Minha história: Thiago Hilger

Um tradutor feliz, realizado e eternamente iniciante, que seguiu por alguns caminhos tortuosos até chegar a esta profissão.

Tudo começou na infância, quando eu jogava videogame sem entender bem os textos em inglês na tela da televisão. Foi com um dicionário ao lado, jogando videogame e depois ouvindo músicas que comecei a aprender o idioma, sempre sendo autodidata. Sempre fui fascinado por idiomas, tanto o inglês como o nosso nativo, o português, então sempre tive notas altas na escola em ambas as matérias.

Minha primeira experiência tradutória foi em 2007, mas não foi muito boa. Foi um trabalho nada bem pago, sobre um assunto extremamente técnico. Apesar de ter sido prazeroso traduzir, essa experiência me deixou afastado da tradução por vários anos.

Voltei a considerar a tradução em 2014. Na época eu trabalhava com análise de sistemas e, apesar de ter um salário razoavelmente alto e ter bastante reconhecimento na empresa onde eu atuava, eu não estava mais feliz, estava quase entrando em depressão. Em um dado momento, eu olhei para o espelho e ele me disse que eu precisava tomar uma decisão séria. Continuar naquela vida ou buscar algo que me realizasse. É claro que eu escolhi a segunda opção.

Sempre tive bastante contato com outros tradutores, e, por ter traduzido no passado, já sabia como era o desafio, mas sabia também a realização profissional que o acompanhava. Decidi arriscar e mudar de vida. Após alguns meses conciliando as duas profissões e planejando o passo seguinte, tomei coragem e pedi demissão do trabalho antigo. Essa história eu contei em mais detalhes no meu blog, O Jogo da Tradução.

Comecei a trabalhar como freelancer em tempo integral em abril de 2015 e não me arrependo em momento nenhum. Meus antigos colegas de trabalho, com quem ainda mantenho contato, sempre comentam que pareço outra pessoa, e é assim mesmo que me sinto. Um Thiago renovado.

O conhecimento e experiência que desenvolvi trabalhando na área de informática e tecnologia da informação, é claro, não foram esquecidos. Minha formação superior é em Ciência da Computação, então todo este vasto campo é uma das minhas especialidades no mundo da tradução.

Além disso, sou pós-graduado em Desenvolvimento de Jogos Digitais, o que me aproxima também da área de localização de jogos, que é a menina dos olhos para mim. Amo localizar jogos, do fundo do coração.

Outras especialidades com que trabalho bastante são a legendagem e a revisão. A legendagem começou com o trabalho voluntário nas palestras TED, sempre com temas interessantes e motivadores. O trabalho com revisão é uma nova porta que vinha se abrindo há pouco tempo e se escancarou quando eu publiquei no blog uma técnica de controle de qualidade usando Expressões Regulares. Este tópico também vem da área de informática, que, pelo jeito, não me abandona nunca, e é uma das minhas linhas de frente do ano de 2016.

Eu estou apresentando uma série de palestras sobre o Uso de Expressões Regulares no Controle de Qualidade da Tradução em um curso de interpretação em Curitiba, onde eu moro. Os próximos passos nessa linha serão um curso e uma consultoria, ainda em 2016, e palestras em congressos.

Acho que essa é a beleza da tradução: estamos sempre conectando áreas, assuntos, pessoas, usando os idiomas para que todos possam se desenvolver da melhor forma possível. Adoro estudar e descobrir temas novos e me sinto feliz por sempre ter algo novo a aprender.

Thiago Hilger é tradutor no par inglês<>português, especializado nas áreas de TI, jogos, localização e legendagem. Reside em Curitiba.
About me

Minha história: Paulo Noriega

Filho único de mãe mineira e pai gaúcho, nasci na cidade do Rio de Janeiro onde resido até hoje. Sem sombra de dúvida, boa parte do que eu sou profissionalmente devo agradecer a minha mãe, pois o gosto pela leitura, pela escrita e pelos idiomas estrangeiros foi incentivado por ela desde muito pequeno. No caso dos idiomas, especialmente a língua inglesa, meu contato inicial não poderia ter sido de forma mais lúdica e divertida: foi assistindo aos clássicos de Walt Disney, já que ela comprava as fitas em VHS dubladas e legendadas. Mal sabia eu que isso acabaria despertando a minha grande paixão anos mais tarde quando eu viria a decidir por seguir o caminho da profissão de tradutor profissional especializado na área de dublagem.

