Minha história: Marta Boer

“Tenho uma coisa pra te falar. Vamos conversar depois da aula?”
Lembro como se fosse hoje quando a professora de inglês me falou que uma outra aluna estava procurando uma estagiária de tradução. Fiquei encantada com a possibilidade! Isso foi em 1994. Fazia um ano e meio que eu trabalhava como auxiliar de escritório em contabilidade e já sentia que aquela não era a minha praia…

Eu amava (ainda amo) a Língua Inglesa. Aos 10 anos, meu passatempo predileto era pegar o livrinho de letras dos Beatles do meu pai, o dicionário Michaelis(!) bilíngue, lápis e papel para saber que raios os Fab Four estavam falando. Aos 11, comecei a estudar na escola dos sonhos: a Cultura Inglesa. Nunca faltei, sempre tirei 10. Cada vez gostava mais, mas ainda não estava claro para mim o que fazer com aquele conhecimento. Sabia que o inglês seria importante para o futuro de qualquer carreira, mas não tinha jeito para professora e, basicamente, ainda não sabia o que queria ser quando eu crescesse.

Nessa época, eu já conhecia uma tradutora. O mistério da profissão me fascinava. Certa vez, num evento de família, minha mãe me chamou para a conversa dizendo que essa pessoa fazia o próprio horário e, às vezes, ia ao cinema numa tarde de quarta-feira. Aquilo nunca me saiu da cabeça. Anos mais tarde, descobri que não era bem assim… mas fazer o próprio horário me serviu, e ainda serve, muito bem.

Voltando ao assunto: aos 18 anos, comecei a trabalhar na “…texto & cia”. Conheci pessoas maravilhosas, profissionais admiráveis e tive oportunidades únicas. Fiz amigas para a vida inteira – a maioria esmagadora das profissionais eram mulheres. Essa empresa foi uma ótima escola e foi onde descobri outra paixão: o computador. Enquanto muitas pessoas tinham medo do teclado e não sabiam que botão apertar, eu saía fuçando em tudo para ver como funcionava.

Em 1996, entrei em Letras Tradução Português-Inglês na PUC-SP. Adorava as professoras, muito dedicadas, e achava as aulas extremamente interessantes. Passava aulas e aulas botando a mão na massa, traduzindo artigos de Newsweek, Times, textos jurídicos… e gostava cada vez mais.

Aos 21, fui contratada como PM pela Astratec, agência de tradução e localização, queria sempre aprender mais. Nessa época, era trabalho e faculdade. Muitos desafios. Foi muito bom porque, mesmo trabalhando como PM, continuava traduzindo na faculdade.

No trabalho, já usava e fuçava em algumas com as CATs, mas na faculdade isso só aparecia na teoria. Em 1998, em um simpósio, fui convidada a dar uma palestra sobre o Trados, era a primeira vez que a maioria dos participantes (alunos ou professores tradução) ouvia falar sobre isso.

Três anos mais tarde, recebi uma oferta de emprego fora do Brasil. Para trabalhar na minha área! Nem pestanejei. Vim para Dublin fazer parte da equipe de tradução da Lexmark. A equipe contava com uma francesa, uma italiana, uma alemã, uma espanhola e uma brasileira – eu! Tive contato com muitas culturas, já que o departamento era ao lado da central de suporte. Havia gente de mais de 100 países. Quando havia confraternização, era muito divertido, muitas comidas típicas e também muitos desencontros linguísticos…

Dublin não foi um destino aleatório. Aqui era o hub mundial da localização. Os incentivos fiscais para empresas de tecnologia atraíram as gigantes da área. Com a tecnologia, veio a localização. A Microsoft chegou a ter uma equipe interna de localização composta por 200 pessoas de todos os cantos do mundo.

Este ano faz 20 anos que escolhi minha carreira. Já fiz de tudo ligado à localização, trabalhei em empresas grandes e pequenas, em agências e clientes finais, como freelancer e empregada, nas funções de tradutora, revisora, coordenadora de projetos, PM, tester de software e games, gerente de fornecedores, engenheira de localização… Deu para perceber o quanto sou curiosa?

Durante todo esse tempo, sempre me incomodou o fato de que as empresas e, em especial, as agências tentam esmagar o tradutor, seja diminuindo as taxas, aumentando a produtividade esperada, ou querendo se eximir de “erros” na tradução quando não há contexto, dúvidas ficam sem responder, ou as instruções estão erradas.

