superior de Publicidade!

A informática ainda era uma grande novidade, e o setor de tradução técnica da companhia queria alguém para o projeto (então) inovador e ambicioso de diagramar e imprimir internamente os manuais antes produzidos pelo processo tradicional de composição e impressão em gráfica. Embarquei na aventura, aprendi a usar computadores, tornei-me editoradora e fui formalmente apresentada à tradução e aos textos técnicos. Porém, embora às vezes precisasse traduzir uma ou outra frase, eu ainda era apenas uma expectadora do serviço dos tradutores.

Isso mudou alguns anos depois, quando um colega de setor e eu decidimos abrir nosso próprio escritório de tradução e editoração. Logo estávamos prestando serviços para nosso antigo empregador, cuja demanda de tradução era bastante significativa. Foi aí que comecei realmente a traduzir, orientada pelo meu sócio. E não parei mais. Vieram novos clientes, novas áreas de conhecimento, novas tecnologias, novas técnicas de trabalho. A sociedade terminou e agora trabalho como tradutora independente.

A profissão é fascinante e adoro a dinâmica da área, sempre com novas tecnologias e novos temas a explorar. Além disso, os diversos eventos da área proporcionam um rico contato com outros tradutores e resultam em mais aprendizado, parcerias interessantes e, no mínimo, uma ótima conversa. Por tudo isso, sinto que esse quebra-cabeça ainda está longe de ser completado – ainda bem!

Márcia Nabrzecki é tradutora no par inglês<>português e revisora, especializada nas áreas de comunicação corporativa, marketing, informática e engenharia. Reside em Curitiba.
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E-mail: marcia@propage.com.br

Minha história: Thiago Hilger

Um tradutor feliz, realizado e eternamente iniciante, que seguiu por alguns caminhos tortuosos até chegar a esta profissão.

Tudo começou na infância, quando eu jogava videogame sem entender bem os textos em inglês na tela da televisão. Foi com um dicionário ao lado, jogando videogame e depois ouvindo músicas que comecei a aprender o idioma, sempre sendo autodidata. Sempre fui fascinado por idiomas, tanto o inglês como o nosso nativo, o português, então sempre tive notas altas na escola em ambas as matérias.

Minha primeira experiência tradutória foi em 2007, mas não foi muito boa. Foi um trabalho nada bem pago, sobre um assunto extremamente técnico. Apesar de ter sido prazeroso traduzir, essa experiência me deixou afastado da tradução por vários anos.

Voltei a considerar a tradução em 2014. Na época eu trabalhava com análise de sistemas e, apesar de ter um salário razoavelmente alto e ter bastante reconhecimento na empresa onde eu atuava, eu não estava mais feliz, estava quase entrando em depressão. Em um dado momento, eu olhei para o espelho e ele me disse que eu precisava tomar uma decisão séria. Continuar naquela vida ou buscar algo que me realizasse. É claro que eu escolhi a segunda opção.

Sempre tive bastante contato com outros tradutores, e, por ter traduzido no passado, já sabia como era o desafio, mas sabia também a realização profissional que o acompanhava. Decidi arriscar e mudar de vida. Após alguns meses conciliando as duas profissões e planejando o passo seguinte, tomei coragem e pedi demissão do trabalho antigo. Essa história eu contei em mais detalhes no meu blog, O Jogo da Tradução.

Comecei a trabalhar como freelancer em tempo integral em abril de 2015 e não me arrependo em momento nenhum. Meus antigos colegas de trabalho, com quem ainda mantenho contato, sempre comentam que pareço outra pessoa, e é assim mesmo que me sinto. Um Thiago renovado.

O conhecimento e experiência que desenvolvi trabalhando na área de informática e tecnologia da informação, é claro, não foram esquecidos. Minha formação superior é em Ciência da Computação, então todo este vasto campo é uma das minhas especialidades no mundo da tradução.

