Minha história: Vanessa Tomich

Desde que me lembro, português e inglês eram matérias fáceis e naturais como respirar. Depois, ainda na adolescência, enveredei pelo italiano e pelo alemão. Só por diversão. Na época, ganhei uma bolsa de estudos para estudar inglês. E nunca mais parei.

Entrei na universidade fazendo Ciências Sociais. Fascinante, era tudo o que eu queria…. mas, assim que sobrou uma vaga em Letras/Inglês, mudei de curso. No fundo, não mudei. Apenas retomei o caminho que já estava dentro de mim: línguas e linguística. Um caminho talvez já traçado desde a infância, quando eu lia ‘O Homem e as Línguas’, que meus pais tinham em casa. Minha alma tinha se tornado cosmopolita.

Tive um noivo norte-americano. E um marido chileno. O convívio com eles e suas famílias me enriqueceu infinitamente, e lá estava de novo a marca indelével dos idiomas e da cultura estrangeira em minha vida.
Por motivos profissionais, fui aprender francês. Um período muito prazeroso de um ano e meio, concluído com um teste feito uma semana antes do nascimento de minha filha.

Por mais de duas décadas, dei aulas de inglês de todos os tipos: particular, em cursos, em colégios regulares, em cursinho. Em geral, o contato com os alunos era muito bom. Mas, no fundo, eu me agarrava à pseudossegurança do ganho fixo.

Até que, na segunda gravidez, gestei filho e tradução juntos. No oitavo mês, por razões a princípio financeiras, aceitei uma importante tradução técnica, oferecida por uma amiga fraterna e grande encorajadora da tradução em minha vida (Luci Collin, escritora, tradutora e professora de tradução na UFPR).

Me pus a traduzir sem parar, usando minha máquina de datilografar eletrônica. Era julho/agosto de 1994. E… não consegui terminar a tradução antes do filho nascer. Entrei no centro cirúrgico dizendo ao meu obstetra: “Doutor! Eu não terminei a tradução!!” Ele tomou meu rosto ternamente nas mãos e disse: “Calma, Vanessa… você está tendo um bebê!” Felizmente, o filho e a tradução chegaram com saúde. Até o obstetra me pediu tradução de seu artigo, e fiz muitas traduções com o bebê ao lado. Hoje, esse filho lindo e a minha estrada de tradução têm 20 anos!

No início, tive o privilégio de receber traduções através de indicações. E aprendi muito com elas porque aceitei todas, com curiosidade e alegria, mesmo sem a competência ideal. Vieram mais tarde os convites para trabalhos maiores, que me levaram às áreas florestal, eletromecânica e de energia – minhas especialidades hoje.

Em retrospecto, vejo que meu saber tradutório vem sendo construído lentamente, tradução a tradução, com o apoio de muita gente inspiradora e oportunidades – formais e informais. Mas, se fosse para resumir toda a minha experiência com tradução no que considero absolutamente essencial, eu diria: é paixão vital. E paixão correspondida.

Vanessa Tomich é tradutora técnica e TPIC na cidade de Curitiba e trabalha no par inglês-português.

Minha história: Lucilia Marques

Nada na minha vida parecia indicar que um dia eu seria tradutora profissional. Mas hoje, em retrospecto, vejo como meu futuro parece ter sido preparado desde muito cedo. Minha trajetória até chegar à tradução profissional foi feita de muitas coincidências, portas subitamente fechadas e planos drasticamente alterados que culminaram na inesperada descoberta da minha insuspeita vocação.

Meu gosto pelo estudo de línguas vem praticamente desde o berço. Meu pai me ensinou Esperanto antes mesmo de eu aprender a ler. Minha avó paterna conversava com a mãe e os irmãos em castelhano. Amigos da família falavam o ladino. A primeira língua que estudei formalmente foi o francês — na escola pública, onde o ensino era extraordinário! Mas o aprendizado da minha língua de trabalho começou por acidente: uma avassaladora paixão platônica por um inglês, aos doze anos.

Na época do vestibular, eu sabia o que queria ser: cientista. Fiz o bacharelado em Física na UFRJ, fui monitora, fiz Iniciação Científica em Supercondutividade, depois fiz Licenciatura, fui professora e, já casada, entrei para o Mestrado em Física do Estado Sólido. A pesquisa em laboratório era o que eu amava fazer, mas uma doença grave e um filho pequeno me obrigaram a dar adeus àquilo tudo. Fiquei em casa, me recuperando de uma cirurgia delicada, preparando mamadeiras e trocando fraldas. Lembrava do laboratório e chorava de saudade. Foi então que meu marido sugeriu que eu fizesse os dois módulos de tradução do TTC do IBEU, “para não ficar parada; você pode traduzir e ficar em casa, cuidando dos meninos”. Eu não podia me inscrever porque nunca havia feito um curso de inglês. Mas, se eu tivesse um certificado de proficiência reconhecido, poderia fazer o curso. Então, me inscrevi no exame de Michigan e fui aprovada. Fiz minha inscrição no curso, depois de uma prova de acesso – segurando no colo meu filho mais novo, de 8 meses de idade.

Terminado o curso no IBEU Tijuca, fui atrás de trabalho. Falei com um ex-professor que havia traduzido um dos livros do curso de Física, e ele encaminhou meu currículo para a Editora Guanabara-Koogan. Comecei na equipe que traduzia a nova edição do nosso mítico livro-texto de Física do ciclo básico. Eu adorava o trabalho, podia ficar em casa e cuidar dos filhos, e o dinheiro das traduções pagava as prestações do carro. Senti que havia encontrado minha profissão!

Depois de um tempo traduzindo Física e Química, quis mudar de ares. Mandei meu currículo pelo correio para várias editoras e fui chamada para um teste na CPAD. Traduzi mais de 20 livros para eles. Mandei mais currículos, e então vieram outras editoras em Minas Gerais, em São Paulo, no Rio Grade do Sul. Fui me especializando em literatura evangélica e teologia.

Dois anos depois dos primeiros trabalhos, fiz o vestibular para Letras Português-Inglês, na UFRJ. Antes do fim da graduação, fui aprovada no Mestrado em Linguística Aplicada e defendi minha dissertação em 2005. Mas foi na Pós-graduação em Tradução da Universidade Gama Filho que finalmente comecei a sair do amadorismo esforçado para o profissionalismo. Foi ali, com colegas da área e professores fantásticos, que me vi, não como alguém que “faz traduções”, mas como uma tradutora profissional. Ainda me considero uma aprendiz, não de tradução, mas de profissionalização. A convite de um dos meus professores, o querido Jorge Davidson, ingressei no Grupo Tradutores/Intérpretes do Facebook, onde, entre tanta gente extraordinária, aprendo cada dia mais.

Lucilia Marques é tradutora no par inglês<>português e reside no Rio de Janeiro.
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