Atualmente, trabalho na Chillistore Technologies, em parceria com a Anna Woodward, minha amiga de longa data, e que conheci quando trabalhava na Astratec, nos idos de 1997 ou 1998. Temos como missão oferecer o melhor serviço possível sempre com um sorriso no rosto. Prestamos serviços ligados à localização, incluindo LQA, revisão de telas de software (in-context review), curadoria de páginas da Web, terminologia, revisão e preparação de glossários, preparação de MT, pós-edição de MT, SEO multilíngue, entre outros.

Coordenamos projetos com até 45 idiomas. Organizamos treinamentos sobre as ferramentas dos clientes para nossos colaboradores. Selecionamos os melhores revisores, que conhecemos ao longo da carreira em localização. Pagamos em dia. Como PMs, procuramos obter o maior número possível de informações e instruções, damos o apoio necessário para que os revisores possam realizar as tarefas da melhor maneira possível. Queremos mudar o mundo…

Até que, para quem não sabia o que queria ser quando crescesse, cheguei longe, e tudo começou quando tive a chance de “entrar na tradução”.

Agradeço à Sheila pelo convite, foi muito bom poder relembrar e refletir sobre a minha trajetória profissional. Sucesso ao Multitude!

Marta Boer é formada em tradução inglês-português pela PUC-SP e residente em Dublin, Irlanda. Especializada em controle de qualidade de localização de software e outros serviços ligados à localização.
E-mail: marta.boer@chillistore.ie | Skype: madjuicer

Minha história: Mitsue Siqueira

A primeira chance

“— Fale sobre sua experiência com o inglês.

— Concluí o curso aos 13 anos de idade e, desde então, não pratico muito o inglês…

— Ok. Você frequenta alguma igreja, tem o hábito de ler a Bíblia?

— Não (sorriso amarelo). Estudei em escola católica, mas não frequento igrejas e confesso que não leio muito a Bíblia.

— Bom, somos uma editora cristã que trabalha com traduções do inglês, e então…

— Sim, entendo, mas devo ser sincera: meu inglês enferrujou mesmo durante esses anos, e realmente não tenho muito conhecimento da literatura cristã, mas estou disposta a aprender. Sei que para vocês é complicado contratar uma pessoa como eu, mas eu gostaria de ter essa experiência e preciso que alguém me dê a primeira chance.

— Certo, entraremos em contato quando tivermos o resultado e…”

Pronto, a entrevista estava arruinada. Além de mal saber falar inglês, eu havia me candidatado a uma vaga de tradutora em uma editora (cristã!) sem nem ao menos ler a Bíblia ou ter o hábito de assistir a missas/cultos, etc. De onde saiu aquela ideia de “dar a primeira chance”? Não, eles precisavam de pessoas com algum conhecimento, e eu tive certeza de que não seria aprovada para a vaga. Fiquei muito chateada.

Felizmente, todo meu pessimismo se esvaiu quando recebi a notícia da aprovação nos testes. Nem preciso dizer o quanto foi maravilhoso dar os primeiros passos em tradução e revisão trabalhando com livros, depois de tantos meses apenas dando aulas de inglês e português.

Assim como eu, a editora era um departamento novo na empresa. Ou seja, ela e eu crescemos juntas. Equipe nova, pessoas novas e nenhum processo oficial de tradução e revisão. Aos poucos, criamos um esboço do guia de estilo e timidamente estipulamos algumas formas de feedback aos integrantes da equipe.

Depois de um ano e meio, volto à estaca zero tentando uma vaga na Ccaps, e a história se repete: “Você conhece alguma CAT Tool? Já trabalhou com localização? Sabe o que é um projeto?” “Não. Mas estou muito disposta a aprender”. E mais uma vez, expus a necessidade de todo profissional iniciante: a tão sonhada primeira chance. Mesmo assim, o desânimo me acertou em cheio. A entrevista foi de manhã. Desmotivada, acesso meu e-mail à tarde e recebo a notícia da aprovação. Uau! Agora sou a nova Language Specialist da Ccaps, mas ainda há muito o que fazer.

Depois de um treinamento intensivo e de vários feedbacks bons e nem tão bons assim do meu próprio trabalho, posso dizer que, graças a profissionais competentíssimos (que hoje posso chamar de amigos), estou muito mais preparada. Agora eu sei que CAT Tools nada têm a ver com gatos, e que PM não é só Polícia Militar. Ok, também aprendi outras coisinhas além disso.