Além disso, sou pós-graduado em Desenvolvimento de Jogos Digitais, o que me aproxima também da área de localização de jogos, que é a menina dos olhos para mim. Amo localizar jogos, do fundo do coração.

Outras especialidades com que trabalho bastante são a legendagem e a revisão. A legendagem começou com o trabalho voluntário nas palestras TED, sempre com temas interessantes e motivadores. O trabalho com revisão é uma nova porta que vinha se abrindo há pouco tempo e se escancarou quando eu publiquei no blog uma técnica de controle de qualidade usando Expressões Regulares. Este tópico também vem da área de informática, que, pelo jeito, não me abandona nunca, e é uma das minhas linhas de frente do ano de 2016.

Eu estou apresentando uma série de palestras sobre o Uso de Expressões Regulares no Controle de Qualidade da Tradução em um curso de interpretação em Curitiba, onde eu moro. Os próximos passos nessa linha serão um curso e uma consultoria, ainda em 2016, e palestras em congressos.

Acho que essa é a beleza da tradução: estamos sempre conectando áreas, assuntos, pessoas, usando os idiomas para que todos possam se desenvolver da melhor forma possível. Adoro estudar e descobrir temas novos e me sinto feliz por sempre ter algo novo a aprender.

Thiago Hilger é tradutor no par inglês<>português, especializado nas áreas de TI, jogos, localização e legendagem. Reside em Curitiba.
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Minha história: Paulo Noriega

Filho único de mãe mineira e pai gaúcho, nasci na cidade do Rio de Janeiro onde resido até hoje. Sem sombra de dúvida, boa parte do que eu sou profissionalmente devo agradecer a minha mãe, pois o gosto pela leitura, pela escrita e pelos idiomas estrangeiros foi incentivado por ela desde muito pequeno. No caso dos idiomas, especialmente a língua inglesa, meu contato inicial não poderia ter sido de forma mais lúdica e divertida: foi assistindo aos clássicos de Walt Disney, já que ela comprava as fitas em VHS dubladas e legendadas. Mal sabia eu que isso acabaria despertando a minha grande paixão anos mais tarde quando eu viria a decidir por seguir o caminho da profissão de tradutor profissional especializado na área de dublagem.

Meu gosto pela língua inglesa continuou a crescer no decorrer dos anos, tanto que me formei na Cultura Inglesa em 2007 e passei no exame PET da faculdade de Cambridge. Além disso, recebi uma boa base na língua francesa por conta da minha escola e sempre flertei com outros idiomas, fosse através de músicas ou pegando meus DVDS e vendo os filmes em outras línguas, mesmo aquelas nas quais eu não era fluente. Em paralelo com a paixão por outros idiomas, outro grande gosto cresceu junto comigo, ainda alimentado pela minha infância disneyana: o amor pela arte e pelo mundo da dublagem em si. Nunca me esqueço de como as interpretações dos nossos dubladores eram marcantes e como eu queria pertencer àquele mundo de alguma forma. No entanto, seria somente na faculdade que as peças iriam começar a se encaixar…

Durante meu primeiro ano cursando bacharelado em tradução na PUC-RIO, vi que havia um curso de extensão sendo oferecido pela própria faculdade sobre tradução para dublagem, e uma vez que essa modalidade não era contemplada na grade curricular, vi ali uma chance de aliar as minhas duas paixões. O curso ministrado pela tradutora e dubladora Dilma Machado foi uma grande experiência e ao final dele vi que, com certeza, eu havia me achado naquele mundo. Isso foi no ano de 2010. Em julho de 2012, foi quando recebi meu primeiro trabalho de tradução para dublagem e, desde então, nunca mais parei. Comecei a trabalhar em paralelo com a faculdade como freelancer e após me formar em 2014, continuo firme e forte na área.

