Minha história: Sheila Gomes

Quando ainda vivia em Joinville/SC (onde nasci e morei até os 41 anos), era tradutora em uma empresa de TI. Mas não estava satisfeita nem com o desafio nem com o salário, que complementava ensinando e traduzindo por conta própria. Venho de uma família de empreendedores, e já tive mais de um negócio próprio, então resolvi investir na carreira de tradutora e fui atrás de informações.
Decidi ser mais ativa em fóruns, comecei o meu próprio blog, sempre que tinha oportunidade oferecia ajuda aos colegas e participava de eventos on-line e presenciais.

E foi graças à disposição das pessoas que compartilhavam seu conhecimento na Internet e também nos encontros que aprendi o que precisava para me “assumir”, sair da empresa e virar tradutora independente em tempo integral. Fui construindo minha carreira, e o primeiro grande sonho realizado por conta disso foi a mudança para Curitiba, há um ano e dois meses.

Fiz alguns bons amigos no meio, e fui convidada para ser uma das moderadoras do grupo Tradutores / Intérpretes no Facebook. O grupo tem um fluxo de entrada constante de novos membros, muitos deles iniciantes, com dúvidas sobre a carreira. E também de profissionais já estabelecidos, com muita boa vontade em ajudar. A conversa é rica, mas o modelo de interação do Facebook não é muito favorável e havia muita repetição das mesmas dúvidas.

Tive então uma ideia para concentrar as respostas à dúvidas, falei com alguns colegas no grupo, que toparam a empreitada e juntos formamos o TIME – Tradutores e Intérpretes Multiplicando Experiências, com o qual até hoje eu organizo apresentações gratuitas, feitas por membros do grupo, sobre temas ligados à profissionalização do tradutor.

O TIME mostra que há vários caminhos profissionais possíveis e coloca iniciantes e profissionais já estabelecidos em contato direto, o que traz benefícios a todos os envolvidos, fazendo com os iniciantes se sentissem mais seguros e reforçando o caráter colaborativo do grupo. Como organizadora, assisti a todas as apresentações e tive contato com um capital de conhecimento de valor incomparável e que motivou uma iniciativa de diversificação que acalentava já há algum tempo: o Multitude.

Não poderia estar mais satisfeita com a direção que a minha carreira tomou, tudo graças ao envolvimento com as pessoas nos grupos e eventos da área.

Sheila Gomes, é tradutora de inglês e português e mora em Curitiba, PR. Especializada em localização de software, sites e jogos.
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Minha história: Lorena Leandro

Ano 2000: o vestibular estava às portas e eu, decididamente, queria ser psicóloga. Talvez enveredasse pela área da terapia ocupacional, ou então me dedicasse à psicologia organizacional. Era uma boa hora para me informar sobre essas e outras vertentes da profissão!

Com um manual do estudante em mãos, li não apenas sobre psicologia, mas sobre várias outras ocupações. Foi só quando fechei o manual que meu cérebro processou uma informação que, até então, parecia irrelevante: tradução é uma profissão?!!

Abri o livro novamente e li sobre o que fazia um tradutor. Reli. Reli novamente, com perdão da redundância. E foi assim que a decididamente psicóloga virou, decididamente, tradutora. Naquele momento percebi que havia sido tradutora a vida inteira: desde meus estudos autodidatas em inglês, passando pela mania de andar com um dicionário bilíngue pela casa, até meu gosto pelos textos e pela gramática. Entre muitas outras coisas.

Prestei o vestibular, cursei Letras com habilitação em Tradução, fiz estágios, me formei. Não deixei um dia sequer de gostar daquilo tudo. Mas, ao sair da faculdade, deu medo. Foram quatro anos aprendendo sobre tradução, nenhum aprendendo sobre como funcionava o mercado. Achando que não tinha o perfil para ser tradutora autônoma, lá fui eu estudar jornalismo.

No curso, conheci meu futuro marido, mas meu coração ainda batia forte pela paixão antiga, a tradução. Durante dois anos, continuei lendo e pesquisando sobre a profissão em blogs, fóruns, listas e redes sociais. Sim, foram dois anos para perder o medo, desistir do jornalismo e abraçar de vez a tradução.

