Minha história: Paulo Noriega

Filho único de mãe mineira e pai gaúcho, nasci na cidade do Rio de Janeiro onde resido até hoje. Sem sombra de dúvida, boa parte do que eu sou profissionalmente devo agradecer a minha mãe, pois o gosto pela leitura, pela escrita e pelos idiomas estrangeiros foi incentivado por ela desde muito pequeno. No caso dos idiomas, especialmente a língua inglesa, meu contato inicial não poderia ter sido de forma mais lúdica e divertida: foi assistindo aos clássicos de Walt Disney, já que ela comprava as fitas em VHS dubladas e legendadas. Mal sabia eu que isso acabaria despertando a minha grande paixão anos mais tarde quando eu viria a decidir por seguir o caminho da profissão de tradutor profissional especializado na área de dublagem.

Meu gosto pela língua inglesa continuou a crescer no decorrer dos anos, tanto que me formei na Cultura Inglesa em 2007 e passei no exame PET da faculdade de Cambridge. Além disso, recebi uma boa base na língua francesa por conta da minha escola e sempre flertei com outros idiomas, fosse através de músicas ou pegando meus DVDS e vendo os filmes em outras línguas, mesmo aquelas nas quais eu não era fluente. Em paralelo com a paixão por outros idiomas, outro grande gosto cresceu junto comigo, ainda alimentado pela minha infância disneyana: o amor pela arte e pelo mundo da dublagem em si. Nunca me esqueço de como as interpretações dos nossos dubladores eram marcantes e como eu queria pertencer àquele mundo de alguma forma. No entanto, seria somente na faculdade que as peças iriam começar a se encaixar…

Durante meu primeiro ano cursando bacharelado em tradução na PUC-RIO, vi que havia um curso de extensão sendo oferecido pela própria faculdade sobre tradução para dublagem, e uma vez que essa modalidade não era contemplada na grade curricular, vi ali uma chance de aliar as minhas duas paixões. O curso ministrado pela tradutora e dubladora Dilma Machado foi uma grande experiência e ao final dele vi que, com certeza, eu havia me achado naquele mundo. Isso foi no ano de 2010. Em julho de 2012, foi quando recebi meu primeiro trabalho de tradução para dublagem e, desde então, nunca mais parei. Comecei a trabalhar em paralelo com a faculdade como freelancer e após me formar em 2014, continuo firme e forte na área.

Realizando um trabalho de formiguinha, consegui conquistar clientes tanto no Rio de Janeiro quanto em São Paulo e espero conquistar ainda mais! Há trabalhos dos quais me orgulho muito de ter dado a minha contribuição, uma vez que o mundo da dublagem não se limita apenas à tradução em si. É um trabalho de equipe no qual desde o tradutor até o último dublador que grava sua última cena dá o seu toque pessoal para que o produto saia da melhor forma possível. Aprendo muito com os diretores de dublagem com os quais trabalhei e continuo a trabalhar, pois é uma área tão orgânica e tão viva que a lapidação em prol de uma tradução cada vez mais afiada nunca cessa.

Em termos pessoais, posso dizer que a cada novo trabalho realizado, me sinto muito feliz por ajudar a recontar histórias de tantos personagens seja em um filme, um desenho animado ou uma série no nosso idioma. É uma sensação única e luto para que essa modalidade tradutória ganhe mais espaço e notoriedade no âmbito acadêmico-tradutório, pois se comparado aos países europeus, ainda há muito a se investigar sobre essa modalidade em nosso país e até sobre a historiografia da dublagem brasileira em si.

Nessa militância, tive a oportunidade de me apresentar e poder falar mais acerca da minha profissão em faculdades tais como UERJ, UFF e UFRJ, de modo a mostrar aos alunos interessados no mundo da tradução, que existe mais uma área de atuação disponível para eles e que carece de profissionais qualificados e capacitados. Além disso, sinceramente espero que, ao compartilhar um pouco da minha experiência e falar sobre esse mundo que tanto amo, outros possam se encontrar nele, tal como eu me encontrei.

Paulo Noriega é carioca, tradutor do par de idiomas português-inglês e especializado no campo de tradução para dublagem. É bacharel em tradução pela faculdade PUC-RIO, com domínio adicional em cultura greco-romana.
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Minha história: Carolina Walliter

Meu primeiro contato com a tradução foi aos 14 anos, quando resolvi botar um fim à minha frustração com a “demora” do quinto volume de Harry Potter em português. Com um final de semana de ralação para traduzir algumas páginas de A ordem da fênix, descobri que essa coisa de traduzir era difícil à beça e nunca mais disse um “ai!” para reclamar dessa suposta lentidão na publicação das minhas séries estrangeiras favoritas. No entanto, encarei a dificuldade em traduzir literatura como uma oportunidade para começar a ler em inglês e, com isso, acabei ganhando a fluência necessária que me abriu muitas portas no futuro. A tradução em si, porém, caiu no esquecimento e só foi ressurgir anos depois, em meio a uma das muitas crises de identidade que a faculdade de História me proporcionou.