Realizando um trabalho de formiguinha, consegui conquistar clientes tanto no Rio de Janeiro quanto em São Paulo e espero conquistar ainda mais! Há trabalhos dos quais me orgulho muito de ter dado a minha contribuição, uma vez que o mundo da dublagem não se limita apenas à tradução em si. É um trabalho de equipe no qual desde o tradutor até o último dublador que grava sua última cena dá o seu toque pessoal para que o produto saia da melhor forma possível. Aprendo muito com os diretores de dublagem com os quais trabalhei e continuo a trabalhar, pois é uma área tão orgânica e tão viva que a lapidação em prol de uma tradução cada vez mais afiada nunca cessa.

Em termos pessoais, posso dizer que a cada novo trabalho realizado, me sinto muito feliz por ajudar a recontar histórias de tantos personagens seja em um filme, um desenho animado ou uma série no nosso idioma. É uma sensação única e luto para que essa modalidade tradutória ganhe mais espaço e notoriedade no âmbito acadêmico-tradutório, pois se comparado aos países europeus, ainda há muito a se investigar sobre essa modalidade em nosso país e até sobre a historiografia da dublagem brasileira em si.

Nessa militância, tive a oportunidade de me apresentar e poder falar mais acerca da minha profissão em faculdades tais como UERJ, UFF e UFRJ, de modo a mostrar aos alunos interessados no mundo da tradução, que existe mais uma área de atuação disponível para eles e que carece de profissionais qualificados e capacitados. Além disso, sinceramente espero que, ao compartilhar um pouco da minha experiência e falar sobre esse mundo que tanto amo, outros possam se encontrar nele, tal como eu me encontrei.

Paulo Noriega é carioca, tradutor do par de idiomas português-inglês e especializado no campo de tradução para dublagem. É bacharel em tradução pela faculdade PUC-RIO, com domínio adicional em cultura greco-romana.
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Minha história: Carolina Walliter

Meu primeiro contato com a tradução foi aos 14 anos, quando resolvi botar um fim à minha frustração com a “demora” do quinto volume de Harry Potter em português. Com um final de semana de ralação para traduzir algumas páginas de A ordem da fênix, descobri que essa coisa de traduzir era difícil à beça e nunca mais disse um “ai!” para reclamar dessa suposta lentidão na publicação das minhas séries estrangeiras favoritas. No entanto, encarei a dificuldade em traduzir literatura como uma oportunidade para começar a ler em inglês e, com isso, acabei ganhando a fluência necessária que me abriu muitas portas no futuro. A tradução em si, porém, caiu no esquecimento e só foi ressurgir anos depois, em meio a uma das muitas crises de identidade que a faculdade de História me proporcionou.

Pois é, sou de humanas da cabeça aos pés: me formei em História, mas todo semestre ficava na maior dúvida sobre largar a faculdade. Apesar de toda a paixão e identificação com a disciplina, conforme avançava nos períodos, mais certeza tinha que as possíveis opções de exercício da profissão não me fariam plenamente feliz. Assim, durante um final de semana trancada em casa em meio a textos e fichamentos, resolvi relaxar folheando uns trechos daquele livro do Harry Potter e lembrei da minha tentativa meia-boca de traduzi-lo. Bazinga! Um curso de tradução! Será que isso existe? Tradução é uma carreira, não é mesmo?

Com uma rápida pesquisa na internet descobri um curso profissionalizante em Ipanema; cinco minutos depois meu teste para admissão no curso de formação de tradutores estava agendado junto com a prova prática para o curso de formação de intérpretes. Duas semanas depois começava, feliz e animada, minha dupla jornada oficial no mundo tradutório como aluna do Brasillis. Foram quase dois anos de sábados inteiros dedicados à tradução e à interpretação, onde aprendi muito e amadureci horrores, conhecendo um universo bem diferente daquele mundo romantizado que imaginava sobre ser tradutora (aquele ar blasé de livros, intelectualidade, cheirinho de café e uma máquina de escrever vintage, sabe?) e intérprete (Nicole Kidman entreouvindo conspirações políticas na sede da ONU). Fui apresentada a um universo de trabalho complexo, diferente de tudo que conhecia, repleto de desafios que me instigaram a continuar nesse caminho.

