Minha história: Thomas Melo

Minha primeira experiência como tradutor começou cedo. Ainda com 17 anos. Por ser o ‘primo que sabia Inglês’, minha prima – que é médica – pediu-me para traduzir um artigo de uma revista especializada. E como é de se imaginar, não foi algo fácil ou prazeroso. Mas, de certa forma, serviu para me abrir os olhos para um mercado totalmente novo. A partir desse momento, comecei a tentar traduzir músicas e poemas de autores dos quais gostava na época. Isso me motivou a prestar vestibular para Letras e pensar na carreira de tradutor para o meu futuro (mas, definitivamente, não para traduzir artigos de Medicina).

Após o término da faculdade, comecei uma pós-graduação em Tradução e me deparei com um primeiro desafio: escolher em uma área de especialização. Minha primeira opção, obviamente, era a literária – tanto por gostar de textos do gênero, quanto pela possibilidade de usar a minha criatividade. Mas nem todo início de carreira é assim tão simples e, nos quase dois primeiros anos de atividade, traduzi desde históricos escolares, manuais de engenharia, plantas de hotéis, logística, negócios, e, mais uma vez, um único e bendito artigo médico. Os primeiros trabalhos, como ocorre com muitos outros tradutores, vieram por indicação de amigos e pelo networking (construído aos poucos, fazendo parte de grupos no facebook e participando de eventos de tradução).

Já na metade da minha pós-graduação, conheci outro campo que também me permitiria explorar bem a minha criatividade (e igualmente aliado a uma paixão antiga): a área de Games. Essa escolha acabou definindo o tema da minha monografia e um norte que eu deveria buscar. A partir do segundo semestre de 2013, eu já estava conseguindo manter uma regularidade de trabalhos na área, mas ainda os conciliava com aulas de Português/Inglês em escolas em Recife. Mas, em dezembro do mesmo ano, tomei duas decisões (uma delas, um tanto suicida, concordo): parar de ensinar e apostar minhas fichas me afiliando ao ProZ, com o intuito de ser tradutor full-time. E isso fez toda a diferença para mim. Os primeiros meses foram basicamente devotados a conseguir montar um bom perfil (pedindo feedback de empresas e colegas com os quais já tinha trabalhado) e procurar por clientes. Nesse período, não consegui nenhum cliente e cheguei a considerar seriamente a possibilidade de voltar a ensinar. Mas, depois de 5 meses de filiação (e ainda esperando o primeiro cliente no site, embora um ou outro tenha aparecido por outros meios), consegui talvez o mais improvável naquele momento: um trabalho como tradutor in-house em uma empresa de Games na Alemanha. Hoje, estou morando em Berlim, trabalhando com a área que escolhi, começando a aprender uma nova língua e me sentindo bastante feliz por ter tido a coragem de me arriscar cinco meses atrás. Contudo, tenho plena consciência de que isso é apenas o começo.

Thomas Melo é tradutor no par inglês<>português, e reside em Recife.
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Minha história: Marta Boer

“Tenho uma coisa pra te falar. Vamos conversar depois da aula?”
Lembro como se fosse hoje quando a professora de inglês me falou que uma outra aluna estava procurando uma estagiária de tradução. Fiquei encantada com a possibilidade! Isso foi em 1994. Fazia um ano e meio que eu trabalhava como auxiliar de escritório em contabilidade e já sentia que aquela não era a minha praia…

Eu amava (ainda amo) a Língua Inglesa. Aos 10 anos, meu passatempo predileto era pegar o livrinho de letras dos Beatles do meu pai, o dicionário Michaelis(!) bilíngue, lápis e papel para saber que raios os Fab Four estavam falando. Aos 11, comecei a estudar na escola dos sonhos: a Cultura Inglesa. Nunca faltei, sempre tirei 10. Cada vez gostava mais, mas ainda não estava claro para mim o que fazer com aquele conhecimento. Sabia que o inglês seria importante para o futuro de qualquer carreira, mas não tinha jeito para professora e, basicamente, ainda não sabia o que queria ser quando eu crescesse.

Nessa época, eu já conhecia uma tradutora. O mistério da profissão me fascinava. Certa vez, num evento de família, minha mãe me chamou para a conversa dizendo que essa pessoa fazia o próprio horário e, às vezes, ia ao cinema numa tarde de quarta-feira. Aquilo nunca me saiu da cabeça. Anos mais tarde, descobri que não era bem assim… mas fazer o próprio horário me serviu, e ainda serve, muito bem.