A essa altura, eu estava num emprego que não tinha nada a ver comigo e pagava muito mal. Comecei a procurar por oportunidades. Logo encontrei uma empresa na minha cidade que precisava de uma tradutora para um funcionário britânico. Consegui a vaga, minha porta de entrada para o mundo da tradução. De lá, uma chance de ser tradutora interna numa empresa em São Paulo, onde aprendi muito e de tudo. E, dali, meu pulo para a vida de freelancer.

Nesse meio tempo, entrei e saí do mundo das aulas de inglês, fiz muito networking, participei de congressos, criei meu blog, fiz projetos em parceria com outros tradutores, conquistei clientes, encontrei um nicho de especialização. Uma carreira sendo construída com muita paciência, dedicação e esforço. Ainda estou longe de me considerar veterana, mas quanta coisa mudou desde que eu era uma iniciante cheia de dúvidas e medos! A paixão, enfim, virou amor para a vida toda.

Lorena Leandro é tradutora e revisora no par EN-PT. Trabalha especialmente com as áreas de TI, marketing e business. Desde 2010 escreve o blog Ao Principiante, dedicado a tirar o medo de tradutores iniciantes. =) Onde me encontrar:
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Minha história: Jorge Rodrigues

Meu primeiro contato com o estudo de idiomas foi aos onze anos, na quinta série do ensino fundamental, em Porto Alegre. Era aquele inglês meia-boca de escola pública, bem mais ou menos, e que eu nem imaginava na época que seria o início da minha história de amor com a profissão que acabei por escolher: a de tradutor e intérprete. Após esse primeiro contato, nada de muito significativo aconteceu até 1978, quando, aos 14 anos, comecei o curso de inglês do Instituto Cultural Brasileiro Norte-Americano, ainda em Porto Alegre. Fiz o curso completo, até o nível avançado, com ênfase em gramática, literatura inglesa e tradução.

Foi nesta última disciplina do curso que tive as primeiras aulas de técnicas de tradução, com um professor que havia estudado em uma das primeiras turmas do curso de formação de tradutores e intérpretes da Associação Alumni, que dispensa apresentações. Em seguida, prestei exames e obtive os meus certificados de proficiência em inglês: CPE (Michigan) e CPE (Cambridge).

Simultaneamente ao aprendizado de inglês, estudei francês na Aliança Francesa de Porto Alegre, italiano na Sociedade Italiana do Rio Grande do Sul e alemão no Instituto Goethe. Conclui os cursos de francês e italiano, mas não o de alemão: foram apenas dois semestres, o suficiente para adquirir apenas noções muito básicas da língua.

No início da minha vida profissional fiz algumas traduções ocasionais e fui professor em uma escola especializada em inglês para negócios e cursos de imersão. Dois anos depois, com três sócias, abri a minha escola de idiomas. Essa primeira aventura pedagógico-empresarial durou dois anos e meio, com altos e baixos e relativo sucesso.

Em 1992 minhas sócias e eu fechamos a escola e partimos para outros desafios profissionais. O meu foi tentar a sorte na Europa, em Lisboa, onde morei por quase um ano. Foi lá que, após um curto período como professor de inglês, fiz o que considero como o meu primeiro trabalho verdadeiramente profissional de tradução: participei de uma equipe que traduziu uma versão do Corão do inglês ao português.

A equipe, no caso, era composta por três pessoas. O editor, um português residente em Leiria, um sacerdote muçulmano, e eu. O trabalho era coordenado pelo editor, o sacerdote traduzia os versos sagrados do Corão (que não poderiam ser traduzidos por um “infiel” – eu, no caso) e eu traduzia as notas de rodapé que contextualizavam e explicavam os versos. Um trabalho interessantíssimo e o meu batismo de fogo! Outro ponto interessante foi o sistema de trabalho estabelecido pelo editor, que já era incomum na época e seria inimaginável hoje em dia. Ele enviava pelo correio algumas páginas do Corão em inglês, eu as traduzia a mão (ele fazia questão do texto manuscrito) e enviava as traduções para a editora pelo correio. Poucos dias depois eu recebia mais páginas do livro para traduzir e o pagamento pelas traduções entregues na correspondência anterior – em dinheiro vivo, cédulas mesmo, no envelope com o material novo. Assim passaram-se vários meses, até a conclusão do trabalho.

