Minha história: Claudia Araujo

Nunca tive dúvidas sobre qual seria minha profissão, desde garota queria ser médica. Em 1987, já no penúltimo ano da faculdade, fui convidada a fazer um teste de tradução em uma editora especializada em livros da área de saúde. Pensei que seria uma forma provisória de ganhar algum dinheiro até concluir o curso e resolvi aceitar. Embora nunca tivesse passado pela minha cabeça ser tradutora, havia feito um curso de tradução antes de iniciar a faculdade, apenas para não me afastar do estudo de inglês. Ainda na adolescência, gostava de traduzir trechos de alguns livros e comparar com a edição em português, mas era só uma diversão. Assim, fiz o teste numa sala na própria editora, com a ajuda de alguns dicionários e, aprovada, comecei a traduzir.

Depois de concluir o curso de medicina, mantive as duas profissões paralelamente durante algum tempo, mas não estava satisfeita. Eu gostava muito mais de traduzir que de exercer a profissão de médica. Apesar disso, não foi uma decisão fácil. Relutei bastante — é difícil deixar uma profissão depois de investir e se preparar por tanto tempo —, mas acabei me convencendo de que a melhor opção seria me dedicar à tradução e me profissionalizar.

Agora sei que não poderia ter feito escolha melhor. Eu me mantive bem próxima da área médica e ainda estou sempre me atualizando pela leitura dos próprios textos a traduzir e pelas pesquisas que preciso fazer muitas vezes. De certo modo, juntei as duas paixões, já que me especializei na tradução de textos médicos e farmacêuticos e, é claro, minha formação acadêmica em medicina foi muito útil para o ingresso na profissão.

Claudia Araujo, tradutora IN > PT, residente no Rio de Janeiro, RJ. Especializada em tradução nas áreas médica e farmacêutica.
Twitter: @claraujo | Linkedin

Minha história: Chrystal Caratta

Fiz minha primeira tradução aos 16 anos. Conheci a um sueco que namorava uma brasileira e não falava português. A namorada desapareceu no mundo e ele queria enviar uma carta (!) aos pais dela. Escreveu em inglês, eu traduzi. A carta era longa, poética, sofrida. Entendi, nesse preciso momento, que mais que passar umas palavras ao português, eu precisava traduzir a angústia que ele sentia de ter sido deixado num altar que nunca existiu. Como todo bom cliente, uma vez entregue a tradução, ele comparou minha versão com a versão do Google Translate (que naquela época funcionava em marcha à ré) e pediu algumas explicações. Clients will be clients.

Muitos anos se passaram até que eu fiz minha primeira tradução profissional e remunerada. Estava terminando a faculdade e procurando uma maneira de ganhar dinheiro para me casar com um namorado alemão. Paguei a mensalidade da Catho e encontrei um anúncio de uma agência que buscava tradutores no par alemão > português. Nesse momento eu nem imaginava que existia um exército invisível de nós. Um teste e um NDA depois, em 2008, eu estava sentada na BemTradUz aprendendo a usar ferramentas CAT, trabalhar com terminologia e fazer controle de qualidade (um beijo pra BemTradUz!).

Minha primeira agência me ensinou tudo o que eu sei hoje. Lá fiz bons amigos que levo pela vida, aprendi a trabalhar com ética, paciência e comprometimento com a qualidade. Você não precisa começar sua carreira em uma agência e é bem possível que você construa uma carreira de sucesso sem nunca ter pisado em uma. Mas esses anos que eu passei com a BemTradUz, dinheiro nenhum do mundo é capaz de recompensar.

Minhoca de agência, depois da BemTradUz trabalhei em algumas outras mais, seduzida pelos salários cada vez mais altos. Alguns traumas depois (estas agências eram de chorar), comecei a traduzir de casa. Trabalhei com agências no Brasil e na Europa, aprendi contabilidade básica – como carga tributária e composição de preços. Aproveitei a flexibilidade do trabalho e me mudei pra Buenos Aires. Estava feliz, tomando vinho, escutando tango e traduzindo meus projetinhos honestos quando o bicho da agência voltou a me morder.

A Latinlingua, onde trabalho hoje, estava contratando tradutores in-house de português. Era um trabalho feito especialmente pra mim, mas eu estava muito traumatizada para voltar a trabalhar em relação de dependência. Sem muitas expectativas, algumas entrevistas depois eu estava contratada, pedindo minha residência permanente na Argentina e viajando no segundo metrô mais antigo do mundo todos os dias.

Na Latinlingua encontrei o espaço para desenvolver tudo que eu aprendi na BemTradUz. Aprendi que o mercado de tradução são vários e que nem todas as agências do mundo esperam que a gente traduza volumes homéricos pagando tarifas de Lilliput. Aprendi que uma boa tradução tem diversas camadas de trabalho e que escrever no idioma-alvo é apenas a primeira e mais fácil delas. Aprendi que nem todo cliente é implicante e que há muitos por aí querendo estabelecer parcerias de qualidade.