Voltando ao assunto: aos 18 anos, comecei a trabalhar na “…texto & cia”. Conheci pessoas maravilhosas, profissionais admiráveis e tive oportunidades únicas. Fiz amigas para a vida inteira – a maioria esmagadora das profissionais eram mulheres. Essa empresa foi uma ótima escola e foi onde descobri outra paixão: o computador. Enquanto muitas pessoas tinham medo do teclado e não sabiam que botão apertar, eu saía fuçando em tudo para ver como funcionava.

Em 1996, entrei em Letras Tradução Português-Inglês na PUC-SP. Adorava as professoras, muito dedicadas, e achava as aulas extremamente interessantes. Passava aulas e aulas botando a mão na massa, traduzindo artigos de Newsweek, Times, textos jurídicos… e gostava cada vez mais.

Aos 21, fui contratada como PM pela Astratec, agência de tradução e localização, queria sempre aprender mais. Nessa época, era trabalho e faculdade. Muitos desafios. Foi muito bom porque, mesmo trabalhando como PM, continuava traduzindo na faculdade.

No trabalho, já usava e fuçava em algumas com as CATs, mas na faculdade isso só aparecia na teoria. Em 1998, em um simpósio, fui convidada a dar uma palestra sobre o Trados, era a primeira vez que a maioria dos participantes (alunos ou professores tradução) ouvia falar sobre isso.

Três anos mais tarde, recebi uma oferta de emprego fora do Brasil. Para trabalhar na minha área! Nem pestanejei. Vim para Dublin fazer parte da equipe de tradução da Lexmark. A equipe contava com uma francesa, uma italiana, uma alemã, uma espanhola e uma brasileira – eu! Tive contato com muitas culturas, já que o departamento era ao lado da central de suporte. Havia gente de mais de 100 países. Quando havia confraternização, era muito divertido, muitas comidas típicas e também muitos desencontros linguísticos…

Dublin não foi um destino aleatório. Aqui era o hub mundial da localização. Os incentivos fiscais para empresas de tecnologia atraíram as gigantes da área. Com a tecnologia, veio a localização. A Microsoft chegou a ter uma equipe interna de localização composta por 200 pessoas de todos os cantos do mundo.

Este ano faz 20 anos que escolhi minha carreira. Já fiz de tudo ligado à localização, trabalhei em empresas grandes e pequenas, em agências e clientes finais, como freelancer e empregada, nas funções de tradutora, revisora, coordenadora de projetos, PM, tester de software e games, gerente de fornecedores, engenheira de localização… Deu para perceber o quanto sou curiosa?

Durante todo esse tempo, sempre me incomodou o fato de que as empresas e, em especial, as agências tentam esmagar o tradutor, seja diminuindo as taxas, aumentando a produtividade esperada, ou querendo se eximir de “erros” na tradução quando não há contexto, dúvidas ficam sem responder, ou as instruções estão erradas.

Atualmente, trabalho na Chillistore Technologies, em parceria com a Anna Woodward, minha amiga de longa data, e que conheci quando trabalhava na Astratec, nos idos de 1997 ou 1998. Temos como missão oferecer o melhor serviço possível sempre com um sorriso no rosto. Prestamos serviços ligados à localização, incluindo LQA, revisão de telas de software (in-context review), curadoria de páginas da Web, terminologia, revisão e preparação de glossários, preparação de MT, pós-edição de MT, SEO multilíngue, entre outros.

Coordenamos projetos com até 45 idiomas. Organizamos treinamentos sobre as ferramentas dos clientes para nossos colaboradores. Selecionamos os melhores revisores, que conhecemos ao longo da carreira em localização. Pagamos em dia. Como PMs, procuramos obter o maior número possível de informações e instruções, damos o apoio necessário para que os revisores possam realizar as tarefas da melhor maneira possível. Queremos mudar o mundo…

Até que, para quem não sabia o que queria ser quando crescesse, cheguei longe, e tudo começou quando tive a chance de “entrar na tradução”.

Agradeço à Sheila pelo convite, foi muito bom poder relembrar e refletir sobre a minha trajetória profissional. Sucesso ao Multitude!

Marta Boer é formada em tradução inglês-português pela PUC-SP e residente em Dublin, Irlanda. Especializada em controle de qualidade de localização de software e outros serviços ligados à localização.
E-mail: marta.boer@chillistore.ie | Skype: madjuicer

Minha história: Rafael Pescarolo de Carvalho

Minha aventura no extraordinário mundo tradutório começou cedo, aos 16 anos, quando ainda fazia curso de inglês e, para treinar, buscava as letras das músicas dos meus artistas favoritos (na época U2, Alanis Morissette, INXS e The Cranberries) para traduzir, tanto para mim como para os amigos, e me divertia descobrindo e explorando.