Certamente não devo o que sou hoje apenas à Ccaps, mas também a todos que me apoiaram pelas mídias sociais e nos eventos dos quais participei (e até palestrei, quem diria?). Dei passos muito significativos esses últimos anos, mas sei que o caminho ainda é longo, e posso dizer com segurança que tenho muita gente boa andando ao meu lado. Por fim, fica o meu desejo de boa sorte a todos nós, jovens ou não, tradutores ou não, mas sempre eternos iniciantes em busca da primeira chance.

Mitsue Siqueira é tradutora e revisora da Ccaps Translation & Localization, no par inglês<>português, e reside no Rio de Janeiro.
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Minha história: Rafael Pescarolo de Carvalho

Minha aventura no extraordinário mundo tradutório começou cedo, aos 16 anos, quando ainda fazia curso de inglês e, para treinar, buscava as letras das músicas dos meus artistas favoritos (na época U2, Alanis Morissette, INXS e The Cranberries) para traduzir, tanto para mim como para os amigos, e me divertia descobrindo e explorando.

Sempre gostei de idiomas, e quando terminei o segundo grau técnico em Desenho Industrial decidi prestar vestibular para Licenciatura Plena em Inglês na UFPR, em 1999. Durante meu curso universitário, que terminei em 2006 e com passagem também pelo Bacharelado em Tradução, realizei traduções literárias dentro da área do bacharelado em tradução e participei do projeto experimental de tradução do livro Translating As a Purposeful Activity: Functionalist Approaches Explained, de Christiane Nord, além de vários textos de diversos estilos literários.

Iniciei-me profissionalmente em 2008 e comecei traduzindo documentos simples para fins educacionais, currículos, resumos de teses e textos acadêmicos. Sendo professor de inglês em tempo integral desde 1999, a tradução foi nesse tempo uma atividade pouco frequente, mas contínua.

As coisas mudaram completamente em 2012, quando decidi me mudar para a Itália e fazer da tradução minha profissão e fonte de renda exclusivas. Foi nessa época também que mergulhei de cabeça no universo das CAT Tools e fui descobrindo os pormenores da profissão, aprendendo a me organizar como autônomo e buscando novos contatos e parcerias. Também comecei a buscar mais oportunidades de desenvolvimento profissional e ficar mais ciente sobre o mercado global da tradução.

Hoje vivo em Viena, na Áustria, sou membro da Câmara do Comércio de Viena, tenho meu registro de profissional autônomo, planejo me especializar ainda mais nas áreas em que traduzo (jogos e aplicativos, recursos humanos e turismo) e percebo cada vez mais como o universo tradutório é, além de ilimitado, de uma fascinação infindável.

Rafael Pescarolo de Carvalho é tradutor de inglês e português e reside em Viena, Áustria.
Proz | Skype: rafa.pes.car

Minha história: Sheila Gomes

Quando ainda vivia em Joinville/SC (onde nasci e morei até os 41 anos), era tradutora em uma empresa de TI. Mas não estava satisfeita nem com o desafio nem com o salário, que complementava ensinando e traduzindo por conta própria. Venho de uma família de empreendedores, e já tive mais de um negócio próprio, então resolvi investir na carreira de tradutora e fui atrás de informações.
Decidi ser mais ativa em fóruns, comecei o meu próprio blog, sempre que tinha oportunidade oferecia ajuda aos colegas e participava de eventos on-line e presenciais.

E foi graças à disposição das pessoas que compartilhavam seu conhecimento na Internet e também nos encontros que aprendi o que precisava para me “assumir”, sair da empresa e virar tradutora independente em tempo integral. Fui construindo minha carreira, e o primeiro grande sonho realizado por conta disso foi a mudança para Curitiba, há um ano e dois meses.

Fiz alguns bons amigos no meio, e fui convidada para ser uma das moderadoras do grupo Tradutores / Intérpretes no Facebook. O grupo tem um fluxo de entrada constante de novos membros, muitos deles iniciantes, com dúvidas sobre a carreira. E também de profissionais já estabelecidos, com muita boa vontade em ajudar. A conversa é rica, mas o modelo de interação do Facebook não é muito favorável e havia muita repetição das mesmas dúvidas.