Meu gosto pela língua inglesa continuou a crescer no decorrer dos anos, tanto que me formei na Cultura Inglesa em 2007 e passei no exame PET da faculdade de Cambridge. Além disso, recebi uma boa base na língua francesa por conta da minha escola e sempre flertei com outros idiomas, fosse através de músicas ou pegando meus DVDS e vendo os filmes em outras línguas, mesmo aquelas nas quais eu não era fluente. Em paralelo com a paixão por outros idiomas, outro grande gosto cresceu junto comigo, ainda alimentado pela minha infância disneyana: o amor pela arte e pelo mundo da dublagem em si. Nunca me esqueço de como as interpretações dos nossos dubladores eram marcantes e como eu queria pertencer àquele mundo de alguma forma. No entanto, seria somente na faculdade que as peças iriam começar a se encaixar…

Durante meu primeiro ano cursando bacharelado em tradução na PUC-RIO, vi que havia um curso de extensão sendo oferecido pela própria faculdade sobre tradução para dublagem, e uma vez que essa modalidade não era contemplada na grade curricular, vi ali uma chance de aliar as minhas duas paixões. O curso ministrado pela tradutora e dubladora Dilma Machado foi uma grande experiência e ao final dele vi que, com certeza, eu havia me achado naquele mundo. Isso foi no ano de 2010. Em julho de 2012, foi quando recebi meu primeiro trabalho de tradução para dublagem e, desde então, nunca mais parei. Comecei a trabalhar em paralelo com a faculdade como freelancer e após me formar em 2014, continuo firme e forte na área.

Realizando um trabalho de formiguinha, consegui conquistar clientes tanto no Rio de Janeiro quanto em São Paulo e espero conquistar ainda mais! Há trabalhos dos quais me orgulho muito de ter dado a minha contribuição, uma vez que o mundo da dublagem não se limita apenas à tradução em si. É um trabalho de equipe no qual desde o tradutor até o último dublador que grava sua última cena dá o seu toque pessoal para que o produto saia da melhor forma possível. Aprendo muito com os diretores de dublagem com os quais trabalhei e continuo a trabalhar, pois é uma área tão orgânica e tão viva que a lapidação em prol de uma tradução cada vez mais afiada nunca cessa.

Em termos pessoais, posso dizer que a cada novo trabalho realizado, me sinto muito feliz por ajudar a recontar histórias de tantos personagens seja em um filme, um desenho animado ou uma série no nosso idioma. É uma sensação única e luto para que essa modalidade tradutória ganhe mais espaço e notoriedade no âmbito acadêmico-tradutório, pois se comparado aos países europeus, ainda há muito a se investigar sobre essa modalidade em nosso país e até sobre a historiografia da dublagem brasileira em si.

Nessa militância, tive a oportunidade de me apresentar e poder falar mais acerca da minha profissão em faculdades tais como UERJ, UFF e UFRJ, de modo a mostrar aos alunos interessados no mundo da tradução, que existe mais uma área de atuação disponível para eles e que carece de profissionais qualificados e capacitados. Além disso, sinceramente espero que, ao compartilhar um pouco da minha experiência e falar sobre esse mundo que tanto amo, outros possam se encontrar nele, tal como eu me encontrei.

Paulo Noriega é carioca, tradutor do par de idiomas português-inglês e especializado no campo de tradução para dublagem. É bacharel em tradução pela faculdade PUC-RIO, com domínio adicional em cultura greco-romana.
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Minha história: Carolina Walliter

Meu primeiro contato com a tradução foi aos 14 anos, quando resolvi botar um fim à minha frustração com a “demora” do quinto volume de Harry Potter em português. Com um final de semana de ralação para traduzir algumas páginas de A ordem da fênix, descobri que essa coisa de traduzir era difícil à beça e nunca mais disse um “ai!” para reclamar dessa suposta lentidão na publicação das minhas séries estrangeiras favoritas. No entanto, encarei a dificuldade em traduzir literatura como uma oportunidade para começar a ler em inglês e, com isso, acabei ganhando a fluência necessária que me abriu muitas portas no futuro. A tradução em si, porém, caiu no esquecimento e só foi ressurgir anos depois, em meio a uma das muitas crises de identidade que a faculdade de História me proporcionou.

Pois é, sou de humanas da cabeça aos pés: me formei em História, mas todo semestre ficava na maior dúvida sobre largar a faculdade. Apesar de toda a paixão e identificação com a disciplina, conforme avançava nos períodos, mais certeza tinha que as possíveis opções de exercício da profissão não me fariam plenamente feliz. Assim, durante um final de semana trancada em casa em meio a textos e fichamentos, resolvi relaxar folheando uns trechos daquele livro do Harry Potter e lembrei da minha tentativa meia-boca de traduzi-lo. Bazinga! Um curso de tradução! Será que isso existe? Tradução é uma carreira, não é mesmo?