Naquela época, aproveitei algumas viagens curtas que fiz a Madri e Sevilha para estudar e aprender espanhol como autodidata. Praticamente decorei uma gramática de espanhol que eu havia comprado pouco antes de deixar o Brasil e atazanava até o limite a paciência de alguns dos meus amigos espanhóis sempre que tinha dúvidas. E assim, ao voltar ao Brasil, eu já havia assimilado mais um idioma.

No final de 1992 voltei ao Brasil para tentar a sorte em São Paulo. Trabalhei como professor de inglês em duas escolas de idiomas por alguns meses, até que, em julho de 1993 comecei a trabalhar como autônomo para uma agência de traduções chamada Styllus Traduções Comerciais. Foi lá que dei os primeiros passos como tradutor profissional em tempo integral, sob a orientação do Eduardo Tavares, que época era o tradutor-chefe da Styllus. Um grande tradutor e uma pessoa extraordinária, que foi muito importante no meu início de carreira. O melhor mentor que um iniciante poderia ter tido. Anos mais tarde tive o privilégio de contar com ele como colaborador e meu braço direito: trabalhou comigo por algum tempo, antes de se mudar para uma cidadezinha no interior de Minas Gerais.

Alguns meses mais tarde, fui contratado pelo Escritório de Traduções Aildasani, o embrião da atual Fidelity Translations. Aquele período de um ano e quatro meses como tradutor interno foi muito importante para a minha formação profissional. Aprendi muito com eles e só tenho boas lembranças daquela época.

Após essa experiência, no início de 1995 deixei a Aildasani para trabalhar por conta própria e começar uma pequena empresa de traduções, que administro até hoje. Seguiram-se quase vinte anos de muito trabalho e uma busca constante por aprimoramento profissional, com alguns períodos bons e outros nem tanto, coroados por algumas conquistas das quais me orgulho: os credenciamentos como tradutor e intérprete da Justiça Federal, tradutor do Tribunal de Contas da União e, mais recentemente, como perito do Tribunal de Justiça de Sergipe. E no final de 2013, após aprovação em concurso público em Sergipe, tornei-me tradutor juramentado (TPIC) de inglês e português.

Mas a minha busca pelo conhecimento continua, tanto que no início de 2013 decidi voltar à universidade para preencher algo que sempre considerei como uma lacuna na minha formação: a falta de embasamento nos aspectos teóricos da profissão. Encarei um novo vestibular e hoje estou cursando tradução e interpretação na Universidade Católica de Santos. Virei universitário da segunda idade e meia e estou adorando a experiência. Se tudo correr bem, a graduação será no final de 2015.

Enfim, enquanto tiver saúde e disposição, vou continuar fazendo o que cada vez mais amo fazer: ler, estudar, pesquisar e trabalhar como tradutor e intérprete, sempre lutando para pelo menos tentar sempre melhorar como ser humano e como profissional.

Agradeço à Sheila pelo convite para contar a minha história aos leitores do Multitude, deixo os meus dados de contato e fico à disposição, caso possa ser útil de alguma forma aos colegas.

E-mail: jorgerpr@uol.com.br | Skype: jorgerpr | Facebook | LinkedIn

Minha história: Jéssica Alonso

Ao escolher o curso de Letras na USP eu acreditava que ele me traria as bases necessárias para que fosse possível seguir a tão sonhada carreira de tradutora. Doce ilusão. Embora o curso tenha sido ótimo e nele eu tenha começado a aprender alemão (idioma com o qual trabalho com bastante frequência e que me abriu muitas portas) e aprofundado meus conhecimentos de literatura (de que gosto muito), as poucas aulas de tradução de alemão serviram apenas como um tira-gosto sobre o fazer tradutório (um tira-gosto excelente graças às aulas do querido João Azenha).

Como já era formada em ballet clássico, cursava maitre de dança e dava aulas de ballet e jazz havia dois anos, segui por bastante tempo esse caminho: estudava Letras e ensinava as pequenas bailarinas em diversas escolas de ensino regular. E, durante todo o período acadêmico, mantive-me afastada da tradução lecionando dança em escolas, sendo recepcionista trilíngue da Câmara de Comércio Brasil-Alemanha e professora auxiliar no currículo de imersão em língua alemã da Educação Infantil de uma grande escola de São Paulo.

