Minha história: Thiago Araujo

A epopeia do terceiro filho

Sou o terceiro filho de cinco irmãos. Se por um lado o primogênito costuma ser o responsável e a caçula é a mais favorecida, o filho do meio tem a fama de ser o que dá mais errado, que trilha os caminhos mais esquisitos. Tudo para se sobressair de alguma forma. Comigo, as coisas não foram diferentes.

Com vocação para a troca de experiências por bate-papos, mas quase nenhuma para usar gravata e camisa social, trabalhava como tradutor interno em uma multinacional de auditoria. O sonho de consumo de muitos. Para mim, mais realidade. Uma realidade que pagava as contas, não posso negar. Mas que a gravata não era para mim, ah, não era mesmo!

Paralelamente, meu melhor amigo já trabalhava como tradutor freelancer e me contava das vantagens de viver por conta. Eu, como cria de uma grande agência de tradução, morria de medo de não ter meu dinheirinho no final do mês, mas comecei a me informar mais sobre como também poderia entrar nessa “vida boa”.

Como o destino tem dessas coisas, houve um grande corte de orçamento na equipe da tal multi. E eu, que só estava lá havia dois anos e meio, fui embora. O que inicialmente parecia um sonho, começou a me assustar.

Poderia ter pirado naquele momento, mas, felizmente, as tais pesquisas começaram a ser aplicadas, as leituras diversas de livros e blogs surtiram efeito e todos os bate-papos que eu tanto apreciava começaram a render frutos.

De julho de 2011 para cá, aprendi muito mais sobre profissionalização como tradutor do que nos outros cinco anos e meio que trabalhei como interno. Em vez de viver num mundinho fechado e pretensamente seguro, um mundão aberto e cheio de possibilidades se relevou diante dos meus olhos!

O melhor de tudo foi que esta nova etapa me permitiu ser eu mesmo (e sem gravata), trabalhar com o que eu queria e, finalmente, superar meus ganhos como interno. Além disso, conheci muita gente boa e do bem, fiz parcerias e amizades, participei de congressos e, finalmente, cresci ao ponto de me associar a outros amigos tradutores com uma visão parecida com a minha e formar minha própria sociedade — com o melhor amigo também!

O terceiro filho, de fato, não é o filho que nasceu para seguir os passos dos outros, mas desbravar caminhos nem sempre óbvios — porém, felizmente, pavimentados pela ajuda de amigos, parceiros e muita, mas muita troca de experiências. Não é “a vida boa” que imaginava, mas certamente vale muito a pena.

Thiago é tradutor, revisor e tester. Traduz conteúdo criativo e localiza jogos, mas também trabalha com a área de negócios, marketing e turismo. Em novembro de 2013, formou a LingoHaus.
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Minha história: Mitsue Siqueira

A primeira chance

“— Fale sobre sua experiência com o inglês.

— Concluí o curso aos 13 anos de idade e, desde então, não pratico muito o inglês…

— Ok. Você frequenta alguma igreja, tem o hábito de ler a Bíblia?

— Não (sorriso amarelo). Estudei em escola católica, mas não frequento igrejas e confesso que não leio muito a Bíblia.

— Bom, somos uma editora cristã que trabalha com traduções do inglês, e então…

— Sim, entendo, mas devo ser sincera: meu inglês enferrujou mesmo durante esses anos, e realmente não tenho muito conhecimento da literatura cristã, mas estou disposta a aprender. Sei que para vocês é complicado contratar uma pessoa como eu, mas eu gostaria de ter essa experiência e preciso que alguém me dê a primeira chance.

— Certo, entraremos em contato quando tivermos o resultado e…”

Pronto, a entrevista estava arruinada. Além de mal saber falar inglês, eu havia me candidatado a uma vaga de tradutora em uma editora (cristã!) sem nem ao menos ler a Bíblia ou ter o hábito de assistir a missas/cultos, etc. De onde saiu aquela ideia de “dar a primeira chance”? Não, eles precisavam de pessoas com algum conhecimento, e eu tive certeza de que não seria aprovada para a vaga. Fiquei muito chateada.