Com uma rápida pesquisa na internet descobri um curso profissionalizante em Ipanema; cinco minutos depois meu teste para admissão no curso de formação de tradutores estava agendado junto com a prova prática para o curso de formação de intérpretes. Duas semanas depois começava, feliz e animada, minha dupla jornada oficial no mundo tradutório como aluna do Brasillis. Foram quase dois anos de sábados inteiros dedicados à tradução e à interpretação, onde aprendi muito e amadureci horrores, conhecendo um universo bem diferente daquele mundo romantizado que imaginava sobre ser tradutora (aquele ar blasé de livros, intelectualidade, cheirinho de café e uma máquina de escrever vintage, sabe?) e intérprete (Nicole Kidman entreouvindo conspirações políticas na sede da ONU). Fui apresentada a um universo de trabalho complexo, diferente de tudo que conhecia, repleto de desafios que me instigaram a continuar nesse caminho.

Assim, aos vinte anos, tinha dois diplomas na mão, uma graduação em História já na metade e, obviamente, zero experiência. Assim, me lancei no mercado trabalhando em agências, onde ganhei experiência tanto na interpretação quanto na tradução. Os dois anos e meio que passei como linguista in-house foram verdadeiros laboratórios, onde entrei em contato com os mais variados tipos de texto, aprendi a usar CAT tools, compreendi o processo de gerenciamento de projetos de tradução e fiz muitos contatos profissionais, alguns com os quais ainda mantenho parcerias e grandes amizades.

Entretanto, só em 2013 que fui entender a importância dos rumos que a minha vida vinha tomando com a tradução/interpretação. Eu trabalhava com o que gostava, mas não dentro das condições que gostava; meu esgotamento físico e mental já era latente e minha insatisfação se generalizava. Sabe aquela sensação de que a vida espera de você muito mais que 40 horas religiosamente trabalhadas? Pois é. Aproveitei a deixa de alguns colegas que migraram para o esquema home office e me aventurei nessa também. E não me arrependi nem um pouco: além de trabalhar em condições privilegiadas (poupo energia com deslocamento, meu escritório tem o meu jeitinho e é ergonomic-friendly, etc.), desde então pude ter tempo para cuidar de mim por inteiro, me conhecer melhor e justamente perceber que as minhas ocupações profissionais são parte de um todo muito mais importante: a minha vida, que precisa e merece ser bem vivida. Assim, com pouco mais de um ano já no circuito self-employed, resolvi aproveitar o dinamismo de ser uma profissional virtual e parti para uma nova aventura: o nomadismo digital. Em meados de 2014 lancei o Pronoia Sem Fronteiras, meu projeto de vida pessoal-profissional, em Buenos Aires, onde morei e trabalhei em um coworking space por três meses, mesclando o prazer de viajar e conhecer novos lugares com a rotina de trabalho.

O dinamismo da vida autônoma permitiu que eu me engajasse em projetos paralelos que também me proporcionam muita satisfação e crescimento pessoal: hoje, além de traduzir e interpretar, sou revisora e colaboradora da Revista Capitolina e participo da Rede Méier+, uma rede colaborativa de revitalização da Zona Norte carioca.

Além da flexibilidade de trabalho, a tradução e a interpretação são ofícios que mexem com meu perfeccionismo e autocrítica, dosando-os de forma que não sejam elementos da minha ruína, mas componentes de um profissionalismo crítico e sincero. No mais, estou exatamente onde queria estar: no presente, vivendo, não meramente existindo, realizada e fazendo o que gosto. E claro, se em alguma das minhas andanças eu esbarrar com a Lia Wyler, faço questão de me desculpar!

Carolina Walliter é tradutora e intérprete no par inglês e português, com ênfase em projetos nas áreas de marketing empresarial, recursos humanos, TI, transcriação e segurança do trabalho. Escreve sobre o cotidiano do tradutor no Pronoia Tradutoria, onde também divulga suas impressões empíricas sobre o fenômeno do coworking.

Minha história: Sofia Pulici

Quando chegou aquele momento no colegial de decidir qual faculdade fazer, eu estava perdida. Eu sentia que havia uma certa torcida para que eu fizesse administração de empresas para ajudar no negócio do meu pai. Não era algo que me atraia. Na época, após anos de estudos de língua inglesa, eu fazia aulas de conversação de inglês e, conversando sobre o assunto na aula, o professor sugeriu: Por que você não presta hotelaria? É uma carreira nova e promissora, e, de certa forma, é administração, mas de hotéis, não de empresas. Essa fala influenciou minha decisão e, assim, escolhi hotelaria; eu amava viajar e me hospedar em hotéis e comer em restaurantes, então aquilo parecia certo. No meio do caminho transferi o curso para uma faculdade em Sydney, Austrália, e me formei na terra dos cangurus. Trabalhei com hotelaria por alguns anos, mas faltava algo. Certa vez, em uma entrevista num hotel, tive de responder aquela pergunta clássica: Onde você deseja estar profissionalmente daqui a dez anos? Eu não sabia o que dizer, pois não me via no mercado hoteleiro no futuro.