Ao me formar, porém, decidi que era uma boa hora para aprofundar meus conhecimentos de alemão, fator que eu sabia ser importante para obter maior sucesso na tradução do idioma. Assim, morei um ano como au pair em Düsseldorf, na Alemanha, na casa de uma família alemã, cuidando das crianças e estudando o idioma.

Ao retornar para o Brasil em agosto de 2011, estava decidida a entrar de cabeça nas traduções. Ainda sem conhecer muito sobre esse fascinante mundo, passei em um teste para ser revisora interna de uma agência de tradução em São Paulo, oportunidade ideal para começar a conhecer e entender como as coisas funcionam no mercado. Após um ano, o trabalho de revisão no escritório deu lugar às traduções feitas em casa e foi então que entrei no grupo Tradutores e Intérpretes do Facebook; e ele me abriu os olhos. Com tanta gente experiente e disposta a ajudar, pude de fato compreender o mercado, os valores, os processos. Descobri a infinidade de blogs que abordam as diferentes facetas da tradução e com eles aprendi muito. Passei a integrar o quadro de tradutores de agências do Brasil e do exterior.

Olhando para meu percurso hoje, em abril de 2014, fico contente com o que já conquistei: larguei as aulas de alemão (as de dança não, são minha outra paixão!), conheci pessoas incríveis graças à participação em eventos da área e ao envolvimento com a moderação do grupo do Facebook, acabei de concluir a pós-graduação e obter o título de especialista em Tradução de Inglês e faço legendagem – uma vontade antiga que pôde se concretizar ano passado. Porém, olhando para frente, ainda tenho muito para alcançar: a tão sonhada tradução literária, o domínio completo de algumas ferramentas essenciais ao tradutor, o aperfeiçoamento sempre contínuo que é necessário. Por isso, a vontade de aprender e continuar conhecendo gente competente e disposta é enorme. Quem sabe a gente não se encontra em algum evento tradutório para trocar figurinhas sobre tradução, alemão… e dança?

Jéssica Alonso é tradutora de inglês e alemão e atua principalmente nas áreas farmacêutica, automobilística e jornalística. Reside em São Paulo – SP.
E-mail: jessicatradutora@gmail.com | ProZ

Minha história: Giovanna Lester

E foi assim que tudo começou.

O cruzeiro foi desvalorizado mais uma vez. A Kontik Franstur demitiu um catatau de funcionários e eu estava entre eles. Era abril de 1980.

Eu tinha acabado de receber meu diploma de professora de inglês como segundo idioma e tinha debaixo do braço as experiências como intérprete e tradutora no escritório. Não era muito, mas atraiu a atenção de minha amiga e depois também mentora, Luíza que me convidou para ajudá-la com uma tradução. Meu primeiro trabalho pago no ramo.

Topei sem nem saber o que era – o bolso vazio gritava mais alto que a razão.

Chego a nosso escritório de mentirinha – sua sala de jantar. Na mesa sentava imposta uma Olivette Lettera elétrica. Será que alguém ainda se lembra da daisy-wheel removível, fita com corretor, memória. Peraí, aqui é a minha que está falhando. Não havia memória.

Pois é. Errou, tem que apagar letrinha por letrinha usando a fita corretora que não dava sugestão de novas palavras, nem fazia observações gramaticais ou de estilo. E depois, redatilografar.

Foi com a Luíza que descobri sight-translation. Ela lia em inglês o texto originalmente escrito em português, enquanto eu datilografava. Depois era a minha vez. Foram 500 páginas (contagem do original) de um grant request de uma universidade paulista de renome à Kellogg Foundation.

Assim que, na verdade, tive dois começos. Só que um foi mais marcante.

De lá para cá, foram 34 anos. Aprendi muito e continuo aprendendo – este é um dos aspectos de nossa profissão que mais me atrai.

Já fiz de tudo um pouco como tradutora e intérprete. Algumas coisas me marcaram mais que outras: ser certificadora para a American Translators Association (ATA) na direção português-inglês, cofundadora e presidente (2011-2012) da nova Seção da ATA na Flórida que nasceu na minha sala de jantar (2009), há pouco trabalhei no World Economic Forum (inglês<>português<>inglês). Há também as menos glamorosas: fazer interpretação me debruçando sobre cadáveres para melhor descrever procedimentos cirúrgicos, cirurgias ao vivo por transmissão remota, casos de imigração por telefone e ao vivo…

É muita história. E ainda há muita para criar.