Assim, aos vinte anos, tinha dois diplomas na mão, uma graduação em História já na metade e, obviamente, zero experiência. Assim, me lancei no mercado trabalhando em agências, onde ganhei experiência tanto na interpretação quanto na tradução. Os dois anos e meio que passei como linguista in-house foram verdadeiros laboratórios, onde entrei em contato com os mais variados tipos de texto, aprendi a usar CAT tools, compreendi o processo de gerenciamento de projetos de tradução e fiz muitos contatos profissionais, alguns com os quais ainda mantenho parcerias e grandes amizades.

Entretanto, só em 2013 que fui entender a importância dos rumos que a minha vida vinha tomando com a tradução/interpretação. Eu trabalhava com o que gostava, mas não dentro das condições que gostava; meu esgotamento físico e mental já era latente e minha insatisfação se generalizava. Sabe aquela sensação de que a vida espera de você muito mais que 40 horas religiosamente trabalhadas? Pois é. Aproveitei a deixa de alguns colegas que migraram para o esquema home office e me aventurei nessa também. E não me arrependi nem um pouco: além de trabalhar em condições privilegiadas (poupo energia com deslocamento, meu escritório tem o meu jeitinho e é ergonomic-friendly, etc.), desde então pude ter tempo para cuidar de mim por inteiro, me conhecer melhor e justamente perceber que as minhas ocupações profissionais são parte de um todo muito mais importante: a minha vida, que precisa e merece ser bem vivida. Assim, com pouco mais de um ano já no circuito self-employed, resolvi aproveitar o dinamismo de ser uma profissional virtual e parti para uma nova aventura: o nomadismo digital. Em meados de 2014 lancei o Pronoia Sem Fronteiras, meu projeto de vida pessoal-profissional, em Buenos Aires, onde morei e trabalhei em um coworking space por três meses, mesclando o prazer de viajar e conhecer novos lugares com a rotina de trabalho.

O dinamismo da vida autônoma permitiu que eu me engajasse em projetos paralelos que também me proporcionam muita satisfação e crescimento pessoal: hoje, além de traduzir e interpretar, sou revisora e colaboradora da Revista Capitolina e participo da Rede Méier+, uma rede colaborativa de revitalização da Zona Norte carioca.

Além da flexibilidade de trabalho, a tradução e a interpretação são ofícios que mexem com meu perfeccionismo e autocrítica, dosando-os de forma que não sejam elementos da minha ruína, mas componentes de um profissionalismo crítico e sincero. No mais, estou exatamente onde queria estar: no presente, vivendo, não meramente existindo, realizada e fazendo o que gosto. E claro, se em alguma das minhas andanças eu esbarrar com a Lia Wyler, faço questão de me desculpar!

Carolina Walliter é tradutora e intérprete no par inglês e português, com ênfase em projetos nas áreas de marketing empresarial, recursos humanos, TI, transcriação e segurança do trabalho. Escreve sobre o cotidiano do tradutor no Pronoia Tradutoria, onde também divulga suas impressões empíricas sobre o fenômeno do coworking.

Minha história: Sofia Pulici

Quando chegou aquele momento no colegial de decidir qual faculdade fazer, eu estava perdida. Eu sentia que havia uma certa torcida para que eu fizesse administração de empresas para ajudar no negócio do meu pai. Não era algo que me atraia. Na época, após anos de estudos de língua inglesa, eu fazia aulas de conversação de inglês e, conversando sobre o assunto na aula, o professor sugeriu: Por que você não presta hotelaria? É uma carreira nova e promissora, e, de certa forma, é administração, mas de hotéis, não de empresas. Essa fala influenciou minha decisão e, assim, escolhi hotelaria; eu amava viajar e me hospedar em hotéis e comer em restaurantes, então aquilo parecia certo. No meio do caminho transferi o curso para uma faculdade em Sydney, Austrália, e me formei na terra dos cangurus. Trabalhei com hotelaria por alguns anos, mas faltava algo. Certa vez, em uma entrevista num hotel, tive de responder aquela pergunta clássica: Onde você deseja estar profissionalmente daqui a dez anos? Eu não sabia o que dizer, pois não me via no mercado hoteleiro no futuro.