Tive então uma ideia para concentrar as respostas à dúvidas, falei com alguns colegas no grupo, que toparam a empreitada e juntos formamos o TIME – Tradutores e Intérpretes Multiplicando Experiências, com o qual até hoje eu organizo apresentações gratuitas, feitas por membros do grupo, sobre temas ligados à profissionalização do tradutor.

O TIME mostra que há vários caminhos profissionais possíveis e coloca iniciantes e profissionais já estabelecidos em contato direto, o que traz benefícios a todos os envolvidos, fazendo com os iniciantes se sentissem mais seguros e reforçando o caráter colaborativo do grupo. Como organizadora, assisti a todas as apresentações e tive contato com um capital de conhecimento de valor incomparável e que motivou uma iniciativa de diversificação que acalentava já há algum tempo: o Multitude.

Não poderia estar mais satisfeita com a direção que a minha carreira tomou, tudo graças ao envolvimento com as pessoas nos grupos e eventos da área.

Sheila Gomes, é tradutora de inglês e português e mora em Curitiba, PR. Especializada em localização de software, sites e jogos.
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Minha história: Lorena Leandro

Ano 2000: o vestibular estava às portas e eu, decididamente, queria ser psicóloga. Talvez enveredasse pela área da terapia ocupacional, ou então me dedicasse à psicologia organizacional. Era uma boa hora para me informar sobre essas e outras vertentes da profissão!

Com um manual do estudante em mãos, li não apenas sobre psicologia, mas sobre várias outras ocupações. Foi só quando fechei o manual que meu cérebro processou uma informação que, até então, parecia irrelevante: tradução é uma profissão?!!

Abri o livro novamente e li sobre o que fazia um tradutor. Reli. Reli novamente, com perdão da redundância. E foi assim que a decididamente psicóloga virou, decididamente, tradutora. Naquele momento percebi que havia sido tradutora a vida inteira: desde meus estudos autodidatas em inglês, passando pela mania de andar com um dicionário bilíngue pela casa, até meu gosto pelos textos e pela gramática. Entre muitas outras coisas.

Prestei o vestibular, cursei Letras com habilitação em Tradução, fiz estágios, me formei. Não deixei um dia sequer de gostar daquilo tudo. Mas, ao sair da faculdade, deu medo. Foram quatro anos aprendendo sobre tradução, nenhum aprendendo sobre como funcionava o mercado. Achando que não tinha o perfil para ser tradutora autônoma, lá fui eu estudar jornalismo.

No curso, conheci meu futuro marido, mas meu coração ainda batia forte pela paixão antiga, a tradução. Durante dois anos, continuei lendo e pesquisando sobre a profissão em blogs, fóruns, listas e redes sociais. Sim, foram dois anos para perder o medo, desistir do jornalismo e abraçar de vez a tradução.

A essa altura, eu estava num emprego que não tinha nada a ver comigo e pagava muito mal. Comecei a procurar por oportunidades. Logo encontrei uma empresa na minha cidade que precisava de uma tradutora para um funcionário britânico. Consegui a vaga, minha porta de entrada para o mundo da tradução. De lá, uma chance de ser tradutora interna numa empresa em São Paulo, onde aprendi muito e de tudo. E, dali, meu pulo para a vida de freelancer.

Nesse meio tempo, entrei e saí do mundo das aulas de inglês, fiz muito networking, participei de congressos, criei meu blog, fiz projetos em parceria com outros tradutores, conquistei clientes, encontrei um nicho de especialização. Uma carreira sendo construída com muita paciência, dedicação e esforço. Ainda estou longe de me considerar veterana, mas quanta coisa mudou desde que eu era uma iniciante cheia de dúvidas e medos! A paixão, enfim, virou amor para a vida toda.

Lorena Leandro é tradutora e revisora no par EN-PT. Trabalha especialmente com as áreas de TI, marketing e business. Desde 2010 escreve o blog Ao Principiante, dedicado a tirar o medo de tradutores iniciantes. =) Onde me encontrar:
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Minha história: Jorge Rodrigues

Meu primeiro contato com o estudo de idiomas foi aos onze anos, na quinta série do ensino fundamental, em Porto Alegre. Era aquele inglês meia-boca de escola pública, bem mais ou menos, e que eu nem imaginava na época que seria o início da minha história de amor com a profissão que acabei por escolher: a de tradutor e intérprete. Após esse primeiro contato, nada de muito significativo aconteceu até 1978, quando, aos 14 anos, comecei o curso de inglês do Instituto Cultural Brasileiro Norte-Americano, ainda em Porto Alegre. Fiz o curso completo, até o nível avançado, com ênfase em gramática, literatura inglesa e tradução.