Giovanna Lester é autora, tradutora e intérprete no par inglês<>português e reside em Pinecrest, Flórida (EUA).
LinkedIn | Twitter: @cariobana

Minha história: Fernando Campos Leza

Eu não vou lhes contar a história de Hans Castorp, mas uma coisa eu tenho em comum com esse personagem: nunca imaginei que minha viagem (na tradução) demoraria tanto tempo. Minha experiência como tradutor teve início em 1998, quando residia em Berlim. Lá conclui minha graduação em Filosofia, iniciada na Espanha e que, graças ao Erasmus (o programa europeu de intercâmbio universitário, não o filósofo), cursei um ano na Escócia e o último em Berlim.

Não sabia bem o que fazer após cursar Filosofia. Por isso, devido ao meu bom conhecimento de idiomas e por ter gostado da minha experiência na tradução, decidi investir nesta carreira. Mudei-me para Paris, fui aprovado nos exames de admissão da Escola Superior de Intérpretes e de Tradutores (ESIT), onde em 2004 conclui estudos de graduação e pós-graduação. Desde então, dedico-me exclusivamente à tradução profissional, atividade que combino com a revisão de textos em espanhol e com a interpretação de conferências.

Dez anos se passaram, e muitas coisas. Agora moro em Brasília e possuo uma pequena empresa de tradução. Gosto da aventura de ser um pequeno empresário e de continuar evoluindo na carreira. Muitos anos depois de ter começado a traduzir, por pura casualidade, estou bem estabelecido profissionalmente. Tenho bons e exigentes clientes — principalmente organismos internacionais, tanto aqui em Brasília quanto em Genebra e Washington — que valorizam a qualidade de nosso trabalho. E tenho a sorte de gostar do que eu faço.

Olhando para trás nesses anos de carreira e pensando nos colegas iniciantes, gostaria de identificar alguns aspectos que me ajudaram na profissão:

A formação em tradução é importante, pois permite aprender a traduzir antes de ser pago para isso. Na universidade, desenvolvemos o “reflexo do tradutor“, uma mosca da desconfiança atrás da orelha e um instinto para encontrar soluções aos problemas de tradução.

Há muitas coisas, porém, que não se aprende na faculdade e para isso é essencial participar de listas e fóruns de tradutores, para aprender sobre programas, recursos, tarifas, ideias para o negócio, etc.

É preciso investir: gasto, sem hesitar, em dicionários, livros sobre a língua espanhola e outras matérias, softwares, congressos, cursos e recursos.

É bom conhecer os seus limites. Desde o início impus-me a condição de traduzir somente para o espanhol, minha língua materna, devido à forte convicção de que nunca me expressarei em outra língua tão bem quanto na minha língua materna. Acredito que isso contribui para a qualidade dos meus textos.

Aprendi também (e demorei a aprender) que nós, tradutores independentes, somos empresários, e que para ter algum sucesso é preciso atuar como empresário. Aprendi isso no Empretec, um seminário organizado pelo Sebrae.

É necessário continuar aprendendo sempre e é bom compartilhar os nossos conhecimentos — nos sites, em fóruns online, em cafés com colegas, em congressos, etc.

Tenho certeza de que outros tradutores experientes dariam conselhos semelhantes.

Fernando Campos Leza é tradutor e intérprete, reside em Brasília e trabalha nos seguintes idiomas: espanhol, português, inglês, francês e alemão.
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Minha história: Fernanda Silveira Boito

Vou contar uma breve história que talvez possa animar muita gente que está começando agora. Não que eu seja uma tradutora com uma carreira de muitos anos, mas acho que as poucas histórias que tenho para contar podem servir de inspiração.

Quando criança, eu era extremamente curiosa e inconformada. Nunca estava satisfeita em perguntar, eu pesquisava para achar as respostas e, muitas vezes, acabava inventando uma história sobre o que eu tinha aprendido. Fazia listas que viravam resumos que viravam livros. Quando precisei escolher o curso que faria na faculdade, transitei por vários caminhos. Fui das Artes Cênicas à Filosofia, do Jornalismo às Relações Internacionais. E acabei fazendo Letras. Com bacharel em Tradução.