Pois é, sou de humanas da cabeça aos pés: me formei em História, mas todo semestre ficava na maior dúvida sobre largar a faculdade. Apesar de toda a paixão e identificação com a disciplina, conforme avançava nos períodos, mais certeza tinha que as possíveis opções de exercício da profissão não me fariam plenamente feliz. Assim, durante um final de semana trancada em casa em meio a textos e fichamentos, resolvi relaxar folheando uns trechos daquele livro do Harry Potter e lembrei da minha tentativa meia-boca de traduzi-lo. Bazinga! Um curso de tradução! Será que isso existe? Tradução é uma carreira, não é mesmo?

Com uma rápida pesquisa na internet descobri um curso profissionalizante em Ipanema; cinco minutos depois meu teste para admissão no curso de formação de tradutores estava agendado junto com a prova prática para o curso de formação de intérpretes. Duas semanas depois começava, feliz e animada, minha dupla jornada oficial no mundo tradutório como aluna do Brasillis. Foram quase dois anos de sábados inteiros dedicados à tradução e à interpretação, onde aprendi muito e amadureci horrores, conhecendo um universo bem diferente daquele mundo romantizado que imaginava sobre ser tradutora (aquele ar blasé de livros, intelectualidade, cheirinho de café e uma máquina de escrever vintage, sabe?) e intérprete (Nicole Kidman entreouvindo conspirações políticas na sede da ONU). Fui apresentada a um universo de trabalho complexo, diferente de tudo que conhecia, repleto de desafios que me instigaram a continuar nesse caminho.

Assim, aos vinte anos, tinha dois diplomas na mão, uma graduação em História já na metade e, obviamente, zero experiência. Assim, me lancei no mercado trabalhando em agências, onde ganhei experiência tanto na interpretação quanto na tradução. Os dois anos e meio que passei como linguista in-house foram verdadeiros laboratórios, onde entrei em contato com os mais variados tipos de texto, aprendi a usar CAT tools, compreendi o processo de gerenciamento de projetos de tradução e fiz muitos contatos profissionais, alguns com os quais ainda mantenho parcerias e grandes amizades.

Entretanto, só em 2013 que fui entender a importância dos rumos que a minha vida vinha tomando com a tradução/interpretação. Eu trabalhava com o que gostava, mas não dentro das condições que gostava; meu esgotamento físico e mental já era latente e minha insatisfação se generalizava. Sabe aquela sensação de que a vida espera de você muito mais que 40 horas religiosamente trabalhadas? Pois é. Aproveitei a deixa de alguns colegas que migraram para o esquema home office e me aventurei nessa também. E não me arrependi nem um pouco: além de trabalhar em condições privilegiadas (poupo energia com deslocamento, meu escritório tem o meu jeitinho e é ergonomic-friendly, etc.), desde então pude ter tempo para cuidar de mim por inteiro, me conhecer melhor e justamente perceber que as minhas ocupações profissionais são parte de um todo muito mais importante: a minha vida, que precisa e merece ser bem vivida. Assim, com pouco mais de um ano já no circuito self-employed, resolvi aproveitar o dinamismo de ser uma profissional virtual e parti para uma nova aventura: o nomadismo digital. Em meados de 2014 lancei o Pronoia Sem Fronteiras, meu projeto de vida pessoal-profissional, em Buenos Aires, onde morei e trabalhei em um coworking space por três meses, mesclando o prazer de viajar e conhecer novos lugares com a rotina de trabalho.

O dinamismo da vida autônoma permitiu que eu me engajasse em projetos paralelos que também me proporcionam muita satisfação e crescimento pessoal: hoje, além de traduzir e interpretar, sou revisora e colaboradora da Revista Capitolina e participo da Rede Méier+, uma rede colaborativa de revitalização da Zona Norte carioca.

Além da flexibilidade de trabalho, a tradução e a interpretação são ofícios que mexem com meu perfeccionismo e autocrítica, dosando-os de forma que não sejam elementos da minha ruína, mas componentes de um profissionalismo crítico e sincero. No mais, estou exatamente onde queria estar: no presente, vivendo, não meramente existindo, realizada e fazendo o que gosto. E claro, se em alguma das minhas andanças eu esbarrar com a Lia Wyler, faço questão de me desculpar!

Carolina Walliter é tradutora e intérprete no par inglês e português, com ênfase em projetos nas áreas de marketing empresarial, recursos humanos, TI, transcriação e segurança do trabalho. Escreve sobre o cotidiano do tradutor no Pronoia Tradutoria, onde também divulga suas impressões empíricas sobre o fenômeno do coworking.

Minha história: Lucilia Marques

Nada na minha vida parecia indicar que um dia eu seria tradutora profissional. Mas hoje, em retrospecto, vejo como meu futuro parece ter sido preparado desde muito cedo. Minha trajetória até chegar à tradução profissional foi feita de muitas coincidências, portas subitamente fechadas e planos drasticamente alterados que culminaram na inesperada descoberta da minha insuspeita vocação.