Felizmente, todo meu pessimismo se esvaiu quando recebi a notícia da aprovação nos testes. Nem preciso dizer o quanto foi maravilhoso dar os primeiros passos em tradução e revisão trabalhando com livros, depois de tantos meses apenas dando aulas de inglês e português.

Assim como eu, a editora era um departamento novo na empresa. Ou seja, ela e eu crescemos juntas. Equipe nova, pessoas novas e nenhum processo oficial de tradução e revisão. Aos poucos, criamos um esboço do guia de estilo e timidamente estipulamos algumas formas de feedback aos integrantes da equipe.

Depois de um ano e meio, volto à estaca zero tentando uma vaga na Ccaps, e a história se repete: “Você conhece alguma CAT Tool? Já trabalhou com localização? Sabe o que é um projeto?” “Não. Mas estou muito disposta a aprender”. E mais uma vez, expus a necessidade de todo profissional iniciante: a tão sonhada primeira chance. Mesmo assim, o desânimo me acertou em cheio. A entrevista foi de manhã. Desmotivada, acesso meu e-mail à tarde e recebo a notícia da aprovação. Uau! Agora sou a nova Language Specialist da Ccaps, mas ainda há muito o que fazer.

Depois de um treinamento intensivo e de vários feedbacks bons e nem tão bons assim do meu próprio trabalho, posso dizer que, graças a profissionais competentíssimos (que hoje posso chamar de amigos), estou muito mais preparada. Agora eu sei que CAT Tools nada têm a ver com gatos, e que PM não é só Polícia Militar. Ok, também aprendi outras coisinhas além disso.

Certamente não devo o que sou hoje apenas à Ccaps, mas também a todos que me apoiaram pelas mídias sociais e nos eventos dos quais participei (e até palestrei, quem diria?). Dei passos muito significativos esses últimos anos, mas sei que o caminho ainda é longo, e posso dizer com segurança que tenho muita gente boa andando ao meu lado. Por fim, fica o meu desejo de boa sorte a todos nós, jovens ou não, tradutores ou não, mas sempre eternos iniciantes em busca da primeira chance.

Mitsue Siqueira é tradutora e revisora da Ccaps Translation & Localization, no par inglês<>português, e reside no Rio de Janeiro.
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Minha história: Kelli Semolini

Kelli

 

Como não virei arquiteta (nem professora)

 

Um dia, perguntaram ao Rubem Alves como ele tinha planejado a vida para chegar onde chegou. A resposta: “Eu cheguei onde cheguei porque tudo o que planejei deu errado”. Comigo, até agora, tem sido mais ou menos assim, também.

 

A primeira vez em que pensei em traduzir foi por volta dos 15 anos, mas a ideia logo se dissolveu no meio de muitas outras. Quando chegou a hora de escolher um curso universitário, eu tinha decidido ser arquiteta. No meio do cursinho, comecei a dar aulas de inglês, como um bico, só pra ter um dinheirinho aqui e ali. Eu ganhava quatro reais por hora-aula e sim, você leu certo. Eu sabia que era pouco, mas não sabia que era tão pouco. Aposto que tinha professor dizendo que eu aviltava o mercado.

 

Comecei a pegar gosto pelas crianças, depois pelos adolescentes e, na hora de fazer a inscrição para o vestibular, minha mãe e minha diretora, cada uma pendurada numa orelha, me “sugeriram” prestar Letras, além da Arquitetura. Fui muito bem nos dois vestibulares, fechei a primeira fase da FUVEST com nota quase que de Medicina, e aí veio o medo: e se eu tivesse que escolher? Eu não queria ter que escolher, sou péssima para escolher e escolha implica em responsabilidade, eu não queria ter que decidir o resto da vida ali e ainda ter que enfrentar as consequências!

