Como se tornar um tradutor de jogos?

Tradução do texto How to become game translator, de Alain Dellepiane, publicado com a autorização do autor

Muitas pessoas nos pedem sugestões sobre como se tornar um tradutor de jogos. De modo geral, a tradução de jogos é um ramo da tradução técnica e de software, e requer conhecimentos básicos similares a esses.

Uma boa parte dos profissionais tem alguma formação em tradução ou em uma língua estrangeira. A outra metade encontrou sua própria maneira, seja como gerente de projetos ou traduzindo outros tópicos específicos de programação e de engenharia, que aprenderam estudando sozinhos ou por experiência.

O trabalho sem uma formação acadêmica é comum. Mas é mais difícil encontrar trabalho e executá-lo e vai depender de você aprender a usar as ferramentas por conta própria.

O aprendizado à distância pode ser um bom jeito de começar a sério. De certificados de inglês como TOEFL ou ESOL a diplomas de tradução como IoLET ou Open University, há muitas opções para preparar-se de forma eficaz enquanto você ainda estiver trabalhando em período integral.

Além disso, não se esqueça de que linguagens são um modo de vida: se você planeja terminar seu trabalho (ou estudo) diário e depois ignorá-los, você não vai se tornar um bom linguista. Encaixe o idioma no seu dia a dia. Seu vizinho tem uma associação estrangeira? Torne-se membro! Um cinema perto de casa está apresentando um festival de filmes estrangeiros? Participe! Esse foi o único conselho profissional que já me deram.

E não se esqueça de que criar uma boa tradução exige um entendimento perfeito da língua de origem, mas também excelência na sua própria língua. Além disso, você precisa estar preparado para misturar e moldar a língua de todas as formas necessárias para expressar ideias e conceitos que possam ser completamente estrangeiros (talvez até para você mesmo).

Estar atento a tudo, acompanhando de tabloides a Shakespeare, de revistas de jogos a programas de TV, é uma parte do seu trabalho como tradutor de jogos.

Mas, se boa parte tem que ser feita sozinha, por que você precisa de ensino superior? Com certeza, viver nos EUA por alguns anos deveria ser mais do que suficiente!

Na verdade, não. Você pode encontrar muitos tradutores discutindo sobre isso, então eu serei breve. É como dizer que comer fora com frequência faz de você um chefe de cozinha. Claro, você não pode cozinhar sem entender de comida, como você não pode traduzir sem ser bilíngue, mas a diferença no nível de detalhes, dedicação e técnica é tão gritante que não dá pra comparar as duas situações.

Quer um exemplo? Somos uma equipe de três pessoas, nós traduzimos juntos e respondemos juntos aos clientes. Quando nós traduzimos, nossos estilos são bem parecidos, de tal forma que às vezes não conseguimos distinguir quem fez o quê. No entanto, quando nós escrevemos para os clientes, nós conseguimos perceber fácil. Traduzir e escrever não são a mesma coisa.

Ok, mas e os jogos?

É uma área nova, mas podemos dizer que muitos profissionais concordam a respeito de algumas práticas padrão. Se um tradutor amador for avaliado por um grupo de profissionais, muitos deles provavelmente apontariam os mesmos erros.

Mas há um problema: essas “regras” práticas raramente são sistematizadas. Se você parar para pensar, a maioria dos blogs de localização – como o nosso – estão fazendo justamente isso, escrevendo sobre as próprias experiências, e contando o número de aprovações vindas de outros tradutores.

Logo, a única maneira de aprender essas “regras” é sendo um aprendiz/colaborador.

Aprender como ser um tradutor de jogos pode ser difícil. O principal interesse em tradutores novos e inexperientes é lucrar com eles, e os preços pagos podem ser bem baixos. Pode valer a pena se você tem facilidade em aprender rápido, além de poder conseguir pagamentos melhores de acordo com suas qualificações – foi por isso que frisei a importância de uma boa educação.

Para achar uma comunidade de freelancers, basta digitar no Google “Como se tornar um tradutor freelancer” ou “Trabalhos de tradução freelance” e pesquisar em sites especializados como Proz.com ou Translators Café.

Outra opção interessante para preencher seu currículo é colocar trabalhos amadores. Só tente se concentrar em títulos respeitáveis de código aberto mais que em áreas suspeitas como ROM hackers ou hardcore hentai!

Outra forma de aprender é trabalhar dentro de uma organização, como um analista de teste ou um gerente de projeto.

A sensação que você vai ter não tem preço: eu deixei a Rockstar Games há quase 7 anos, mas aproveito a experiência ainda hoje.