No entanto, foi a hotelaria que me colocou em contato pela primeira vez com o mundo da tradução. Em 2004, numa empresa hoteleira na qual eu trabalhava no Brasil, precisávamos que o sistema fosse traduzido ao português. Fui escolhida pra começar a tradução. A tarefa foi fluindo e aquilo tudo foi me fascinando. Foi então que descobri que o meu tempo na hotelaria estava acabando. Mas, espera! Eu ainda não estava segura de que seguiria a carreira de tradutora. Aliás, nem sabia muito sobre a profissão. Num momento de transição, fui trabalhar de assistente administrativa bilíngue. O presidente da empresa era inglês e, então, começaram a aparecer e-mails, textos e matérias de jornais e revistas para eu traduzir. Foi aí que me deu o “click”. Eu queria parar qualquer outra atividade do escritório para traduzir. Isso me deixava viva, me instigava, me alimentava. E, no começo de 2006, decidi que realmente queria ser tradutora profissional. Fiz um estágio numa agência de tradução por uns meses, fui pesquisando sobre trabalhar em casa, me esquematizando, e, no meio do mesmo ano, bati o martelo e comecei no esquema “home office”, trabalhando integralmente como tradutora freelancer. Meus primeiros clientes? A empresa hoteleira na qual trabalhei e um hotel cinco estrelas, além de uma empresa que funcionava no mesmo prédio onde atuei como assistente bilíngue. Contatos e bons relacionamentos… tive sorte e foi assim que começou.

Anos mais tarde, em 2009, achei que eu precisava estudar novamente. Sentia que me faltava teoria, até mesmo para justificar algumas das minhas escolhas tradutórias. Como já conhecia o sistema de ensino australiano, decidi voltar a estudar lá. Infelizmente não era possível eu fazer um curso de tradução, pois as faculdades não ofereciam nenhum programa com português, por isso optei por um programa interessante de linguística aplicada. A coordenadora do curso, ao saber que minha primeira opção era tradução, me deixou fazer matérias genéricas (sem língua específica) do mestrado de tradução, como teoria e técnicas de tradução e interpretação. Me formei, me tornei tradutora credenciada pela NAATI, órgão que reconhece tradutores profissionais na Austrália, e lá trabalhei como linguista e tradutora, o que foi ótimo para eu ver e entender como funcionam outros mercados tradutórios, nem sempre tão dinâmicos como o brasileiro.

Ainda há muito o que percorrer nessa trajetória, mas quando olho para o caminho que já trilhei, penso: Lindo! Consegui, no final das contas, colocar tudo num pote só: estudar um pouco da teoria que queria, envolver hotelaria no meu trabalho, sendo essa uma das minhas áreas de especialização, e ainda ter o conhecimento e o título de linguista. Se hoje me perguntarem onde desejo estar profissionalmente daqui a alguns anos, a resposta é clara: traduzindo, sempre traduzindo!

 

Sofia Pulici é linguista e tradutora nos pares inglês <> português e espanhol > português, especializada em turismo e hotelaria, mas atua também em outras áreas (médica e pigmentos). Reside atualmente em Rio Claro, interior de São Paulo, mas esse status está sempre mudando.
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Minha história: Thomas Melo

Minha primeira experiência como tradutor começou cedo. Ainda com 17 anos. Por ser o ‘primo que sabia Inglês’, minha prima – que é médica – pediu-me para traduzir um artigo de uma revista especializada. E como é de se imaginar, não foi algo fácil ou prazeroso. Mas, de certa forma, serviu para me abrir os olhos para um mercado totalmente novo. A partir desse momento, comecei a tentar traduzir músicas e poemas de autores dos quais gostava na época. Isso me motivou a prestar vestibular para Letras e pensar na carreira de tradutor para o meu futuro (mas, definitivamente, não para traduzir artigos de Medicina).

Após o término da faculdade, comecei uma pós-graduação em Tradução e me deparei com um primeiro desafio: escolher em uma área de especialização. Minha primeira opção, obviamente, era a literária – tanto por gostar de textos do gênero, quanto pela possibilidade de usar a minha criatividade. Mas nem todo início de carreira é assim tão simples e, nos quase dois primeiros anos de atividade, traduzi desde históricos escolares, manuais de engenharia, plantas de hotéis, logística, negócios, e, mais uma vez, um único e bendito artigo médico. Os primeiros trabalhos, como ocorre com muitos outros tradutores, vieram por indicação de amigos e pelo networking (construído aos poucos, fazendo parte de grupos no facebook e participando de eventos de tradução).