Eu nunca sonhei em ser tradutora. O meu sonho sempre foi trabalhar escrevendo, pesquisando, refletindo, fazendo escolhas. Durante a faculdade, pensei em parar várias vezes. Mas ao mesmo tempo, sempre busquei entender como funcionava essa tal de tradução, pesquisando e buscando trabalhos. Nunca esqueço o meu primeiro trabalho remunerado: a versão de um artigo científico falando sobre a folha do pepino. Me matei e ganhei quase nada. Depois, descobri as agências. Comecei ganhando poucos centavos por trabalhos que fazia à noite quando chegava da escola de inglês onde eu dava aula. Ouvi vários “nãos”.

Mas a criança inconformada queria mais e foi fazer mestrado.

Resolvi pesquisar sobre legendagem e me apaixonei. Continuei com as agências que já eram outras e pagavam melhor e com as aulas de inglês que já não davam mais tanto prazer. O mestrado foi tomando forma e seguindo seu caminho junto com outras especializações, congressos e encontros de tradutores onde encontrei pessoas inspiradoras. Mesmo gostando de tudo o que encontrava no mundo da tradução, a grama dos vizinhos sempre era mais verde e eu ainda pensei em desistir. Tinha parado de dar aulas de inglês, não conseguia clientes e não tinha um fluxo de trabalho regular. Fazia dezenas de testes, mandava centenas de e-mails e nada.

Até que as coisas começaram a acontecer.

Comecei a trabalhar em uma editora como tradutora e revisora. E aquele trabalho era exatamente o que eu queria. Eu não sabia que queria ser tradutora, mas de repente me vi sentada em frente a um computador fazendo exatamente aquilo que sempre quis fazer: trabalhar escrevendo, pesquisando, refletindo, fazendo escolhas. As respostas dos testes começaram a aparecer. Alguns com bons resultados, outros nem tanto. Os primeiros filmes vieram, as traduções técnicas e o feedback positivo também. As indicações de clientes trouxeram outros clientes e o trabalho foi aumentando.

Hoje, cada dia mais eu vejo os resultados da minha curiosidade e teimosia, das escolhas que fiz e das atitudes que tomei. A criança curiosa e inconformada encontrou o seu espaço. E um dos melhores sentimentos que tenho é poder dizer que estou cheia de trabalho. Cheia de tradução.

Fernanda Silveira Boito é tradutora de inglês e português, residente em Maringá. É licenciada em Letras-Inglês e Bacharel em Tradução e mestre em Letras (Tradução) pela Universidade Estadual de Maringá (UEM). Trabalha com tradução técnica e legendagem.
E-mail: fernandab@dentalpress.com.br | Skype: ferboito

Minha história: Danilo Nogueira

Foi uma das maiores humilhações que já sofri. Depois de dois anos e meio de esforços e sofrimentos, tive de passar para frente minha franquia Fisk em Porto Alegre e voltar para São Paulo. Não nasci para aquilo. Voltei com uma mão na frente e outra atrás e fui morar de favor na casa do sogro que, aliás, me recebeu muito bem. Isso foi em 1970.

Aqui, continuei na Fisk, de novo como professor, mas sabia que aquilo não era bom, porque, entre primeiro de dezembro e carnaval, não havia serviço e, portanto, não se ganhava nada.

Um dia, na secretaria da escola, me perguntaram se eu queria fazer umas traduções. Topei na hora. Já tinha feito traduções mais de uma vez na vida e não me dado de todo mal. Mesmo que tivesse, do jeito que a coisa andava, era capaz de aceitar serviço até de trapezista. Mas era um negócio da China: quatro horas por dia, de manhã, cinco dias por semana, com 50% de adicional de “aula externa”. Qualquer um que tenha ensinado em curso livre de línguas sabe que isso não se recusa.

A empresa era a Arthur Andersen, naquela época a mais orgulhosa entre as firmas de auditora. Foi lá que aprendi essas coisas de contabilidade e finanças, impostos e direito societário. Virei especialista e escravo de minha especialidade. Até hoje, é o que mais faço.

Quinze dias depois, liguei para a Editora Atlas, oferecendo meus serviços. Disse que traduzia para a Arthur Andersen e, com isso e um teste pequeno, me contrataram.

Claro que eu não tinha ideia do que estava fazendo, mas a falta de dinheiro é uma excelente mestra e fui aprendendo, aos trancos e barrancos. Não era como agora. O curso da Anhanguera se chamava “Faculdade Ibero-Americana” e ainda estava começando. Tradução era geralmente considerada passatempo de intelectuais. Era tudo na base da máquina de escrever.