Outra vantagem é que você pelo menos poderá ganhar o suficiente para ter uma vida decente. Por outro lado, você provavelmente teria que se mudar para a Inglaterra ou Irlanda. Dependendo de onde mora, você pode encontrar alguns trabalhos “nacionais”, pelo menos dentro das agências de tradução, mas terá que aceitar que as chances sejam mais baixas e os salários menores.

Para exemplificar, procure “localization tester” + sua língua no Google e vá aos sites dos principais estúdios (Sega, Sony, Computer Entertainment Europe, Square-Enix, Rockstar games, etc).

Tom Sloper abordou o assunto muito bem, então eu recomendo conferir o site dele nos mínimos detalhes (não só para trabalhos com teste, mas para todos os outros relacionados a jogos).

Mas… e a paixão por jogos?

Ser um ótimo jogador deve ajudar, não? Bem, é como ser bilíngue versus ser um tradutor: gostar de algo é diferente de fazê-lo. E, como um tradutor de jogos, você na verdade é um escritor de jogos, e tem muito a aprender (e nós ainda estamos aprendendo também!).

Entusiasmo é bom, mas lembre-se sempre de ser modesto. Você se lembra de “Dirty Dancing”? Baby era uma grande dançarina para uma turista, mas, antes de chegar lá, ela teve que ganhar a confiança deles.

Quando você escrever para um tradutor profissional de jogos, lembre-se que eles gastam a maior parte do dia deles nesse ramo, há muitos anos.

Mostre sua paixão, mas seja humilde e respeitoso, e eles de boa vontade vão te mostrar todos os passos mais importantes, sem precisar nem carregar melancias.

Boa sorte!

Conferência Proz – 1º dia

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Finalmente chegou o primeiro dia da Conferência do Proz na nossa cidade! Com ela, pessoas de demais regiões do Brasil e do mundo terão a chance de conhecer um pouco mais da nossa cidade.

A programação das palestras pode ser conferida neste link.

Mas para quem quiser aproveitar a cidade ao máximo, a recomendação no primeiro dia é fazer o City Tour com a Luciana Bonancia e a Samantha Santos. Esteja preparado para andar bastante pela cidade e visitar seus pontos históricos!

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Museu Oscar Niemeyer (MON). Foto: Carlos Renato Fernandes/Divulgação MON

Se for chegar mais em cima da hora e não tiver como pegar o tour, você pode dar um passeio na Rua XV de Novembro, onde poderá ver o famoso bondinho e o Palácio Avenida, que abriga todo ano o coral de Natal da cidade. Além disso, é uma ótima forma de reconhecer o terreno, pois o local do evento fica justamente no começo da Rua XV.

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Palácio Avenida – Curitiba

Nos vemos lá!

Minha história: Thiago Hilger

Um tradutor feliz, realizado e eternamente iniciante, que seguiu por alguns caminhos tortuosos até chegar a esta profissão.

Tudo começou na infância, quando eu jogava videogame sem entender bem os textos em inglês na tela da televisão. Foi com um dicionário ao lado, jogando videogame e depois ouvindo músicas que comecei a aprender o idioma, sempre sendo autodidata. Sempre fui fascinado por idiomas, tanto o inglês como o nosso nativo, o português, então sempre tive notas altas na escola em ambas as matérias.

Minha primeira experiência tradutória foi em 2007, mas não foi muito boa. Foi um trabalho nada bem pago, sobre um assunto extremamente técnico. Apesar de ter sido prazeroso traduzir, essa experiência me deixou afastado da tradução por vários anos.

Voltei a considerar a tradução em 2014. Na época eu trabalhava com análise de sistemas e, apesar de ter um salário razoavelmente alto e ter bastante reconhecimento na empresa onde eu atuava, eu não estava mais feliz, estava quase entrando em depressão. Em um dado momento, eu olhei para o espelho e ele me disse que eu precisava tomar uma decisão séria. Continuar naquela vida ou buscar algo que me realizasse. É claro que eu escolhi a segunda opção.

Sempre tive bastante contato com outros tradutores, e, por ter traduzido no passado, já sabia como era o desafio, mas sabia também a realização profissional que o acompanhava. Decidi arriscar e mudar de vida. Após alguns meses conciliando as duas profissões e planejando o passo seguinte, tomei coragem e pedi demissão do trabalho antigo. Essa história eu contei em mais detalhes no meu blog, O Jogo da Tradução.

Comecei a trabalhar como freelancer em tempo integral em abril de 2015 e não me arrependo em momento nenhum. Meus antigos colegas de trabalho, com quem ainda mantenho contato, sempre comentam que pareço outra pessoa, e é assim mesmo que me sinto. Um Thiago renovado.