Foi nesta última disciplina do curso que tive as primeiras aulas de técnicas de tradução, com um professor que havia estudado em uma das primeiras turmas do curso de formação de tradutores e intérpretes da Associação Alumni, que dispensa apresentações. Em seguida, prestei exames e obtive os meus certificados de proficiência em inglês: CPE (Michigan) e CPE (Cambridge).

Simultaneamente ao aprendizado de inglês, estudei francês na Aliança Francesa de Porto Alegre, italiano na Sociedade Italiana do Rio Grande do Sul e alemão no Instituto Goethe. Conclui os cursos de francês e italiano, mas não o de alemão: foram apenas dois semestres, o suficiente para adquirir apenas noções muito básicas da língua.

No início da minha vida profissional fiz algumas traduções ocasionais e fui professor em uma escola especializada em inglês para negócios e cursos de imersão. Dois anos depois, com três sócias, abri a minha escola de idiomas. Essa primeira aventura pedagógico-empresarial durou dois anos e meio, com altos e baixos e relativo sucesso.

Em 1992 minhas sócias e eu fechamos a escola e partimos para outros desafios profissionais. O meu foi tentar a sorte na Europa, em Lisboa, onde morei por quase um ano. Foi lá que, após um curto período como professor de inglês, fiz o que considero como o meu primeiro trabalho verdadeiramente profissional de tradução: participei de uma equipe que traduziu uma versão do Corão do inglês ao português.

A equipe, no caso, era composta por três pessoas. O editor, um português residente em Leiria, um sacerdote muçulmano, e eu. O trabalho era coordenado pelo editor, o sacerdote traduzia os versos sagrados do Corão (que não poderiam ser traduzidos por um “infiel” – eu, no caso) e eu traduzia as notas de rodapé que contextualizavam e explicavam os versos. Um trabalho interessantíssimo e o meu batismo de fogo! Outro ponto interessante foi o sistema de trabalho estabelecido pelo editor, que já era incomum na época e seria inimaginável hoje em dia. Ele enviava pelo correio algumas páginas do Corão em inglês, eu as traduzia a mão (ele fazia questão do texto manuscrito) e enviava as traduções para a editora pelo correio. Poucos dias depois eu recebia mais páginas do livro para traduzir e o pagamento pelas traduções entregues na correspondência anterior – em dinheiro vivo, cédulas mesmo, no envelope com o material novo. Assim passaram-se vários meses, até a conclusão do trabalho.

Naquela época, aproveitei algumas viagens curtas que fiz a Madri e Sevilha para estudar e aprender espanhol como autodidata. Praticamente decorei uma gramática de espanhol que eu havia comprado pouco antes de deixar o Brasil e atazanava até o limite a paciência de alguns dos meus amigos espanhóis sempre que tinha dúvidas. E assim, ao voltar ao Brasil, eu já havia assimilado mais um idioma.

No final de 1992 voltei ao Brasil para tentar a sorte em São Paulo. Trabalhei como professor de inglês em duas escolas de idiomas por alguns meses, até que, em julho de 1993 comecei a trabalhar como autônomo para uma agência de traduções chamada Styllus Traduções Comerciais. Foi lá que dei os primeiros passos como tradutor profissional em tempo integral, sob a orientação do Eduardo Tavares, que época era o tradutor-chefe da Styllus. Um grande tradutor e uma pessoa extraordinária, que foi muito importante no meu início de carreira. O melhor mentor que um iniciante poderia ter tido. Anos mais tarde tive o privilégio de contar com ele como colaborador e meu braço direito: trabalhou comigo por algum tempo, antes de se mudar para uma cidadezinha no interior de Minas Gerais.

Alguns meses mais tarde, fui contratado pelo Escritório de Traduções Aildasani, o embrião da atual Fidelity Translations. Aquele período de um ano e quatro meses como tradutor interno foi muito importante para a minha formação profissional. Aprendi muito com eles e só tenho boas lembranças daquela época.