Conhecia poucos tradutores e a gente não trocava informações, por medo da concorrência. A Internet mudou tudo isso. Comecei a participar ativamente de troca de informações logo que foi liberada para uso de particulares, lá para 1995. Participava da trad-prt quando ainda era no IF da USP e mais caia do que funcionava. Logo depois do ano 2000 já estava dando cursos a distância. Nunca parei.

A Arthur Andersen desapareceu em 2002, vítima de seus próprios erros. A Editora Atlas continua firme, mas não publica mais traduções. Eu estou aqui, no Multitude, compartilhando um pouco da minha experiência.

Danilo Nogueira, tradutor IN-PT, residente em São Bernardo do Campo, SP. Especializado em tradução na área de negócios.
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Minha história: Chrystal Caratta

Fiz minha primeira tradução aos 16 anos. Conheci a um sueco que namorava uma brasileira e não falava português. A namorada desapareceu no mundo e ele queria enviar uma carta (!) aos pais dela. Escreveu em inglês, eu traduzi. A carta era longa, poética, sofrida. Entendi, nesse preciso momento, que mais que passar umas palavras ao português, eu precisava traduzir a angústia que ele sentia de ter sido deixado num altar que nunca existiu. Como todo bom cliente, uma vez entregue a tradução, ele comparou minha versão com a versão do Google Translate (que naquela época funcionava em marcha à ré) e pediu algumas explicações. Clients will be clients.

Muitos anos se passaram até que eu fiz minha primeira tradução profissional e remunerada. Estava terminando a faculdade e procurando uma maneira de ganhar dinheiro para me casar com um namorado alemão. Paguei a mensalidade da Catho e encontrei um anúncio de uma agência que buscava tradutores no par alemão > português. Nesse momento eu nem imaginava que existia um exército invisível de nós. Um teste e um NDA depois, em 2008, eu estava sentada na BemTradUz aprendendo a usar ferramentas CAT, trabalhar com terminologia e fazer controle de qualidade (um beijo pra BemTradUz!).

Minha primeira agência me ensinou tudo o que eu sei hoje. Lá fiz bons amigos que levo pela vida, aprendi a trabalhar com ética, paciência e comprometimento com a qualidade. Você não precisa começar sua carreira em uma agência e é bem possível que você construa uma carreira de sucesso sem nunca ter pisado em uma. Mas esses anos que eu passei com a BemTradUz, dinheiro nenhum do mundo é capaz de recompensar.

Minhoca de agência, depois da BemTradUz trabalhei em algumas outras mais, seduzida pelos salários cada vez mais altos. Alguns traumas depois (estas agências eram de chorar), comecei a traduzir de casa. Trabalhei com agências no Brasil e na Europa, aprendi contabilidade básica – como carga tributária e composição de preços. Aproveitei a flexibilidade do trabalho e me mudei pra Buenos Aires. Estava feliz, tomando vinho, escutando tango e traduzindo meus projetinhos honestos quando o bicho da agência voltou a me morder.

A Latinlingua, onde trabalho hoje, estava contratando tradutores in-house de português. Era um trabalho feito especialmente pra mim, mas eu estava muito traumatizada para voltar a trabalhar em relação de dependência. Sem muitas expectativas, algumas entrevistas depois eu estava contratada, pedindo minha residência permanente na Argentina e viajando no segundo metrô mais antigo do mundo todos os dias.

Na Latinlingua encontrei o espaço para desenvolver tudo que eu aprendi na BemTradUz. Aprendi que o mercado de tradução são vários e que nem todas as agências do mundo esperam que a gente traduza volumes homéricos pagando tarifas de Lilliput. Aprendi que uma boa tradução tem diversas camadas de trabalho e que escrever no idioma-alvo é apenas a primeira e mais fácil delas. Aprendi que nem todo cliente é implicante e que há muitos por aí querendo estabelecer parcerias de qualidade.

Há muitos anos eu vivo da tradução. É ela quem paga integralmente minhas contas. E meu primeiro cliente, o amigo sueco, continua sendo amigo e cliente. Começou a trabalhar em um grande banco canadense e, hoje, paga feliz todas as traduções que faço pra ele. E eu traduzo tudo, profissionalmente e com a mesma dedicação daquela primeira carta.