O conhecimento e experiência que desenvolvi trabalhando na área de informática e tecnologia da informação, é claro, não foram esquecidos. Minha formação superior é em Ciência da Computação, então todo este vasto campo é uma das minhas especialidades no mundo da tradução.

Além disso, sou pós-graduado em Desenvolvimento de Jogos Digitais, o que me aproxima também da área de localização de jogos, que é a menina dos olhos para mim. Amo localizar jogos, do fundo do coração.

Outras especialidades com que trabalho bastante são a legendagem e a revisão. A legendagem começou com o trabalho voluntário nas palestras TED, sempre com temas interessantes e motivadores. O trabalho com revisão é uma nova porta que vinha se abrindo há pouco tempo e se escancarou quando eu publiquei no blog uma técnica de controle de qualidade usando Expressões Regulares. Este tópico também vem da área de informática, que, pelo jeito, não me abandona nunca, e é uma das minhas linhas de frente do ano de 2016.

Eu estou apresentando uma série de palestras sobre o Uso de Expressões Regulares no Controle de Qualidade da Tradução em um curso de interpretação em Curitiba, onde eu moro. Os próximos passos nessa linha serão um curso e uma consultoria, ainda em 2016, e palestras em congressos.

Acho que essa é a beleza da tradução: estamos sempre conectando áreas, assuntos, pessoas, usando os idiomas para que todos possam se desenvolver da melhor forma possível. Adoro estudar e descobrir temas novos e me sinto feliz por sempre ter algo novo a aprender.

Thiago Hilger é tradutor no par inglês<>português, especializado nas áreas de TI, jogos, localização e legendagem. Reside em Curitiba.
About me

Pergunta ao profissional: vamos falar de ética?

Há algum tempo discutimos a possibilidade de trazer os resultados das discussões do grupo para esta página. A ideia é beneficiar aqueles que não puderam comparecer aos encontros, talvez até por não saberem ainda de sua existência.

Assim, decidimos replicar aqui uma atividade que fizemos algumas vezes: a Pergunta ao profissional. Ainda que baseadas numa atividade simples — responder perguntas que ilustrassem aspectos únicos da experiência e prática de cada um — foram trocas de informação muito ricas e que achamos que valeria a pena compartilhar.

Funciona assim: qualquer pessoa pode responder à pergunta apresentada, usando a seção de comentários logo abaixo. Cada resposta que aparecer será incorporada à publicação.

A pergunta de hoje então é: quais são as características e atitudes de um profissional ético?

Luciana Helena Bonancio: Para mim, de uma maneira geral, um profissional ético é aquele que se preocupa com a visibilidade da profissão e acredita que a sua postura pode refletir na coletividade. Ele não fala mal dos colegas e não reclama da empresa onde trabalha, não rouba clientes dos outros e não deprecia o valor do trabalho, compartilha o que sabe e não tem vergonha de pedir ajuda quando não sabe, ele valoriza a formação profissional e prima pela qualidade, sempre.

Pergunta ao profissional: do que você gosta no seu trabalho?

Há algum tempo discutimos a possibilidade de trazer os resultados das discussões do grupo para esta página. A ideia é beneficiar aqueles que não puderam comparecer aos encontros, talvez até por não saberem ainda de sua existência.

Assim, decidimos replicar aqui uma atividade que fizemos algumas vezes: a Pergunta ao profissional. Ainda que baseadas numa atividade simples — responder perguntas que ilustrassem aspectos únicos da experiência e prática de cada um — foram trocas de informação muito ricas e que achamos que valeria a pena compartilhar.

Funciona assim: qualquer pessoa pode responder à pergunta apresentada, usando a seção de comentários logo abaixo. Cada resposta que aparecer será incorporada à publicação.

A pergunta de hoje então é: do que você mais gosta na sua prática profissional da tradução ou interpretação?

Andrea Andri Doris: “Estar em constante acesso com informações e novos conhecimentos. Como atuo em várias áreas, o trabalho acaba sendo fonte de estudo também.”

Thiago Hilger: “Do constante aprendizado. Cada novo trabalho é uma nova pesquisa, um novo estudo, e por fim, um novo aprendizado. Por mais que eu geralmente atue nas mesmas áreas, há sempre algo novo.
E claro, da criação de um texto traduzido. Porque traduzir não é apenas reescrever palavras com uma correspondência direta, há um texto sendo produzido, que merece dedicação e exige um pouco de criação. E assim o texto final tem naturalidade, fluência e (talvez) até beleza.”