Há muitos anos eu vivo da tradução. É ela quem paga integralmente minhas contas. E meu primeiro cliente, o amigo sueco, continua sendo amigo e cliente. Começou a trabalhar em um grande banco canadense e, hoje, paga feliz todas as traduções que faço pra ele. E eu traduzo tudo, profissionalmente e com a mesma dedicação daquela primeira carta.

Chrystal Caratta é tradutora de alemão, inglês e espanhol para o português do Brasil. Reside em Buenos Aires e tem especial predileção por transcriação, terminologia, mídias sociais e controle de qualidade.
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Minha história: Aline Kachel Araújo

Minha trajetória como tradutora profissional tem exatamente dois anos. Comecei a trabalhar como tradutora em tempo integral agosto/setembro de 2012. Porém, antes de chegar a esse ponto, passei muito tempo sem perceber que era esse o caminho que eu queria trilhar. Quando chegou a hora de escolher um curso superior, optei por Administração. Perto de me formar e ainda sem perspectiva de trabalhar na área, comecei o curso de Engenharia de Computação, o qual cursei durante dois anos.

Eu já fazia traduções como forma de aprendizado e passatempo desde os catorze anos. Principalmente de mangás (quadrinhos japoneses) e, depois de aprender japonês, light novels (livros de fácil leitura focados no público jovem). No entanto, o que realmente me fez perceber que eu poderia me tornar tradutora profissional foi uma publicação do extinto blog Pictolírica. Nele, a autora contou sobre como precisou converter uma memória de tradução do Trados para o Wordfast.

Até esse momento, eu nem sabia que a autora do blog em questão era tradutora. Essa leitura teve dois grandes efeitos em mim. O primeiro foi me apresentar às CAT Tools. Até então, achava que tradução era feita se escrevendo o texto em português e apagando o original em um documento de Word. Um método que me parecia meio enfadonho e altamente sujeito a erros. Saber que, além de segmentar os documentos, as CAT Tools tinham correspondências totais e parciais me fascinou. O segundo efeito foi perceber que ali estava alguém, com a mesma idade que eu, traduzindo profissionalmente. Vivendo disso.

A partir de então, final de 2010, comecei a realmente correr atrás de uma carreira na tradução. Não sabia por onde começar sequer a procurar, mas fiz meu perfil no Translator’s Cafe e enviei o meu currículo a algumas agências. Os primeiros resultados vieram apenas em maio do ano seguinte, com uma tradução voluntária e um projeto pequeno, de nem 100 palavras.

Em setembro de 2011, consegui um emprego no setor administrativo de uma empresa, mas ainda almejando me tornar tradutora.

Sabe quando se fica um bom tempo sem qualquer evento social e, de repente, surgem vários em um mesmo dia? Comigo, algo similar aconteceu em setembro de 2012. Consegui dois contatos que forneciam trabalhos constantes de tradução. Um de artigos simples, em estilo jornalístico, e outro com legendagem. Além disso, no início desse mesmo mês, fui à França, onde morei durante três meses.

Foi um período conturbado. Além da alteração de rotina pelo trabalho autônomo, houve, literalmente, uma mudança em minha vida. Se eu dissesse que foi tranquilo e fácil passar por todas essas mudanças de uma vez, estaria mentindo.

De volta ao Brasil, deixei de trabalhar com uma das empresas e fiquei apenas com a de legendagem. No início, fazia apenas tradução, mas me chamaram para fazer o controle de qualidade de uma série. Alguns meses depois, assumi o trabalho de edição dela. Em julho de 2013, surgiu um projeto que me forçou a aprender a marcar tempo em legenda. Ou seja, aproximadamente um ano após começar na legendagem profissional, eu tinha aprendido todas as atividades relacionadas a ela.

Parece que a primavera austral tem algum grande efeito em mim, pois tudo acontece quando essa estação está prestes a começar. Novamente entre agosto e setembro, agora de 2013, eu finalmente me senti uma tradutora consolidada. Meus recebimentos mensais chegavam constantemente a um patamar bom e, talvez justamente por isso, passei a investir mais na minha formação. Comecei com o curso de Produção Editorial da Unesp e, desde então, participo o máximo possível de cursos e webinars, muitos aqui do Multitude. Também participei dos meus primeiros eventos presenciais e me associei à Abrates, que já me rendeu frutos.

Ao repensar a minha trajetória para escrever este artigo, percebi como esses meus dois curtos anos de carreira se dividiram em etapas. Durante o primeiro ano, eu me estabeleci na profissão e me acostumei a ela. Durante o segundo, estou/estive correndo atrás de cursos de formação e de ações para me profissionalizar mais. Resta-me ver o que o terceiro e os demais anos me aguardam!

Aline Kachel Araújo é tradutora de inglês e japonês para português desde 2012. Graduada em Administração pela Universidade Federal do Paraná (UFPR), ela é associada da Abrates e especializada em legendagem.
E-mail: alinekachel@gmail.com | Skype: aline.kachel