Já na metade da minha pós-graduação, conheci outro campo que também me permitiria explorar bem a minha criatividade (e igualmente aliado a uma paixão antiga): a área de Games. Essa escolha acabou definindo o tema da minha monografia e um norte que eu deveria buscar. A partir do segundo semestre de 2013, eu já estava conseguindo manter uma regularidade de trabalhos na área, mas ainda os conciliava com aulas de Português/Inglês em escolas em Recife. Mas, em dezembro do mesmo ano, tomei duas decisões (uma delas, um tanto suicida, concordo): parar de ensinar e apostar minhas fichas me afiliando ao ProZ, com o intuito de ser tradutor full-time. E isso fez toda a diferença para mim. Os primeiros meses foram basicamente devotados a conseguir montar um bom perfil (pedindo feedback de empresas e colegas com os quais já tinha trabalhado) e procurar por clientes. Nesse período, não consegui nenhum cliente e cheguei a considerar seriamente a possibilidade de voltar a ensinar. Mas, depois de 5 meses de filiação (e ainda esperando o primeiro cliente no site, embora um ou outro tenha aparecido por outros meios), consegui talvez o mais improvável naquele momento: um trabalho como tradutor in-house em uma empresa de Games na Alemanha. Hoje, estou morando em Berlim, trabalhando com a área que escolhi, começando a aprender uma nova língua e me sentindo bastante feliz por ter tido a coragem de me arriscar cinco meses atrás. Contudo, tenho plena consciência de que isso é apenas o começo.

Thomas Melo é tradutor no par inglês<>português, e reside em Recife.
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Minha história: Valter Mendes Jr.

Sempre digo que entrei no mundo da tradução por amor. Não por amor à tradução, exatamente. Afinal, quando criança, nunca sonhei em ser tradutor e, crescido, formei-me em História. No entanto, sempre gostei de idiomas e, autodidata que sou, aprendi a falar inglês sozinho, graças aos jogos de videogame que sempre me acompanharam. Só que minha motivação era puramente intelectual, não prática.

Eis que entra o amor: namorava uma menina que recebeu uma proposta irrecusável para trabalhar em São Paulo. Eu, por amor, aceitei embarcar junto nessa aventura na metrópole. Chegando lá, precisava arrumar um emprego. Comecei a comprar jornais para procurar, entre os diversos anúncios dos classificados, algum em que me encaixasse minimamente. Vi um anúncio para revisor de textos, mandei um currículo e recebi uma resposta pedindo que fosse até lá fazer uma entrevista.

Imaginava que seria uma agência de publicidade querendo um revisor de português e que eu passaria por uma daquelas dinâmicas de grupo típicas de entrevistas de emprego – até tinha na ponta da língua a resposta “abelha” ou “formiga” para a pergunta sobre qual animal gostaria de ser, já que elas trabalham em equipe. Cheguei lá e nada era o que eu pensava: tratava-se de uma agência de tradução querendo um revisor de traduções e não havia dinâmica alguma, mas vários testes que envolviam traduções, versões e perguntas de múltipla escolha sobre gramática.

Passei no teste e comecei a trabalhar dentro da agência, revisando textos. Foi o melhor início que poderia ter com tradução, pois aprendi tudo que precisava para começar a traduzir, com muito contato com terminologias especializadas e com a ajuda dos meus colegas. Logo comecei a traduzir e cheguei a ser gerente de projetos. Estava tudo ótimo profissionalmente, mas eu e minha namorada terminamos nosso namoro. Voltei a Porto Alegre e passei a trabalhar em casa para a agência, com carteira assinada e tudo. Esse período foi ótimo para que eu criasse uma rotina de trabalho – afinal, precisava acompanhar o horário da agência.

Veio a crise econômica e fui demitido para cortar gastos; queriam continuar trabalhando comigo, então abri uma empresa. Com ela, veio a liberdade de procurar outros clientes, maiores, melhores e mais distantes, e novas experiências dentro do mundo da tradução. E eu lá, aceitando os desafios e cada vez mais apaixonado pela profissão em que havia entrado, meio sem querer, mas de onde não queria sair de jeito nenhum. Sete anos depois, tenho a vida que quero graças à tradução e também sou professor – uma forma bacana de repassar a outras pessoas o que aprendi nesses anos todos.

Tem uma música da Legião Urbana que diz: “Só nos sobrou do amor a falta que ficou”. Para mim, o que sobrou de um amor (aquele, que me fez ir a São Paulo) foi outro amor, pela tradução, e que me faz ir aonde quero.

Valter Mendes Jr. é tradutor de inglês, português e espanhol, residente em Porto Alegre, RS.
E-mail: valtermjunior@yahoo.com.br | Skype: valter-alltasks | Linkedin

Minha história: Thiago Araujo

A epopeia do terceiro filho

Sou o terceiro filho de cinco irmãos. Se por um lado o primogênito costuma ser o responsável e a caçula é a mais favorecida, o filho do meio tem a fama de ser o que dá mais errado, que trilha os caminhos mais esquisitos. Tudo para se sobressair de alguma forma. Comigo, as coisas não foram diferentes.