Após essa experiência, no início de 1995 deixei a Aildasani para trabalhar por conta própria e começar uma pequena empresa de traduções, que administro até hoje. Seguiram-se quase vinte anos de muito trabalho e uma busca constante por aprimoramento profissional, com alguns períodos bons e outros nem tanto, coroados por algumas conquistas das quais me orgulho: os credenciamentos como tradutor e intérprete da Justiça Federal, tradutor do Tribunal de Contas da União e, mais recentemente, como perito do Tribunal de Justiça de Sergipe. E no final de 2013, após aprovação em concurso público em Sergipe, tornei-me tradutor juramentado (TPIC) de inglês e português.

Mas a minha busca pelo conhecimento continua, tanto que no início de 2013 decidi voltar à universidade para preencher algo que sempre considerei como uma lacuna na minha formação: a falta de embasamento nos aspectos teóricos da profissão. Encarei um novo vestibular e hoje estou cursando tradução e interpretação na Universidade Católica de Santos. Virei universitário da segunda idade e meia e estou adorando a experiência. Se tudo correr bem, a graduação será no final de 2015.

Enfim, enquanto tiver saúde e disposição, vou continuar fazendo o que cada vez mais amo fazer: ler, estudar, pesquisar e trabalhar como tradutor e intérprete, sempre lutando para pelo menos tentar sempre melhorar como ser humano e como profissional.

Agradeço à Sheila pelo convite para contar a minha história aos leitores do Multitude, deixo os meus dados de contato e fico à disposição, caso possa ser útil de alguma forma aos colegas.

E-mail: jorgerpr@uol.com.br | Skype: jorgerpr | Facebook | LinkedIn

Minha história: Giovanna Lester

E foi assim que tudo começou.

O cruzeiro foi desvalorizado mais uma vez. A Kontik Franstur demitiu um catatau de funcionários e eu estava entre eles. Era abril de 1980.

Eu tinha acabado de receber meu diploma de professora de inglês como segundo idioma e tinha debaixo do braço as experiências como intérprete e tradutora no escritório. Não era muito, mas atraiu a atenção de minha amiga e depois também mentora, Luíza que me convidou para ajudá-la com uma tradução. Meu primeiro trabalho pago no ramo.

Topei sem nem saber o que era – o bolso vazio gritava mais alto que a razão.

Chego a nosso escritório de mentirinha – sua sala de jantar. Na mesa sentava imposta uma Olivette Lettera elétrica. Será que alguém ainda se lembra da daisy-wheel removível, fita com corretor, memória. Peraí, aqui é a minha que está falhando. Não havia memória.

Pois é. Errou, tem que apagar letrinha por letrinha usando a fita corretora que não dava sugestão de novas palavras, nem fazia observações gramaticais ou de estilo. E depois, redatilografar.

Foi com a Luíza que descobri sight-translation. Ela lia em inglês o texto originalmente escrito em português, enquanto eu datilografava. Depois era a minha vez. Foram 500 páginas (contagem do original) de um grant request de uma universidade paulista de renome à Kellogg Foundation.

Assim que, na verdade, tive dois começos. Só que um foi mais marcante.

De lá para cá, foram 34 anos. Aprendi muito e continuo aprendendo – este é um dos aspectos de nossa profissão que mais me atrai.

Já fiz de tudo um pouco como tradutora e intérprete. Algumas coisas me marcaram mais que outras: ser certificadora para a American Translators Association (ATA) na direção português-inglês, cofundadora e presidente (2011-2012) da nova Seção da ATA na Flórida que nasceu na minha sala de jantar (2009), há pouco trabalhei no World Economic Forum (inglês<>português<>inglês). Há também as menos glamorosas: fazer interpretação me debruçando sobre cadáveres para melhor descrever procedimentos cirúrgicos, cirurgias ao vivo por transmissão remota, casos de imigração por telefone e ao vivo…

É muita história. E ainda há muita para criar.

Giovanna Lester é autora, tradutora e intérprete no par inglês<>português e reside em Pinecrest, Flórida (EUA).
LinkedIn | Twitter: @cariobana

Minha história: Fernando Campos Leza

Eu não vou lhes contar a história de Hans Castorp, mas uma coisa eu tenho em comum com esse personagem: nunca imaginei que minha viagem (na tradução) demoraria tanto tempo. Minha experiência como tradutor teve início em 1998, quando residia em Berlim. Lá conclui minha graduação em Filosofia, iniciada na Espanha e que, graças ao Erasmus (o programa europeu de intercâmbio universitário, não o filósofo), cursei um ano na Escócia e o último em Berlim.