Neli Raquel Miranda: “É honra traduzir ou interpretar o que é seleto, a ser publicado. Palavras tem corpo e alma e “texto” da raiz etimológica “tecido” ou “tecitura” merecem jóias se houver feedback e sucesso do autor.
Ao contrário dos bons, os maus textos podem começar como tecido xadrez e terminar listrado, ou traçam mapas que não chegam ao destino prometido, indignos de atenção. Não são eles aqui.
E a quem Estilo não encanta? Tanto quanto nos encanta trocar de roupas estilosas e a dinâmica das línguas vivas no palco!
Codificar e decodificar fala ou escrita seria nudez e vexame quando não for área de interesse e expertise, mesmo que jamais saberemos tudo, é risco querer aprender o básico nessa hora, então: adrenalina e humildade diante do inexorável.
Há línguas morrendo ou se matando? Não sou popular na minha cultura, o que me faz fugir para quaisquer novas ou até mortas entre aspas. Soothe?”

Márcia Nabrzecki: “De estar sempre aprendendo coisas novas, ficar a par das mais recentes tendências nas áreas em que atuo e ver como as empresas interpretam e incorporam essas tendências.”

Luciana Helena Bonancio: “Além do que alguns colegas já citaram, uma das coisas que eu adoro é ser dona dos meus horários, poder trabalhar sábado e domingo e ir ao cinema na segunda ou terça, quando a entrada é mais barata e os shoppings estão vazios. Outra coisa é poder levar meu trabalho comigo para onde eu quiser ir.”

Silvana Ayub: “Não atuo profissionalmente, como os amigos aqui do grupo, há cerca de cinco anos…mas nunca deixei de traduzir. O que sempre gostei e me faz apaixonada pelo ofício é o aprendizado constante, os desafios de cada texto, a busca pela palavra mais adequada, a possibilidade de compartilhar informação, a teoria e a história da tradução. É uma delícia no matter what! :)”

Minha história: Paulo Noriega

Filho único de mãe mineira e pai gaúcho, nasci na cidade do Rio de Janeiro onde resido até hoje. Sem sombra de dúvida, boa parte do que eu sou profissionalmente devo agradecer a minha mãe, pois o gosto pela leitura, pela escrita e pelos idiomas estrangeiros foi incentivado por ela desde muito pequeno. No caso dos idiomas, especialmente a língua inglesa, meu contato inicial não poderia ter sido de forma mais lúdica e divertida: foi assistindo aos clássicos de Walt Disney, já que ela comprava as fitas em VHS dubladas e legendadas. Mal sabia eu que isso acabaria despertando a minha grande paixão anos mais tarde quando eu viria a decidir por seguir o caminho da profissão de tradutor profissional especializado na área de dublagem.

Meu gosto pela língua inglesa continuou a crescer no decorrer dos anos, tanto que me formei na Cultura Inglesa em 2007 e passei no exame PET da faculdade de Cambridge. Além disso, recebi uma boa base na língua francesa por conta da minha escola e sempre flertei com outros idiomas, fosse através de músicas ou pegando meus DVDS e vendo os filmes em outras línguas, mesmo aquelas nas quais eu não era fluente. Em paralelo com a paixão por outros idiomas, outro grande gosto cresceu junto comigo, ainda alimentado pela minha infância disneyana: o amor pela arte e pelo mundo da dublagem em si. Nunca me esqueço de como as interpretações dos nossos dubladores eram marcantes e como eu queria pertencer àquele mundo de alguma forma. No entanto, seria somente na faculdade que as peças iriam começar a se encaixar…

Durante meu primeiro ano cursando bacharelado em tradução na PUC-RIO, vi que havia um curso de extensão sendo oferecido pela própria faculdade sobre tradução para dublagem, e uma vez que essa modalidade não era contemplada na grade curricular, vi ali uma chance de aliar as minhas duas paixões. O curso ministrado pela tradutora e dubladora Dilma Machado foi uma grande experiência e ao final dele vi que, com certeza, eu havia me achado naquele mundo. Isso foi no ano de 2010. Em julho de 2012, foi quando recebi meu primeiro trabalho de tradução para dublagem e, desde então, nunca mais parei. Comecei a trabalhar em paralelo com a faculdade como freelancer e após me formar em 2014, continuo firme e forte na área.

Realizando um trabalho de formiguinha, consegui conquistar clientes tanto no Rio de Janeiro quanto em São Paulo e espero conquistar ainda mais! Há trabalhos dos quais me orgulho muito de ter dado a minha contribuição, uma vez que o mundo da dublagem não se limita apenas à tradução em si. É um trabalho de equipe no qual desde o tradutor até o último dublador que grava sua última cena dá o seu toque pessoal para que o produto saia da melhor forma possível. Aprendo muito com os diretores de dublagem com os quais trabalhei e continuo a trabalhar, pois é uma área tão orgânica e tão viva que a lapidação em prol de uma tradução cada vez mais afiada nunca cessa.