Com vocação para a troca de experiências por bate-papos, mas quase nenhuma para usar gravata e camisa social, trabalhava como tradutor interno em uma multinacional de auditoria. O sonho de consumo de muitos. Para mim, mais realidade. Uma realidade que pagava as contas, não posso negar. Mas que a gravata não era para mim, ah, não era mesmo!

Paralelamente, meu melhor amigo já trabalhava como tradutor freelancer e me contava das vantagens de viver por conta. Eu, como cria de uma grande agência de tradução, morria de medo de não ter meu dinheirinho no final do mês, mas comecei a me informar mais sobre como também poderia entrar nessa “vida boa”.

Como o destino tem dessas coisas, houve um grande corte de orçamento na equipe da tal multi. E eu, que só estava lá havia dois anos e meio, fui embora. O que inicialmente parecia um sonho, começou a me assustar.

Poderia ter pirado naquele momento, mas, felizmente, as tais pesquisas começaram a ser aplicadas, as leituras diversas de livros e blogs surtiram efeito e todos os bate-papos que eu tanto apreciava começaram a render frutos.

De julho de 2011 para cá, aprendi muito mais sobre profissionalização como tradutor do que nos outros cinco anos e meio que trabalhei como interno. Em vez de viver num mundinho fechado e pretensamente seguro, um mundão aberto e cheio de possibilidades se relevou diante dos meus olhos!

O melhor de tudo foi que esta nova etapa me permitiu ser eu mesmo (e sem gravata), trabalhar com o que eu queria e, finalmente, superar meus ganhos como interno. Além disso, conheci muita gente boa e do bem, fiz parcerias e amizades, participei de congressos e, finalmente, cresci ao ponto de me associar a outros amigos tradutores com uma visão parecida com a minha e formar minha própria sociedade — com o melhor amigo também!

O terceiro filho, de fato, não é o filho que nasceu para seguir os passos dos outros, mas desbravar caminhos nem sempre óbvios — porém, felizmente, pavimentados pela ajuda de amigos, parceiros e muita, mas muita troca de experiências. Não é “a vida boa” que imaginava, mas certamente vale muito a pena.

Thiago é tradutor, revisor e tester. Traduz conteúdo criativo e localiza jogos, mas também trabalha com a área de negócios, marketing e turismo. Em novembro de 2013, formou a LingoHaus.
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Minha história: Marta Boer

“Tenho uma coisa pra te falar. Vamos conversar depois da aula?”
Lembro como se fosse hoje quando a professora de inglês me falou que uma outra aluna estava procurando uma estagiária de tradução. Fiquei encantada com a possibilidade! Isso foi em 1994. Fazia um ano e meio que eu trabalhava como auxiliar de escritório em contabilidade e já sentia que aquela não era a minha praia…

Eu amava (ainda amo) a Língua Inglesa. Aos 10 anos, meu passatempo predileto era pegar o livrinho de letras dos Beatles do meu pai, o dicionário Michaelis(!) bilíngue, lápis e papel para saber que raios os Fab Four estavam falando. Aos 11, comecei a estudar na escola dos sonhos: a Cultura Inglesa. Nunca faltei, sempre tirei 10. Cada vez gostava mais, mas ainda não estava claro para mim o que fazer com aquele conhecimento. Sabia que o inglês seria importante para o futuro de qualquer carreira, mas não tinha jeito para professora e, basicamente, ainda não sabia o que queria ser quando eu crescesse.

Nessa época, eu já conhecia uma tradutora. O mistério da profissão me fascinava. Certa vez, num evento de família, minha mãe me chamou para a conversa dizendo que essa pessoa fazia o próprio horário e, às vezes, ia ao cinema numa tarde de quarta-feira. Aquilo nunca me saiu da cabeça. Anos mais tarde, descobri que não era bem assim… mas fazer o próprio horário me serviu, e ainda serve, muito bem.

Voltando ao assunto: aos 18 anos, comecei a trabalhar na “…texto & cia”. Conheci pessoas maravilhosas, profissionais admiráveis e tive oportunidades únicas. Fiz amigas para a vida inteira – a maioria esmagadora das profissionais eram mulheres. Essa empresa foi uma ótima escola e foi onde descobri outra paixão: o computador. Enquanto muitas pessoas tinham medo do teclado e não sabiam que botão apertar, eu saía fuçando em tudo para ver como funcionava.