Não sabia bem o que fazer após cursar Filosofia. Por isso, devido ao meu bom conhecimento de idiomas e por ter gostado da minha experiência na tradução, decidi investir nesta carreira. Mudei-me para Paris, fui aprovado nos exames de admissão da Escola Superior de Intérpretes e de Tradutores (ESIT), onde em 2004 conclui estudos de graduação e pós-graduação. Desde então, dedico-me exclusivamente à tradução profissional, atividade que combino com a revisão de textos em espanhol e com a interpretação de conferências.

Dez anos se passaram, e muitas coisas. Agora moro em Brasília e possuo uma pequena empresa de tradução. Gosto da aventura de ser um pequeno empresário e de continuar evoluindo na carreira. Muitos anos depois de ter começado a traduzir, por pura casualidade, estou bem estabelecido profissionalmente. Tenho bons e exigentes clientes — principalmente organismos internacionais, tanto aqui em Brasília quanto em Genebra e Washington — que valorizam a qualidade de nosso trabalho. E tenho a sorte de gostar do que eu faço.

Olhando para trás nesses anos de carreira e pensando nos colegas iniciantes, gostaria de identificar alguns aspectos que me ajudaram na profissão:

A formação em tradução é importante, pois permite aprender a traduzir antes de ser pago para isso. Na universidade, desenvolvemos o “reflexo do tradutor“, uma mosca da desconfiança atrás da orelha e um instinto para encontrar soluções aos problemas de tradução.

Há muitas coisas, porém, que não se aprende na faculdade e para isso é essencial participar de listas e fóruns de tradutores, para aprender sobre programas, recursos, tarifas, ideias para o negócio, etc.

É preciso investir: gasto, sem hesitar, em dicionários, livros sobre a língua espanhola e outras matérias, softwares, congressos, cursos e recursos.

É bom conhecer os seus limites. Desde o início impus-me a condição de traduzir somente para o espanhol, minha língua materna, devido à forte convicção de que nunca me expressarei em outra língua tão bem quanto na minha língua materna. Acredito que isso contribui para a qualidade dos meus textos.

Aprendi também (e demorei a aprender) que nós, tradutores independentes, somos empresários, e que para ter algum sucesso é preciso atuar como empresário. Aprendi isso no Empretec, um seminário organizado pelo Sebrae.

É necessário continuar aprendendo sempre e é bom compartilhar os nossos conhecimentos — nos sites, em fóruns online, em cafés com colegas, em congressos, etc.

Tenho certeza de que outros tradutores experientes dariam conselhos semelhantes.

Fernando Campos Leza é tradutor e intérprete, reside em Brasília e trabalha nos seguintes idiomas: espanhol, português, inglês, francês e alemão.
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Minha história: Fernanda Silveira Boito

Vou contar uma breve história que talvez possa animar muita gente que está começando agora. Não que eu seja uma tradutora com uma carreira de muitos anos, mas acho que as poucas histórias que tenho para contar podem servir de inspiração.

Quando criança, eu era extremamente curiosa e inconformada. Nunca estava satisfeita em perguntar, eu pesquisava para achar as respostas e, muitas vezes, acabava inventando uma história sobre o que eu tinha aprendido. Fazia listas que viravam resumos que viravam livros. Quando precisei escolher o curso que faria na faculdade, transitei por vários caminhos. Fui das Artes Cênicas à Filosofia, do Jornalismo às Relações Internacionais. E acabei fazendo Letras. Com bacharel em Tradução.

Eu nunca sonhei em ser tradutora. O meu sonho sempre foi trabalhar escrevendo, pesquisando, refletindo, fazendo escolhas. Durante a faculdade, pensei em parar várias vezes. Mas ao mesmo tempo, sempre busquei entender como funcionava essa tal de tradução, pesquisando e buscando trabalhos. Nunca esqueço o meu primeiro trabalho remunerado: a versão de um artigo científico falando sobre a folha do pepino. Me matei e ganhei quase nada. Depois, descobri as agências. Comecei ganhando poucos centavos por trabalhos que fazia à noite quando chegava da escola de inglês onde eu dava aula. Ouvi vários “nãos”.

Mas a criança inconformada queria mais e foi fazer mestrado.