No entanto, foi a hotelaria que me colocou em contato pela primeira vez com o mundo da tradução. Em 2004, numa empresa hoteleira na qual eu trabalhava no Brasil, precisávamos que o sistema fosse traduzido ao português. Fui escolhida pra começar a tradução. A tarefa foi fluindo e aquilo tudo foi me fascinando. Foi então que descobri que o meu tempo na hotelaria estava acabando. Mas, espera! Eu ainda não estava segura de que seguiria a carreira de tradutora. Aliás, nem sabia muito sobre a profissão. Num momento de transição, fui trabalhar de assistente administrativa bilíngue. O presidente da empresa era inglês e, então, começaram a aparecer e-mails, textos e matérias de jornais e revistas para eu traduzir. Foi aí que me deu o “click”. Eu queria parar qualquer outra atividade do escritório para traduzir. Isso me deixava viva, me instigava, me alimentava. E, no começo de 2006, decidi que realmente queria ser tradutora profissional. Fiz um estágio numa agência de tradução por uns meses, fui pesquisando sobre trabalhar em casa, me esquematizando, e, no meio do mesmo ano, bati o martelo e comecei no esquema “home office”, trabalhando integralmente como tradutora freelancer. Meus primeiros clientes? A empresa hoteleira na qual trabalhei e um hotel cinco estrelas, além de uma empresa que funcionava no mesmo prédio onde atuei como assistente bilíngue. Contatos e bons relacionamentos… tive sorte e foi assim que começou.

Anos mais tarde, em 2009, achei que eu precisava estudar novamente. Sentia que me faltava teoria, até mesmo para justificar algumas das minhas escolhas tradutórias. Como já conhecia o sistema de ensino australiano, decidi voltar a estudar lá. Infelizmente não era possível eu fazer um curso de tradução, pois as faculdades não ofereciam nenhum programa com português, por isso optei por um programa interessante de linguística aplicada. A coordenadora do curso, ao saber que minha primeira opção era tradução, me deixou fazer matérias genéricas (sem língua específica) do mestrado de tradução, como teoria e técnicas de tradução e interpretação. Me formei, me tornei tradutora credenciada pela NAATI, órgão que reconhece tradutores profissionais na Austrália, e lá trabalhei como linguista e tradutora, o que foi ótimo para eu ver e entender como funcionam outros mercados tradutórios, nem sempre tão dinâmicos como o brasileiro.

Ainda há muito o que percorrer nessa trajetória, mas quando olho para o caminho que já trilhei, penso: Lindo! Consegui, no final das contas, colocar tudo num pote só: estudar um pouco da teoria que queria, envolver hotelaria no meu trabalho, sendo essa uma das minhas áreas de especialização, e ainda ter o conhecimento e o título de linguista. Se hoje me perguntarem onde desejo estar profissionalmente daqui a alguns anos, a resposta é clara: traduzindo, sempre traduzindo!

 

Sofia Pulici é linguista e tradutora nos pares inglês <> português e espanhol > português, especializada em turismo e hotelaria, mas atua também em outras áreas (médica e pigmentos). Reside atualmente em Rio Claro, interior de São Paulo, mas esse status está sempre mudando.
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Minha história: Vanessa Tomich

Desde que me lembro, português e inglês eram matérias fáceis e naturais como respirar. Depois, ainda na adolescência, enveredei pelo italiano e pelo alemão. Só por diversão. Na época, ganhei uma bolsa de estudos para estudar inglês. E nunca mais parei.