 

Bem, o destino foi generoso e eu fui muito mal na segunda fase do vestibular para Arquitetura. Adeus, USP, olá, UNESP, vamos ver no que isso dá. Continuei a dar aulas durante a faculdade, e até uns dois anos depois de me formar. Todo início de semestre era uma festa. Ansiedade e animação em níveis extremos. No primeiro semestre em que isso não aconteceu, o segundo semestre de 2008, minha mãe adoeceu e precisou ficar internada. Com meus irmãos morando fora, eu estava praticamente sozinha para cuidar dela, e assim comecei a faltar das aulas.

 

Foi nessa época, coincidentemente, que o Danilo me convidou para trabalhar com ele. Como conheci o Danilo? Ah, muito divertida, a história. Entrei, em 2006, num grupo de tradutores no Orkut, só para ver como era. Gostei, fui ficando, fui fazendo amizades. Em janeiro de 2007 resolvi ir para São Paulo conhecer esse povo no Encontro de Férias da SBS. Foi quando conheci o Danilo pessoalmente, muito de passagem. Comecei a frequentar todos os encontros de tradutores que eu podia, e isso muitas vezes significou enfrentar 4 horas de ônibus na ida e 4 na volta, no mesmo dia, só para participar de um almoço. Numa dessas viagens, ele se ofereceu para me levar conhecer museus. Eu aceitei e voltei a São Paulo, e em vez de conhecer o MASP, recebi uma oferta de parceria. Cheguei a milímetros de dizer não, porque não sabia se ia dar conta. Olha, faltou tão pouco para eu recusar que até hoje não sei como foi que eu disse sim.

 

Foi o Danilo quem me ensinou praticamente tudo o que sei hoje. Não só ele me treinou para as áreas em que ele atua, mas também ensinou a usar CAT tools, lidar com clientes e, principalmente, a valorizar meu próprio trabalho. Foram as traduções dele as primeiras que eu revisei, bem como os artigos. Revisei tanto que me tornei melhor revisora que tradutora, coisa que durante um bom tempo me deixou contrariada. Hoje, acho ótimo revisar e é o que me sustenta. Levando em conta que durante muito tempo eu fui a chata que corrigia os outros, hoje recebo para isso e ainda me agradecem, quando faço um bom trabalho. Sim, pode reler o artigo, é certo que você vai encontrar algum defeito. Casa de ferreiro, essas coisas.

 

Poucas semanas depois de aceitar o convite do Danilo, minha então chefe me encostou na parede e perguntou se eu ia continuar com as aulas ou não. Contra todo o bom senso e os conselhos do Danilo, eu abandonei as aulas. Embora eu não me arrependa, não aconselho essa impulsividade a ninguém, que ela tem um preço alto. A época de professora se encerrou ali. Foi maravilhosa, apesar de eu nunca ter conseguido ganhar dinheiro dando aula, mas sinto como se fosse outra vida, outra Kelli.

 

Em fevereiro do ano seguinte, fui morar sozinha e logo em seguida a crise acabou nos atingindo com meses de seca. Mas vida de tradutor é assim. Uma vaquinha magra aqui, uma mais gordinha ali, leva tempo para encontrarmos o equilíbrio. Ainda luto para encontrar o meu, como sei que também acontece com muito veterano bem mais cascudo que eu.

 

Nesses seis anos foram muitas as coisas que eu nunca imaginei que aconteceriam comigo. Palestras no exterior, na USP, em faculdades particulares, artigos não só publicados e republicados no exterior, mas até traduzidos para línguas como o árabe. Conheci tanta gente interessante que perdi a conta, visitei lugares incríveis e até comi caviar (odiei, mas comi), tudo porque não consegui passar no vestibular para Arquitetura.

 

Kelli Semolini é tradutora e revisora desde 2008, ano em que mudou seu domicílio profissional para a Internet. Cachorreira, apaixonada por dança de salão, gosta de cozinhar e odeia lavar a louça.
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