Em 1996, entrei em Letras Tradução Português-Inglês na PUC-SP. Adorava as professoras, muito dedicadas, e achava as aulas extremamente interessantes. Passava aulas e aulas botando a mão na massa, traduzindo artigos de Newsweek, Times, textos jurídicos… e gostava cada vez mais.

Aos 21, fui contratada como PM pela Astratec, agência de tradução e localização, queria sempre aprender mais. Nessa época, era trabalho e faculdade. Muitos desafios. Foi muito bom porque, mesmo trabalhando como PM, continuava traduzindo na faculdade.

No trabalho, já usava e fuçava em algumas com as CATs, mas na faculdade isso só aparecia na teoria. Em 1998, em um simpósio, fui convidada a dar uma palestra sobre o Trados, era a primeira vez que a maioria dos participantes (alunos ou professores tradução) ouvia falar sobre isso.

Três anos mais tarde, recebi uma oferta de emprego fora do Brasil. Para trabalhar na minha área! Nem pestanejei. Vim para Dublin fazer parte da equipe de tradução da Lexmark. A equipe contava com uma francesa, uma italiana, uma alemã, uma espanhola e uma brasileira – eu! Tive contato com muitas culturas, já que o departamento era ao lado da central de suporte. Havia gente de mais de 100 países. Quando havia confraternização, era muito divertido, muitas comidas típicas e também muitos desencontros linguísticos…

Dublin não foi um destino aleatório. Aqui era o hub mundial da localização. Os incentivos fiscais para empresas de tecnologia atraíram as gigantes da área. Com a tecnologia, veio a localização. A Microsoft chegou a ter uma equipe interna de localização composta por 200 pessoas de todos os cantos do mundo.

Este ano faz 20 anos que escolhi minha carreira. Já fiz de tudo ligado à localização, trabalhei em empresas grandes e pequenas, em agências e clientes finais, como freelancer e empregada, nas funções de tradutora, revisora, coordenadora de projetos, PM, tester de software e games, gerente de fornecedores, engenheira de localização… Deu para perceber o quanto sou curiosa?

Durante todo esse tempo, sempre me incomodou o fato de que as empresas e, em especial, as agências tentam esmagar o tradutor, seja diminuindo as taxas, aumentando a produtividade esperada, ou querendo se eximir de “erros” na tradução quando não há contexto, dúvidas ficam sem responder, ou as instruções estão erradas.

Atualmente, trabalho na Chillistore Technologies, em parceria com a Anna Woodward, minha amiga de longa data, e que conheci quando trabalhava na Astratec, nos idos de 1997 ou 1998. Temos como missão oferecer o melhor serviço possível sempre com um sorriso no rosto. Prestamos serviços ligados à localização, incluindo LQA, revisão de telas de software (in-context review), curadoria de páginas da Web, terminologia, revisão e preparação de glossários, preparação de MT, pós-edição de MT, SEO multilíngue, entre outros.

Coordenamos projetos com até 45 idiomas. Organizamos treinamentos sobre as ferramentas dos clientes para nossos colaboradores. Selecionamos os melhores revisores, que conhecemos ao longo da carreira em localização. Pagamos em dia. Como PMs, procuramos obter o maior número possível de informações e instruções, damos o apoio necessário para que os revisores possam realizar as tarefas da melhor maneira possível. Queremos mudar o mundo…

Até que, para quem não sabia o que queria ser quando crescesse, cheguei longe, e tudo começou quando tive a chance de “entrar na tradução”.

Agradeço à Sheila pelo convite, foi muito bom poder relembrar e refletir sobre a minha trajetória profissional. Sucesso ao Multitude!

Marta Boer é formada em tradução inglês-português pela PUC-SP e residente em Dublin, Irlanda. Especializada em controle de qualidade de localização de software e outros serviços ligados à localização.
E-mail: marta.boer@chillistore.ie | Skype: madjuicer

Minha história: Mitsue Siqueira

A primeira chance

“— Fale sobre sua experiência com o inglês.

— Concluí o curso aos 13 anos de idade e, desde então, não pratico muito o inglês…

— Ok. Você frequenta alguma igreja, tem o hábito de ler a Bíblia?

— Não (sorriso amarelo). Estudei em escola católica, mas não frequento igrejas e confesso que não leio muito a Bíblia.

— Bom, somos uma editora cristã que trabalha com traduções do inglês, e então…

— Sim, entendo, mas devo ser sincera: meu inglês enferrujou mesmo durante esses anos, e realmente não tenho muito conhecimento da literatura cristã, mas estou disposta a aprender. Sei que para vocês é complicado contratar uma pessoa como eu, mas eu gostaria de ter essa experiência e preciso que alguém me dê a primeira chance.