Entrei na universidade fazendo Ciências Sociais. Fascinante, era tudo o que eu queria…. mas, assim que sobrou uma vaga em Letras/Inglês, mudei de curso. No fundo, não mudei. Apenas retomei o caminho que já estava dentro de mim: línguas e linguística. Um caminho talvez já traçado desde a infância, quando eu lia ‘O Homem e as Línguas’, que meus pais tinham em casa. Minha alma tinha se tornado cosmopolita.

Tive um noivo norte-americano. E um marido chileno. O convívio com eles e suas famílias me enriqueceu infinitamente, e lá estava de novo a marca indelével dos idiomas e da cultura estrangeira em minha vida.
Por motivos profissionais, fui aprender francês. Um período muito prazeroso de um ano e meio, concluído com um teste feito uma semana antes do nascimento de minha filha.

Por mais de duas décadas, dei aulas de inglês de todos os tipos: particular, em cursos, em colégios regulares, em cursinho. Em geral, o contato com os alunos era muito bom. Mas, no fundo, eu me agarrava à pseudossegurança do ganho fixo.

Até que, na segunda gravidez, gestei filho e tradução juntos. No oitavo mês, por razões a princípio financeiras, aceitei uma importante tradução técnica, oferecida por uma amiga fraterna e grande encorajadora da tradução em minha vida (Luci Collin, escritora, tradutora e professora de tradução na UFPR).

Me pus a traduzir sem parar, usando minha máquina de datilografar eletrônica. Era julho/agosto de 1994. E… não consegui terminar a tradução antes do filho nascer. Entrei no centro cirúrgico dizendo ao meu obstetra: “Doutor! Eu não terminei a tradução!!” Ele tomou meu rosto ternamente nas mãos e disse: “Calma, Vanessa… você está tendo um bebê!” Felizmente, o filho e a tradução chegaram com saúde. Até o obstetra me pediu tradução de seu artigo, e fiz muitas traduções com o bebê ao lado. Hoje, esse filho lindo e a minha estrada de tradução têm 20 anos!

No início, tive o privilégio de receber traduções através de indicações. E aprendi muito com elas porque aceitei todas, com curiosidade e alegria, mesmo sem a competência ideal. Vieram mais tarde os convites para trabalhos maiores, que me levaram às áreas florestal, eletromecânica e de energia – minhas especialidades hoje.

Em retrospecto, vejo que meu saber tradutório vem sendo construído lentamente, tradução a tradução, com o apoio de muita gente inspiradora e oportunidades – formais e informais. Mas, se fosse para resumir toda a minha experiência com tradução no que considero absolutamente essencial, eu diria: é paixão vital. E paixão correspondida.

Vanessa Tomich é tradutora técnica e TPIC na cidade de Curitiba e trabalha no par inglês-português.

Minha história: Thomas Melo

Minha primeira experiência como tradutor começou cedo. Ainda com 17 anos. Por ser o ‘primo que sabia Inglês’, minha prima – que é médica – pediu-me para traduzir um artigo de uma revista especializada. E como é de se imaginar, não foi algo fácil ou prazeroso. Mas, de certa forma, serviu para me abrir os olhos para um mercado totalmente novo. A partir desse momento, comecei a tentar traduzir músicas e poemas de autores dos quais gostava na época. Isso me motivou a prestar vestibular para Letras e pensar na carreira de tradutor para o meu futuro (mas, definitivamente, não para traduzir artigos de Medicina).

Após o término da faculdade, comecei uma pós-graduação em Tradução e me deparei com um primeiro desafio: escolher em uma área de especialização. Minha primeira opção, obviamente, era a literária – tanto por gostar de textos do gênero, quanto pela possibilidade de usar a minha criatividade. Mas nem todo início de carreira é assim tão simples e, nos quase dois primeiros anos de atividade, traduzi desde históricos escolares, manuais de engenharia, plantas de hotéis, logística, negócios, e, mais uma vez, um único e bendito artigo médico. Os primeiros trabalhos, como ocorre com muitos outros tradutores, vieram por indicação de amigos e pelo networking (construído aos poucos, fazendo parte de grupos no facebook e participando de eventos de tradução).