Em termos pessoais, posso dizer que a cada novo trabalho realizado, me sinto muito feliz por ajudar a recontar histórias de tantos personagens seja em um filme, um desenho animado ou uma série no nosso idioma. É uma sensação única e luto para que essa modalidade tradutória ganhe mais espaço e notoriedade no âmbito acadêmico-tradutório, pois se comparado aos países europeus, ainda há muito a se investigar sobre essa modalidade em nosso país e até sobre a historiografia da dublagem brasileira em si.

Nessa militância, tive a oportunidade de me apresentar e poder falar mais acerca da minha profissão em faculdades tais como UERJ, UFF e UFRJ, de modo a mostrar aos alunos interessados no mundo da tradução, que existe mais uma área de atuação disponível para eles e que carece de profissionais qualificados e capacitados. Além disso, sinceramente espero que, ao compartilhar um pouco da minha experiência e falar sobre esse mundo que tanto amo, outros possam se encontrar nele, tal como eu me encontrei.

Paulo Noriega é carioca, tradutor do par de idiomas português-inglês e especializado no campo de tradução para dublagem. É bacharel em tradução pela faculdade PUC-RIO, com domínio adicional em cultura greco-romana.
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January Business Camp

(Republicação do blog O Jogo da Tradução, de Thiago Hilger)

Business Camp para Tradutores – Parte 1

Olá!

Hoje eu terminei de participar do January Business Camp, criado pela Marta Stelmaszak. Como o nome diz, ela criou em janeiro. Foi uma série de exercícios que deveriam ser feitos um pouquinho todo dia. Mas tudo em janeiro.

Confesso a vocês que eu enrolei muito, mas muito para concluir este “curso”. É claro, não é bem um curso, é uma série de posts no blog da própria Marta, com o objetivo de auxiliar tradutores a desenvolver e melhorar seus próprios negócios. Afinal, nós tradutores somos uma empresa de uma pessoa só, certo?

Eu demorei muito para fazer tudo, sempre tive algum impedimento. Principalmente a falta de tempo, tanto pelas traduções em andamento como pelo meu antigo emprego em tempo integral. Mas agora concluí, até que enfim. E como foi um aprendizado enorme para mim, que sou iniciante, acho muito importante compartilhar com vocês. Algumas coisas, é claro, já estão defasadas, mas vocês vão entender o propósito.

No momento eu imagino que o business camp não esteja mais público no blog da Marta, mas eu tenho os textos salvos. Eu estou esperando autorização dela para poder distribuir o material para quem quiser ou precisar. Minha intuição me diz que isso não vai acontecer, já que o material é todo dela, mas eu aviso vocês se for possível.

Como o business camp durou 30 dias, e eu fiz diversas atividades, é meio impossível explicar tudo aqui. Vou tentar resumir o que for possível, mas não sei ainda quantas partes esse post vai ter. Só para vocês terem uma ideia, vejam só quanto papel eu usei para fazer todos os exercícios:

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Enfim, vamos começar. No primeiro dia, a reflexão que a Marta propôs foi: em uma folha de papel, escreva na metade de cima tudo que você considera que houve de bom no ano anterior. Na metade de baixo, tudo que você considera que houve de ruim, à esquerda – e o que você pode fazer para mudar isso, à direita. A Marta propôs mais duas reflexões ainda. No verso da folha de papel, escreva na parte de cima o que você deseja para 2015. E depois imagine-se em primeiro de janeiro de 2016, e olhe para trás, para 2015, e analise o que ocorreu de bom. Escreva isso na parte de baixo.

Este exercício eu fiz ainda em janeiro. Não sei se agora, bem na metade do ano, ainda vai valer para alguém, mas por que não adaptamos e cada um que estiver lendo pode fazer isso em referência ao primeiro e ao segundo semestre de 2015?

Resgatando meu exercício, o que em 2014 deu muito certo foi principalmente decidir mudar de carreira, e tomar a iniciativa para que isso acontecesse. Tive também meus primeiros trabalhos remunerados como tradutor freelance e participei dos barcamps de tradução em Curitiba, e do PROFT em São Paulo. Aprendi a usar o OmegaT, fiz muito networking, guardei bastante dinheiro para meu processo de transição, que eu contei aqui, e fiz a consultoria de Mercado da Tradução, com a Patricia Franco, que eu recomendo sempre que posso.