— Certo, entraremos em contato quando tivermos o resultado e…”

Pronto, a entrevista estava arruinada. Além de mal saber falar inglês, eu havia me candidatado a uma vaga de tradutora em uma editora (cristã!) sem nem ao menos ler a Bíblia ou ter o hábito de assistir a missas/cultos, etc. De onde saiu aquela ideia de “dar a primeira chance”? Não, eles precisavam de pessoas com algum conhecimento, e eu tive certeza de que não seria aprovada para a vaga. Fiquei muito chateada.

Felizmente, todo meu pessimismo se esvaiu quando recebi a notícia da aprovação nos testes. Nem preciso dizer o quanto foi maravilhoso dar os primeiros passos em tradução e revisão trabalhando com livros, depois de tantos meses apenas dando aulas de inglês e português.

Assim como eu, a editora era um departamento novo na empresa. Ou seja, ela e eu crescemos juntas. Equipe nova, pessoas novas e nenhum processo oficial de tradução e revisão. Aos poucos, criamos um esboço do guia de estilo e timidamente estipulamos algumas formas de feedback aos integrantes da equipe.

Depois de um ano e meio, volto à estaca zero tentando uma vaga na Ccaps, e a história se repete: “Você conhece alguma CAT Tool? Já trabalhou com localização? Sabe o que é um projeto?” “Não. Mas estou muito disposta a aprender”. E mais uma vez, expus a necessidade de todo profissional iniciante: a tão sonhada primeira chance. Mesmo assim, o desânimo me acertou em cheio. A entrevista foi de manhã. Desmotivada, acesso meu e-mail à tarde e recebo a notícia da aprovação. Uau! Agora sou a nova Language Specialist da Ccaps, mas ainda há muito o que fazer.

Depois de um treinamento intensivo e de vários feedbacks bons e nem tão bons assim do meu próprio trabalho, posso dizer que, graças a profissionais competentíssimos (que hoje posso chamar de amigos), estou muito mais preparada. Agora eu sei que CAT Tools nada têm a ver com gatos, e que PM não é só Polícia Militar. Ok, também aprendi outras coisinhas além disso.

Certamente não devo o que sou hoje apenas à Ccaps, mas também a todos que me apoiaram pelas mídias sociais e nos eventos dos quais participei (e até palestrei, quem diria?). Dei passos muito significativos esses últimos anos, mas sei que o caminho ainda é longo, e posso dizer com segurança que tenho muita gente boa andando ao meu lado. Por fim, fica o meu desejo de boa sorte a todos nós, jovens ou não, tradutores ou não, mas sempre eternos iniciantes em busca da primeira chance.

Mitsue Siqueira é tradutora e revisora da Ccaps Translation & Localization, no par inglês<>português, e reside no Rio de Janeiro.
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Minha história: Rafael Pescarolo de Carvalho

Minha aventura no extraordinário mundo tradutório começou cedo, aos 16 anos, quando ainda fazia curso de inglês e, para treinar, buscava as letras das músicas dos meus artistas favoritos (na época U2, Alanis Morissette, INXS e The Cranberries) para traduzir, tanto para mim como para os amigos, e me divertia descobrindo e explorando.

Sempre gostei de idiomas, e quando terminei o segundo grau técnico em Desenho Industrial decidi prestar vestibular para Licenciatura Plena em Inglês na UFPR, em 1999. Durante meu curso universitário, que terminei em 2006 e com passagem também pelo Bacharelado em Tradução, realizei traduções literárias dentro da área do bacharelado em tradução e participei do projeto experimental de tradução do livro Translating As a Purposeful Activity: Functionalist Approaches Explained, de Christiane Nord, além de vários textos de diversos estilos literários.

Iniciei-me profissionalmente em 2008 e comecei traduzindo documentos simples para fins educacionais, currículos, resumos de teses e textos acadêmicos. Sendo professor de inglês em tempo integral desde 1999, a tradução foi nesse tempo uma atividade pouco frequente, mas contínua.

As coisas mudaram completamente em 2012, quando decidi me mudar para a Itália e fazer da tradução minha profissão e fonte de renda exclusivas. Foi nessa época também que mergulhei de cabeça no universo das CAT Tools e fui descobrindo os pormenores da profissão, aprendendo a me organizar como autônomo e buscando novos contatos e parcerias. Também comecei a buscar mais oportunidades de desenvolvimento profissional e ficar mais ciente sobre o mercado global da tradução.

Hoje vivo em Viena, na Áustria, sou membro da Câmara do Comércio de Viena, tenho meu registro de profissional autônomo, planejo me especializar ainda mais nas áreas em que traduzo (jogos e aplicativos, recursos humanos e turismo) e percebo cada vez mais como o universo tradutório é, além de ilimitado, de uma fascinação infindável.

Rafael Pescarolo de Carvalho é tradutor de inglês e português e reside em Viena, Áustria.
Proz | Skype: rafa.pes.car