Já na metade da minha pós-graduação, conheci outro campo que também me permitiria explorar bem a minha criatividade (e igualmente aliado a uma paixão antiga): a área de Games. Essa escolha acabou definindo o tema da minha monografia e um norte que eu deveria buscar. A partir do segundo semestre de 2013, eu já estava conseguindo manter uma regularidade de trabalhos na área, mas ainda os conciliava com aulas de Português/Inglês em escolas em Recife. Mas, em dezembro do mesmo ano, tomei duas decisões (uma delas, um tanto suicida, concordo): parar de ensinar e apostar minhas fichas me afiliando ao ProZ, com o intuito de ser tradutor full-time. E isso fez toda a diferença para mim. Os primeiros meses foram basicamente devotados a conseguir montar um bom perfil (pedindo feedback de empresas e colegas com os quais já tinha trabalhado) e procurar por clientes. Nesse período, não consegui nenhum cliente e cheguei a considerar seriamente a possibilidade de voltar a ensinar. Mas, depois de 5 meses de filiação (e ainda esperando o primeiro cliente no site, embora um ou outro tenha aparecido por outros meios), consegui talvez o mais improvável naquele momento: um trabalho como tradutor in-house em uma empresa de Games na Alemanha. Hoje, estou morando em Berlim, trabalhando com a área que escolhi, começando a aprender uma nova língua e me sentindo bastante feliz por ter tido a coragem de me arriscar cinco meses atrás. Contudo, tenho plena consciência de que isso é apenas o começo.

Thomas Melo é tradutor no par inglês<>português, e reside em Recife.
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Minha história: Valter Mendes Jr.

Sempre digo que entrei no mundo da tradução por amor. Não por amor à tradução, exatamente. Afinal, quando criança, nunca sonhei em ser tradutor e, crescido, formei-me em História. No entanto, sempre gostei de idiomas e, autodidata que sou, aprendi a falar inglês sozinho, graças aos jogos de videogame que sempre me acompanharam. Só que minha motivação era puramente intelectual, não prática.

Eis que entra o amor: namorava uma menina que recebeu uma proposta irrecusável para trabalhar em São Paulo. Eu, por amor, aceitei embarcar junto nessa aventura na metrópole. Chegando lá, precisava arrumar um emprego. Comecei a comprar jornais para procurar, entre os diversos anúncios dos classificados, algum em que me encaixasse minimamente. Vi um anúncio para revisor de textos, mandei um currículo e recebi uma resposta pedindo que fosse até lá fazer uma entrevista.

Imaginava que seria uma agência de publicidade querendo um revisor de português e que eu passaria por uma daquelas dinâmicas de grupo típicas de entrevistas de emprego – até tinha na ponta da língua a resposta “abelha” ou “formiga” para a pergunta sobre qual animal gostaria de ser, já que elas trabalham em equipe. Cheguei lá e nada era o que eu pensava: tratava-se de uma agência de tradução querendo um revisor de traduções e não havia dinâmica alguma, mas vários testes que envolviam traduções, versões e perguntas de múltipla escolha sobre gramática.

Passei no teste e comecei a trabalhar dentro da agência, revisando textos. Foi o melhor início que poderia ter com tradução, pois aprendi tudo que precisava para começar a traduzir, com muito contato com terminologias especializadas e com a ajuda dos meus colegas. Logo comecei a traduzir e cheguei a ser gerente de projetos. Estava tudo ótimo profissionalmente, mas eu e minha namorada terminamos nosso namoro. Voltei a Porto Alegre e passei a trabalhar em casa para a agência, com carteira assinada e tudo. Esse período foi ótimo para que eu criasse uma rotina de trabalho – afinal, precisava acompanhar o horário da agência.