Sempre gostei de idiomas, e quando terminei o segundo grau técnico em Desenho Industrial decidi prestar vestibular para Licenciatura Plena em Inglês na UFPR, em 1999. Durante meu curso universitário, que terminei em 2006 e com passagem também pelo Bacharelado em Tradução, realizei traduções literárias dentro da área do bacharelado em tradução e participei do projeto experimental de tradução do livro Translating As a Purposeful Activity: Functionalist Approaches Explained, de Christiane Nord, além de vários textos de diversos estilos literários.

Iniciei-me profissionalmente em 2008 e comecei traduzindo documentos simples para fins educacionais, currículos, resumos de teses e textos acadêmicos. Sendo professor de inglês em tempo integral desde 1999, a tradução foi nesse tempo uma atividade pouco frequente, mas contínua.

As coisas mudaram completamente em 2012, quando decidi me mudar para a Itália e fazer da tradução minha profissão e fonte de renda exclusivas. Foi nessa época também que mergulhei de cabeça no universo das CAT Tools e fui descobrindo os pormenores da profissão, aprendendo a me organizar como autônomo e buscando novos contatos e parcerias. Também comecei a buscar mais oportunidades de desenvolvimento profissional e ficar mais ciente sobre o mercado global da tradução.

Hoje vivo em Viena, na Áustria, sou membro da Câmara do Comércio de Viena, tenho meu registro de profissional autônomo, planejo me especializar ainda mais nas áreas em que traduzo (jogos e aplicativos, recursos humanos e turismo) e percebo cada vez mais como o universo tradutório é, além de ilimitado, de uma fascinação infindável.

Rafael Pescarolo de Carvalho é tradutor de inglês e português e reside em Viena, Áustria.
Proz | Skype: rafa.pes.car

Minha história: Sheila Gomes

Quando ainda vivia em Joinville/SC (onde nasci e morei até os 41 anos), era tradutora em uma empresa de TI. Mas não estava satisfeita nem com o desafio nem com o salário, que complementava ensinando e traduzindo por conta própria. Venho de uma família de empreendedores, e já tive mais de um negócio próprio, então resolvi investir na carreira de tradutora e fui atrás de informações.
Decidi ser mais ativa em fóruns, comecei o meu próprio blog, sempre que tinha oportunidade oferecia ajuda aos colegas e participava de eventos on-line e presenciais.

E foi graças à disposição das pessoas que compartilhavam seu conhecimento na Internet e também nos encontros que aprendi o que precisava para me “assumir”, sair da empresa e virar tradutora independente em tempo integral. Fui construindo minha carreira, e o primeiro grande sonho realizado por conta disso foi a mudança para Curitiba, há um ano e dois meses.

Fiz alguns bons amigos no meio, e fui convidada para ser uma das moderadoras do grupo Tradutores / Intérpretes no Facebook. O grupo tem um fluxo de entrada constante de novos membros, muitos deles iniciantes, com dúvidas sobre a carreira. E também de profissionais já estabelecidos, com muita boa vontade em ajudar. A conversa é rica, mas o modelo de interação do Facebook não é muito favorável e havia muita repetição das mesmas dúvidas.

Tive então uma ideia para concentrar as respostas à dúvidas, falei com alguns colegas no grupo, que toparam a empreitada e juntos formamos o TIME – Tradutores e Intérpretes Multiplicando Experiências, com o qual até hoje eu organizo apresentações gratuitas, feitas por membros do grupo, sobre temas ligados à profissionalização do tradutor.

O TIME mostra que há vários caminhos profissionais possíveis e coloca iniciantes e profissionais já estabelecidos em contato direto, o que traz benefícios a todos os envolvidos, fazendo com os iniciantes se sentissem mais seguros e reforçando o caráter colaborativo do grupo. Como organizadora, assisti a todas as apresentações e tive contato com um capital de conhecimento de valor incomparável e que motivou uma iniciativa de diversificação que acalentava já há algum tempo: o Multitude.

Não poderia estar mais satisfeita com a direção que a minha carreira tomou, tudo graças ao envolvimento com as pessoas nos grupos e eventos da área.

Sheila Gomes, é tradutora de inglês e português e mora em Curitiba, PR. Especializada em localização de software, sites e jogos.
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