Dentre o que não deu certo em 2014 para mim foi ter muito poucos clientes, e não ter recebido trabalho de nenhuma agência. Para mudar isso, minha ideia foi fazer contato com as agências, distribuir currículos e fazer mais networking. Essas coisas, é claro, estão em andamento ainda, mas eu já comecei a ter resultados. Outra coisa que considero que ficou faltando em 2014 foi ter mais experiência como tradutor. Não é algo que muda de uma hora para outra, então a solução é trabalhar, mais e mais, mesmo em trabalhos voluntários.

Entre o que eu desejei para 2015 na minha carreira, eu destaco: terminar este curso da Marta (feito!), deixar a antiga empresa antes de abril (feito!), ler um livro sobre tradução, participar do congresso da ABRATES (feito!), conseguir chegar à primeira página de tradutores em português do Brasil no TED, obter trabalhos usando o Proz, comprar um novo notebook, participar da LOCJam (feito!), fazer legendas de séries no Netflix (feito!), e obter mais e mais clientes (esta parte eu voltarei nos próximos dias).

Ao me imaginar em 2016, olhando para trás, vejo que em 2015 eu fui a muitas conferências de tradutores, cheguei à primeira página do TED, fiz legendas de filmes e seriados bastante conhecidos, e me vi obtendo no mínimo 2 mil reais por mês com a tradução.

E vocês? Se fossem fazer este exercício, o que sairia?

Eu volto em breve com mais detalhes do business camp. Muito desses objetivos para 2015 vão ser revisitados ainda. Esse é um dos pontos altos do business camp, nada é fixo, é tudo para nos ajudar a entender melhor a nós mesmos.

Até breve!

Pergunta ao profissional: antes e depois

escherHá algum tempo discutimos a possibilidade de trazer os resultados das discussões do grupo para esta página. A ideia é beneficiar aqueles que não puderam comparecer aos encontros, talvez até por não saberem ainda de sua existência.

Assim, decidimos replicar aqui uma atividade que fizemos algumas vezes: a Pergunta ao profissional. Ainda que baseadas numa atividade simples — responder perguntas que ilustrassem aspectos únicos da experiência e prática de cada um — foram trocas de informação muito ricas e que achamos que valeria a pena compartilhar.

Funciona assim: qualquer pessoa pode responder à pergunta apresentada, usando a seção de comentários logo abaixo. Cada resposta que aparecer será incorporada à publicação.

A pergunta de hoje então é: conte algo que você acreditava em relação à prática da tradução ou interpretação antes de entrar na profissão e que hoje você sabe que não é como você pensava.

Thiago Hilger: “Um mito da tradução que eu só identifiquei depois de me tornar tradutor é que a maior demanda de tradução é do segundo idioma para o idioma nativo, e não o contrário. Antes de traduzir profissionalmente, eu acreditava que o mais importante era ter meu inglês perfeito, e só depois percebi que, dada a demanda, é meu português que precisa ser perfeito. Outra coisa que eu não sabia era sobre o uso das CATs. Eu achava que tradutor só usava o Word e dicionários.”

Márcia Nabrzecki: “Eu tinha concepções errôneas que muitos leigos têm, por, na verdade, jamais ter pensado muito no assunto: tradutor trabalha com literatura ou filmes de cinema (e só); o tradutor é quem define o título (às vezes absurdo) dos filmes que passam no cinema; o tradutor tem acesso ao filme que está traduzindo (então, se há um erro grosseiro na tradução é porque não se deu ao trabalho de ver a cena), e por aí vai…”

Sheila Gomes: “Eu não tinha noção de quantos programas existem para auxiliar o trabalho do tradutor, e confesso que achava muito chata a tradução direta nos documentos, além de a correção ser arriscada, pois não é raro deixar passar erros por cansaço, por exemplo. Outra coisa que me chamou a atenção foi o apoio dos grupos T&I, sempre há gente disposta a ajudar e compartilhar conhecimentos, tanto on-line como presencialmente. Quem já participou de congressos e outros tipos de encontro sabe como é empolgante ter essas oportunidades de aprendizado e de conhecer tanta gente interessante.”

Minha história: Carolina Walliter

Meu primeiro contato com a tradução foi aos 14 anos, quando resolvi botar um fim à minha frustração com a “demora” do quinto volume de Harry Potter em português. Com um final de semana de ralação para traduzir algumas páginas de A ordem da fênix, descobri que essa coisa de traduzir era difícil à beça e nunca mais disse um “ai!” para reclamar dessa suposta lentidão na publicação das minhas séries estrangeiras favoritas. No entanto, encarei a dificuldade em traduzir literatura como uma oportunidade para começar a ler em inglês e, com isso, acabei ganhando a fluência necessária que me abriu muitas portas no futuro. A tradução em si, porém, caiu no esquecimento e só foi ressurgir anos depois, em meio a uma das muitas crises de identidade que a faculdade de História me proporcionou.