Meu gosto pelo estudo de línguas vem praticamente desde o berço. Meu pai me ensinou Esperanto antes mesmo de eu aprender a ler. Minha avó paterna conversava com a mãe e os irmãos em castelhano. Amigos da família falavam o ladino. A primeira língua que estudei formalmente foi o francês — na escola pública, onde o ensino era extraordinário! Mas o aprendizado da minha língua de trabalho começou por acidente: uma avassaladora paixão platônica por um inglês, aos doze anos.

Na época do vestibular, eu sabia o que queria ser: cientista. Fiz o bacharelado em Física na UFRJ, fui monitora, fiz Iniciação Científica em Supercondutividade, depois fiz Licenciatura, fui professora e, já casada, entrei para o Mestrado em Física do Estado Sólido. A pesquisa em laboratório era o que eu amava fazer, mas uma doença grave e um filho pequeno me obrigaram a dar adeus àquilo tudo. Fiquei em casa, me recuperando de uma cirurgia delicada, preparando mamadeiras e trocando fraldas. Lembrava do laboratório e chorava de saudade. Foi então que meu marido sugeriu que eu fizesse os dois módulos de tradução do TTC do IBEU, “para não ficar parada; você pode traduzir e ficar em casa, cuidando dos meninos”. Eu não podia me inscrever porque nunca havia feito um curso de inglês. Mas, se eu tivesse um certificado de proficiência reconhecido, poderia fazer o curso. Então, me inscrevi no exame de Michigan e fui aprovada. Fiz minha inscrição no curso, depois de uma prova de acesso – segurando no colo meu filho mais novo, de 8 meses de idade.

Terminado o curso no IBEU Tijuca, fui atrás de trabalho. Falei com um ex-professor que havia traduzido um dos livros do curso de Física, e ele encaminhou meu currículo para a Editora Guanabara-Koogan. Comecei na equipe que traduzia a nova edição do nosso mítico livro-texto de Física do ciclo básico. Eu adorava o trabalho, podia ficar em casa e cuidar dos filhos, e o dinheiro das traduções pagava as prestações do carro. Senti que havia encontrado minha profissão!

Depois de um tempo traduzindo Física e Química, quis mudar de ares. Mandei meu currículo pelo correio para várias editoras e fui chamada para um teste na CPAD. Traduzi mais de 20 livros para eles. Mandei mais currículos, e então vieram outras editoras em Minas Gerais, em São Paulo, no Rio Grade do Sul. Fui me especializando em literatura evangélica e teologia.

Dois anos depois dos primeiros trabalhos, fiz o vestibular para Letras Português-Inglês, na UFRJ. Antes do fim da graduação, fui aprovada no Mestrado em Linguística Aplicada e defendi minha dissertação em 2005. Mas foi na Pós-graduação em Tradução da Universidade Gama Filho que finalmente comecei a sair do amadorismo esforçado para o profissionalismo. Foi ali, com colegas da área e professores fantásticos, que me vi, não como alguém que “faz traduções”, mas como uma tradutora profissional. Ainda me considero uma aprendiz, não de tradução, mas de profissionalização. A convite de um dos meus professores, o querido Jorge Davidson, ingressei no Grupo Tradutores/Intérpretes do Facebook, onde, entre tanta gente extraordinária, aprendo cada dia mais.

Lucilia Marques é tradutora no par inglês<>português e reside no Rio de Janeiro.
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Minha história: Claudia Araujo

Nunca tive dúvidas sobre qual seria minha profissão, desde garota queria ser médica. Em 1987, já no penúltimo ano da faculdade, fui convidada a fazer um teste de tradução em uma editora especializada em livros da área de saúde. Pensei que seria uma forma provisória de ganhar algum dinheiro até concluir o curso e resolvi aceitar. Embora nunca tivesse passado pela minha cabeça ser tradutora, havia feito um curso de tradução antes de iniciar a faculdade, apenas para não me afastar do estudo de inglês. Ainda na adolescência, gostava de traduzir trechos de alguns livros e comparar com a edição em português, mas era só uma diversão. Assim, fiz o teste numa sala na própria editora, com a ajuda de alguns dicionários e, aprovada, comecei a traduzir.

Depois de concluir o curso de medicina, mantive as duas profissões paralelamente durante algum tempo, mas não estava satisfeita. Eu gostava muito mais de traduzir que de exercer a profissão de médica. Apesar disso, não foi uma decisão fácil. Relutei bastante — é difícil deixar uma profissão depois de investir e se preparar por tanto tempo —, mas acabei me convencendo de que a melhor opção seria me dedicar à tradução e me profissionalizar.

Agora sei que não poderia ter feito escolha melhor. Eu me mantive bem próxima da área médica e ainda estou sempre me atualizando pela leitura dos próprios textos a traduzir e pelas pesquisas que preciso fazer muitas vezes. De certo modo, juntei as duas paixões, já que me especializei na tradução de textos médicos e farmacêuticos e, é claro, minha formação acadêmica em medicina foi muito útil para o ingresso na profissão.

Claudia Araujo, tradutora IN > PT, residente no Rio de Janeiro, RJ. Especializada em tradução nas áreas médica e farmacêutica.
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