Chrystal Caratta é tradutora de alemão, inglês e espanhol para o português do Brasil. Reside em Buenos Aires e tem especial predileção por transcriação, terminologia, mídias sociais e controle de qualidade.
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Minha história: Caroline Alberoni

Comecei a estudar inglês em uma escola particular de idiomas aos 12 anos, por incentivo da minha mãe. Aos 15 anos, fui obrigada a usar o que havia aprendido até o momento quando viajei para a Suécia sozinha para passar as festas de fim de ano com uma tia que mora lá. Durante três meses, enquanto ela trabalhava, eu passeava pela bela cidade de Estocolmo e fazia aulas particulares de inglês. Quando voltei ao Brasil, ainda fazendo o curso de inglês, fui convidada a monitorar os alunos no laboratório, ajudando-os a fazer as tarefas, tirando dúvidas etc. Algum tempo depois, comecei a dar aulas nessa mesma escola, atividade que exerci até meu último ano de faculdade.

Portanto, quando chegou o momento de decidir qual curso prestar no vestibular, a única coisa que me vinha à cabeça era: algo que envolva o inglês. Ao consultar o guia do estudante, meus olhos brilharam ao ver o curso perfeito: tradução. Não havia segunda opção. Era isso ou… nem eu sei o que seria. Naquele mesmo ano, prestei como treineira. No ano seguinte, prestei novamente, mas não passei. Foi na mesma época em que aquela minha tia que morava na Suécia estava se mudando para a Inglaterra e tinha acabado de ter um filho. Ela me convidou para ser au pair do meu primo e eu aceitei. Morei com eles sete meses em Cambridge, trabalhando e fazendo cursos de inglês. Prestei o IELTS e o CAE. Apaixonei-me pela Inglaterra. Voltei ao Brasil, fiz cursinho e, dois anos depois, consegui passar no curso de Bacharelado em Letras com Habilitação de Tradutor na Unesp de São José do Rio Preto, SP.

Depois dos quatro anos, mudei-me para a Inglaterra novamente para fazer mestrado. Dessa vez, em Guildford, por um ano. O curso, Translation Studies with Intercultural Communication. Quando voltei, imediatamente comecei a procurar emprego. Meu sonho era ser freelancer, mas imaginava que seria difícil conseguir clientes de imediato, portanto, procurava também em outras profissões, como secretária bilíngue. Dois meses depois, descobri que uma agência de tradução estava procurando tradutores freelancers. Perfeito! Eles me passavam projetos que me ocupavam em tempo integral. Com o tempo, fui trocando experiências, lendo e aprendendo. Aprendi a gostar da parte empreendedora e de marketing. Criei perfis em várias redes sociais, fiz cartões de visita, um site e um blog. Comecei a divulgar os meus serviços e a procurar outros clientes. Tive uma breve experiência interna em um cliente e comprovei que nasci para ser freelancer mesmo.

Hoje, tenho cerca de sete clientes (entre agências e clientes diretos) que me passam traduções todos os meses. Uns com mais frequência, outros com menos, mas, desde que comecei, sempre tenho trabalho. Já aprendi muito, mas sei que nosso aprendizado é constante e infinito. O segredo é estar sempre aberto a novas experiências, a conselhos e a feedbacks. Além de não ter medo de arriscar.

Caroline Alberoni é tradutora profissional com quatro anos de experiência e formação educacional abrangente na área (graduada e mestre em tradução). Ela traduz do inglês e do italiano, e suas áreas de domínio são TI, marketing e negócios. É a responsável pela Alberoni Translations, empresa que administra com dedicação, comprometimento, profissionalismo e o mais profundo interesse pelas necessidades do cliente. Caroline é membro do ProZ, do Sintra (Sindicato Nacional dos Tradutores), da Abrates (Associação Brasileira de Tradutores e Intérpretes) e da IAPTI (International Association of Professional Translators and Interpreters). O blog Carol’s Adventures in Translation é seu projeto mais recente. Nele, você encontra publicações semanais interessantes e informativas sobre tradução, tanto em inglês quanto em português. Caroline Alberoni está ativamente presente em todas as redes sociais. Adicione-a no Google+, Twitter, Facebook, LinkedIn e Pinterest, e acompanhe notícias e artigos diários.