Pois é, sou de humanas da cabeça aos pés: me formei em História, mas todo semestre ficava na maior dúvida sobre largar a faculdade. Apesar de toda a paixão e identificação com a disciplina, conforme avançava nos períodos, mais certeza tinha que as possíveis opções de exercício da profissão não me fariam plenamente feliz. Assim, durante um final de semana trancada em casa em meio a textos e fichamentos, resolvi relaxar folheando uns trechos daquele livro do Harry Potter e lembrei da minha tentativa meia-boca de traduzi-lo. Bazinga! Um curso de tradução! Será que isso existe? Tradução é uma carreira, não é mesmo?

Com uma rápida pesquisa na internet descobri um curso profissionalizante em Ipanema; cinco minutos depois meu teste para admissão no curso de formação de tradutores estava agendado junto com a prova prática para o curso de formação de intérpretes. Duas semanas depois começava, feliz e animada, minha dupla jornada oficial no mundo tradutório como aluna do Brasillis. Foram quase dois anos de sábados inteiros dedicados à tradução e à interpretação, onde aprendi muito e amadureci horrores, conhecendo um universo bem diferente daquele mundo romantizado que imaginava sobre ser tradutora (aquele ar blasé de livros, intelectualidade, cheirinho de café e uma máquina de escrever vintage, sabe?) e intérprete (Nicole Kidman entreouvindo conspirações políticas na sede da ONU). Fui apresentada a um universo de trabalho complexo, diferente de tudo que conhecia, repleto de desafios que me instigaram a continuar nesse caminho.

Assim, aos vinte anos, tinha dois diplomas na mão, uma graduação em História já na metade e, obviamente, zero experiência. Assim, me lancei no mercado trabalhando em agências, onde ganhei experiência tanto na interpretação quanto na tradução. Os dois anos e meio que passei como linguista in-house foram verdadeiros laboratórios, onde entrei em contato com os mais variados tipos de texto, aprendi a usar CAT tools, compreendi o processo de gerenciamento de projetos de tradução e fiz muitos contatos profissionais, alguns com os quais ainda mantenho parcerias e grandes amizades.

Entretanto, só em 2013 que fui entender a importância dos rumos que a minha vida vinha tomando com a tradução/interpretação. Eu trabalhava com o que gostava, mas não dentro das condições que gostava; meu esgotamento físico e mental já era latente e minha insatisfação se generalizava. Sabe aquela sensação de que a vida espera de você muito mais que 40 horas religiosamente trabalhadas? Pois é. Aproveitei a deixa de alguns colegas que migraram para o esquema home office e me aventurei nessa também. E não me arrependi nem um pouco: além de trabalhar em condições privilegiadas (poupo energia com deslocamento, meu escritório tem o meu jeitinho e é ergonomic-friendly, etc.), desde então pude ter tempo para cuidar de mim por inteiro, me conhecer melhor e justamente perceber que as minhas ocupações profissionais são parte de um todo muito mais importante: a minha vida, que precisa e merece ser bem vivida. Assim, com pouco mais de um ano já no circuito self-employed, resolvi aproveitar o dinamismo de ser uma profissional virtual e parti para uma nova aventura: o nomadismo digital. Em meados de 2014 lancei o Pronoia Sem Fronteiras, meu projeto de vida pessoal-profissional, em Buenos Aires, onde morei e trabalhei em um coworking space por três meses, mesclando o prazer de viajar e conhecer novos lugares com a rotina de trabalho.

O dinamismo da vida autônoma permitiu que eu me engajasse em projetos paralelos que também me proporcionam muita satisfação e crescimento pessoal: hoje, além de traduzir e interpretar, sou revisora e colaboradora da Revista Capitolina e participo da Rede Méier+, uma rede colaborativa de revitalização da Zona Norte carioca.

Além da flexibilidade de trabalho, a tradução e a interpretação são ofícios que mexem com meu perfeccionismo e autocrítica, dosando-os de forma que não sejam elementos da minha ruína, mas componentes de um profissionalismo crítico e sincero. No mais, estou exatamente onde queria estar: no presente, vivendo, não meramente existindo, realizada e fazendo o que gosto. E claro, se em alguma das minhas andanças eu esbarrar com a Lia Wyler, faço questão de me desculpar!