Veio a crise econômica e fui demitido para cortar gastos; queriam continuar trabalhando comigo, então abri uma empresa. Com ela, veio a liberdade de procurar outros clientes, maiores, melhores e mais distantes, e novas experiências dentro do mundo da tradução. E eu lá, aceitando os desafios e cada vez mais apaixonado pela profissão em que havia entrado, meio sem querer, mas de onde não queria sair de jeito nenhum. Sete anos depois, tenho a vida que quero graças à tradução e também sou professor – uma forma bacana de repassar a outras pessoas o que aprendi nesses anos todos.

Tem uma música da Legião Urbana que diz: “Só nos sobrou do amor a falta que ficou”. Para mim, o que sobrou de um amor (aquele, que me fez ir a São Paulo) foi outro amor, pela tradução, e que me faz ir aonde quero.

Valter Mendes Jr. é tradutor de inglês, português e espanhol, residente em Porto Alegre, RS.
E-mail: valtermjunior@yahoo.com.br | Skype: valter-alltasks | Linkedin

Minha história: Thiago Araujo

A epopeia do terceiro filho

Sou o terceiro filho de cinco irmãos. Se por um lado o primogênito costuma ser o responsável e a caçula é a mais favorecida, o filho do meio tem a fama de ser o que dá mais errado, que trilha os caminhos mais esquisitos. Tudo para se sobressair de alguma forma. Comigo, as coisas não foram diferentes.

Com vocação para a troca de experiências por bate-papos, mas quase nenhuma para usar gravata e camisa social, trabalhava como tradutor interno em uma multinacional de auditoria. O sonho de consumo de muitos. Para mim, mais realidade. Uma realidade que pagava as contas, não posso negar. Mas que a gravata não era para mim, ah, não era mesmo!

Paralelamente, meu melhor amigo já trabalhava como tradutor freelancer e me contava das vantagens de viver por conta. Eu, como cria de uma grande agência de tradução, morria de medo de não ter meu dinheirinho no final do mês, mas comecei a me informar mais sobre como também poderia entrar nessa “vida boa”.

Como o destino tem dessas coisas, houve um grande corte de orçamento na equipe da tal multi. E eu, que só estava lá havia dois anos e meio, fui embora. O que inicialmente parecia um sonho, começou a me assustar.

Poderia ter pirado naquele momento, mas, felizmente, as tais pesquisas começaram a ser aplicadas, as leituras diversas de livros e blogs surtiram efeito e todos os bate-papos que eu tanto apreciava começaram a render frutos.

De julho de 2011 para cá, aprendi muito mais sobre profissionalização como tradutor do que nos outros cinco anos e meio que trabalhei como interno. Em vez de viver num mundinho fechado e pretensamente seguro, um mundão aberto e cheio de possibilidades se relevou diante dos meus olhos!

O melhor de tudo foi que esta nova etapa me permitiu ser eu mesmo (e sem gravata), trabalhar com o que eu queria e, finalmente, superar meus ganhos como interno. Além disso, conheci muita gente boa e do bem, fiz parcerias e amizades, participei de congressos e, finalmente, cresci ao ponto de me associar a outros amigos tradutores com uma visão parecida com a minha e formar minha própria sociedade — com o melhor amigo também!

O terceiro filho, de fato, não é o filho que nasceu para seguir os passos dos outros, mas desbravar caminhos nem sempre óbvios — porém, felizmente, pavimentados pela ajuda de amigos, parceiros e muita, mas muita troca de experiências. Não é “a vida boa” que imaginava, mas certamente vale muito a pena.

Thiago é tradutor, revisor e tester. Traduz conteúdo criativo e localiza jogos, mas também trabalha com a área de negócios, marketing e turismo. Em novembro de 2013, formou a LingoHaus.
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