Resolvi pesquisar sobre legendagem e me apaixonei. Continuei com as agências que já eram outras e pagavam melhor e com as aulas de inglês que já não davam mais tanto prazer. O mestrado foi tomando forma e seguindo seu caminho junto com outras especializações, congressos e encontros de tradutores onde encontrei pessoas inspiradoras. Mesmo gostando de tudo o que encontrava no mundo da tradução, a grama dos vizinhos sempre era mais verde e eu ainda pensei em desistir. Tinha parado de dar aulas de inglês, não conseguia clientes e não tinha um fluxo de trabalho regular. Fazia dezenas de testes, mandava centenas de e-mails e nada.

Até que as coisas começaram a acontecer.

Comecei a trabalhar em uma editora como tradutora e revisora. E aquele trabalho era exatamente o que eu queria. Eu não sabia que queria ser tradutora, mas de repente me vi sentada em frente a um computador fazendo exatamente aquilo que sempre quis fazer: trabalhar escrevendo, pesquisando, refletindo, fazendo escolhas. As respostas dos testes começaram a aparecer. Alguns com bons resultados, outros nem tanto. Os primeiros filmes vieram, as traduções técnicas e o feedback positivo também. As indicações de clientes trouxeram outros clientes e o trabalho foi aumentando.

Hoje, cada dia mais eu vejo os resultados da minha curiosidade e teimosia, das escolhas que fiz e das atitudes que tomei. A criança curiosa e inconformada encontrou o seu espaço. E um dos melhores sentimentos que tenho é poder dizer que estou cheia de trabalho. Cheia de tradução.

Fernanda Silveira Boito é tradutora de inglês e português, residente em Maringá. É licenciada em Letras-Inglês e Bacharel em Tradução e mestre em Letras (Tradução) pela Universidade Estadual de Maringá (UEM). Trabalha com tradução técnica e legendagem.
E-mail: fernandab@dentalpress.com.br | Skype: ferboito

Minha história: Danilo Nogueira

Foi uma das maiores humilhações que já sofri. Depois de dois anos e meio de esforços e sofrimentos, tive de passar para frente minha franquia Fisk em Porto Alegre e voltar para São Paulo. Não nasci para aquilo. Voltei com uma mão na frente e outra atrás e fui morar de favor na casa do sogro que, aliás, me recebeu muito bem. Isso foi em 1970.

Aqui, continuei na Fisk, de novo como professor, mas sabia que aquilo não era bom, porque, entre primeiro de dezembro e carnaval, não havia serviço e, portanto, não se ganhava nada.

Um dia, na secretaria da escola, me perguntaram se eu queria fazer umas traduções. Topei na hora. Já tinha feito traduções mais de uma vez na vida e não me dado de todo mal. Mesmo que tivesse, do jeito que a coisa andava, era capaz de aceitar serviço até de trapezista. Mas era um negócio da China: quatro horas por dia, de manhã, cinco dias por semana, com 50% de adicional de “aula externa”. Qualquer um que tenha ensinado em curso livre de línguas sabe que isso não se recusa.

A empresa era a Arthur Andersen, naquela época a mais orgulhosa entre as firmas de auditora. Foi lá que aprendi essas coisas de contabilidade e finanças, impostos e direito societário. Virei especialista e escravo de minha especialidade. Até hoje, é o que mais faço.

Quinze dias depois, liguei para a Editora Atlas, oferecendo meus serviços. Disse que traduzia para a Arthur Andersen e, com isso e um teste pequeno, me contrataram.

Claro que eu não tinha ideia do que estava fazendo, mas a falta de dinheiro é uma excelente mestra e fui aprendendo, aos trancos e barrancos. Não era como agora. O curso da Anhanguera se chamava “Faculdade Ibero-Americana” e ainda estava começando. Tradução era geralmente considerada passatempo de intelectuais. Era tudo na base da máquina de escrever.

Conhecia poucos tradutores e a gente não trocava informações, por medo da concorrência. A Internet mudou tudo isso. Comecei a participar ativamente de troca de informações logo que foi liberada para uso de particulares, lá para 1995. Participava da trad-prt quando ainda era no IF da USP e mais caia do que funcionava. Logo depois do ano 2000 já estava dando cursos a distância. Nunca parei.

A Arthur Andersen desapareceu em 2002, vítima de seus próprios erros. A Editora Atlas continua firme, mas não publica mais traduções. Eu estou aqui, no Multitude, compartilhando um pouco da minha experiência.

Danilo Nogueira, tradutor IN-PT, residente em São Bernardo do Campo, SP. Especializado em tradução na área de negócios.
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