Carolina Walliter é tradutora e intérprete no par inglês e português, com ênfase em projetos nas áreas de marketing empresarial, recursos humanos, TI, transcriação e segurança do trabalho. Escreve sobre o cotidiano do tradutor no Pronoia Tradutoria, onde também divulga suas impressões empíricas sobre o fenômeno do coworking.

Minha história: Sofia Pulici

Quando chegou aquele momento no colegial de decidir qual faculdade fazer, eu estava perdida. Eu sentia que havia uma certa torcida para que eu fizesse administração de empresas para ajudar no negócio do meu pai. Não era algo que me atraia. Na época, após anos de estudos de língua inglesa, eu fazia aulas de conversação de inglês e, conversando sobre o assunto na aula, o professor sugeriu: Por que você não presta hotelaria? É uma carreira nova e promissora, e, de certa forma, é administração, mas de hotéis, não de empresas. Essa fala influenciou minha decisão e, assim, escolhi hotelaria; eu amava viajar e me hospedar em hotéis e comer em restaurantes, então aquilo parecia certo. No meio do caminho transferi o curso para uma faculdade em Sydney, Austrália, e me formei na terra dos cangurus. Trabalhei com hotelaria por alguns anos, mas faltava algo. Certa vez, em uma entrevista num hotel, tive de responder aquela pergunta clássica: Onde você deseja estar profissionalmente daqui a dez anos? Eu não sabia o que dizer, pois não me via no mercado hoteleiro no futuro.

No entanto, foi a hotelaria que me colocou em contato pela primeira vez com o mundo da tradução. Em 2004, numa empresa hoteleira na qual eu trabalhava no Brasil, precisávamos que o sistema fosse traduzido ao português. Fui escolhida pra começar a tradução. A tarefa foi fluindo e aquilo tudo foi me fascinando. Foi então que descobri que o meu tempo na hotelaria estava acabando. Mas, espera! Eu ainda não estava segura de que seguiria a carreira de tradutora. Aliás, nem sabia muito sobre a profissão. Num momento de transição, fui trabalhar de assistente administrativa bilíngue. O presidente da empresa era inglês e, então, começaram a aparecer e-mails, textos e matérias de jornais e revistas para eu traduzir. Foi aí que me deu o “click”. Eu queria parar qualquer outra atividade do escritório para traduzir. Isso me deixava viva, me instigava, me alimentava. E, no começo de 2006, decidi que realmente queria ser tradutora profissional. Fiz um estágio numa agência de tradução por uns meses, fui pesquisando sobre trabalhar em casa, me esquematizando, e, no meio do mesmo ano, bati o martelo e comecei no esquema “home office”, trabalhando integralmente como tradutora freelancer. Meus primeiros clientes? A empresa hoteleira na qual trabalhei e um hotel cinco estrelas, além de uma empresa que funcionava no mesmo prédio onde atuei como assistente bilíngue. Contatos e bons relacionamentos… tive sorte e foi assim que começou.

Anos mais tarde, em 2009, achei que eu precisava estudar novamente. Sentia que me faltava teoria, até mesmo para justificar algumas das minhas escolhas tradutórias. Como já conhecia o sistema de ensino australiano, decidi voltar a estudar lá. Infelizmente não era possível eu fazer um curso de tradução, pois as faculdades não ofereciam nenhum programa com português, por isso optei por um programa interessante de linguística aplicada. A coordenadora do curso, ao saber que minha primeira opção era tradução, me deixou fazer matérias genéricas (sem língua específica) do mestrado de tradução, como teoria e técnicas de tradução e interpretação. Me formei, me tornei tradutora credenciada pela NAATI, órgão que reconhece tradutores profissionais na Austrália, e lá trabalhei como linguista e tradutora, o que foi ótimo para eu ver e entender como funcionam outros mercados tradutórios, nem sempre tão dinâmicos como o brasileiro.

Ainda há muito o que percorrer nessa trajetória, mas quando olho para o caminho que já trilhei, penso: Lindo! Consegui, no final das contas, colocar tudo num pote só: estudar um pouco da teoria que queria, envolver hotelaria no meu trabalho, sendo essa uma das minhas áreas de especialização, e ainda ter o conhecimento e o título de linguista. Se hoje me perguntarem onde desejo estar profissionalmente daqui a alguns anos, a resposta é clara: traduzindo, sempre traduzindo!

 

Sofia Pulici é linguista e tradutora nos pares inglês <> português e espanhol > português, especializada em turismo e hotelaria, mas atua também em outras áreas (médica e pigmentos). Reside atualmente em Rio Claro, interior de São Paulo, mas esse status está sempre mudando.
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